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3 – A Carruagem Fantasma (1921)

Körkarlen / The Phantom Carriage

1921 / Suécia / P&B / Mudo / 93 min / Direção: Victor Sjöström / Roteiro: Victor Sjöström (baseado no livro de Selma Lagerlöf) / Produção: Charles Magnusson (não creditado) / Elenco: Victor Sjöström, Hilda Bogström, Tore Svennber, Astrid Holm


 E seu eu lhe contasse que a cena mais famosa de O Iluminado, um dos grandes clássicos do terror, dirigido por um sujeito genial com Stanley Kubrick, que 11 em cada 10 fãs de cinema babam ovo, foi descaradamente copiada (ou inspirada, homenageada, ou sei lá como você queira chamar) de A Carruagem Fantasma, filme sueco de 1921? Duvida? Dê então uma olhada AQUI.

Pois é, quando você acha Jack Nicholson o máximo destruindo ensandecido uma porta à machadadas para pegar a esposa, o diretor Victor Sjöström já havia feito isso 60 anos antes, em uma cena praticamente I-DÊN-TI-CA!

A Carruagem Fantasma é um dos grandes clássicos do cinema fantástico de todos os tempos. Aqui em 1921, apenas 26 anos depois da primeira exibição pública de imagens em movimentos dos irmãos Lumiére, já conseguimos vislumbrar todo o potencial que a sétima arte poderia chegar em seu futuro e como os efeitos especiais virariam parte importante do cinema. Essa produção não só foi responsável por colocar no mapa o diretor / escritor / ator Victor Sjöström e dar o pontapé inicial para o cinema mudo sueco, como também serviu de referência e inspiração para centenas de diretores, como por exemplo, além do próprio Kubrick, Steven Spielberg e Quentin Tarantino, que em determinado momento de suas carreiras, beberam na fonte do que A Carruagem Fantasma desbravou na longínqua década de 20.

Pode parecer ingênuo e bobo ao se ver esse filme quase cem anos depois, ainda mais para a geração acostumada aos efeitos especiais de CG, ritmo alucinante e edição que as vezes pode causar até ataques epilépticos nos mais sensíveis. Mas Sjöström foi um baita visionário e percussor no clássico tipo de efeito especial que mostra um mundo etéreo e a presença de fantasmas.

Don't feat the reaper

Don’t feat the reaper

Utilizando uma série de sobreposição de imagens meticulosamente ensaiadas, o diretor sueco inventou a forma clássica do fantasma translúcido e impressionou plateias com sua carruagem vagando por estradas e mares e uma presença espectral atravessando portas e paredes. E como se não bastasse isso, ele institui uma narrativa não linear, absurdo para a época, dividindo o filme em cinco capítulos com tramas e histórias entrecortando-se entre si, passeando pelo presente e passado através de flashbacks e um verdadeiro vai e vem temporal.

Isso tudo para contar uma história da degradação humana, de forma poética e redentora, muito me lembrando o famoso “Um Conto de Natal” de Charles Dickens. Aqui, baseado no livro de Selma Lagerlöf, somos apresentados a David Holm (interpretado pelo próprio Sjöström), um sujeito alcoolatra que cai em desgraça, trazendo sofrimento e infortúnio para sua família e aqueles que se envolvem com ele, e precisa de um chacoalhão sobrenatural para resolver tomar rumo na vida.

Chacoalhão esse dado pelo cocheiro da tal carruagem fantasma. Reza a lenda que a última pessoa que morrer na véspera do ano novo (eles não especificaram qual fuso horário que conta, mas enfim…) antes das doze badaladas do sino, está fadado a se tornar o cocheiro da morte e conduzir a carruagem durante todo o próximo ano, coletando corpos para levá-los a danação eterna.

Here's Johnny... não, pera...

Here’s Johnny… não, pera…

Holm envolve-se em uma confusão após se recusar a ver uma salvacionista do Exército da Salvação prestas a morrer, cuja qual ele humilhou e destratou durante todo o ano, após ter se entregado à bebida quando sua esposa, cansada das mazelas, o abandonou. Como se não bastasse, ela está com os dois pés na cova devido a uma pneumonia mortal contraída do próprio David. Nessa briga Holm é esfaqueado e cai morto pouco antes do ano novo começar, e daí o atual cocheiro passeia com ele por elipses de tempo e lugares para conhecermos toda a vida que esse sujeitinho desprezível levava antes de assumir o seu posto. E só o amor e a reparação de seus pecados que poderão salvá-lo desse infortúnio.

Como todo o cinema mudo, A Carruagem Fantasma claramente envelheceu e ficou datado e limitado por sua idade. Principalmente o seu dilema moral teosófico, que hoje pouco importaria em um mundo tão sem sentido como esse que vivemos, e a ingenuidade gritante de seus personagens, como a pobre salvacionista, a abnegada Edit, que inexplicavelmente e sem nenhum motivo aparente ama de paixão o bastardo do David, mesmo sendo espinafrada e tratada com um lixo pelo beberrão. Mas é impressionante ver como o filme foi visualmente trabalhado, todo o seu misé-en-scene e principalmente a sua desconstrução cronológica.

Pois então levante a bunda do sofá, deixe a preguiça de lado e qualquer nariz torto com relação ao cinema mudo e P&B e assista A Carruagem Fantasma. É uma aula e obrigatório para quem se diz fã do cinema fantástico.

Highway to hell

Highway to hell


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Eryck Batalha disse:

    Onde estão os links, amigão?

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