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15 – A Queda da Casa de Usher (1928)

La chute de la Maison Usher / The Fall of House of Usher

1928 / França, EUA / P&B / Mudo / 63 min / Direção: Jean Epstein / Roteiro: Jean Epstein, Luis Buñuel (adaptação) (baseado na obra de Edgar Allan Poe) / Produção: Jean Epstein / Elenco: Jean Debucourt, Marguerite Gance, Charles Lamy, Fournez-Goffard


 Jean Epstein, com a ajuda de Luis Buñuel, transpõe para o cinema o que pode ser considerada a primeira adaptação de um conto de Edgar Allan Poe a se tornar famosa na sétima arte: A Queda da Casa de Usher, marco do expressionismo francês.

Um filme bastante interessante, deveras macabro e assustador, apesar de datado e tendo em vista toda a limitação da época. A Queda da Casa de Usher é opressor, conseguindo utilizar muito bem a trilha sonora para criar o clima certo de pavor, talvez a que saiba melhor usar esse expediente ao seu favor, de todos os filmes mudos dessa lista. E apesar da metragem curta, a mensagem é direta e explícita: tristeza, possessão, solidão, perda e desespero.

Roderick Usher vive em um casarão isolado do resto da humanidade, envolto nas sombras e pela neblina, cercado por um pântano. Sua obsessão é tentar preservar em um quadro a beleza de sua mulher Madeleine, por toda eternidade, assim como os demais amaldiçoados membros do clã Usher fizeram durantes os tempos, deixando a enferma esposa sucumbir lentamente na vida real, vítima da reclusão, enquanto sua força e vitalidade vão esvaecendo quanto mais o quadro se torna vívido.

Em sua obsessão, Madeleine acaba padecendo e Roderick se toma por uma mistura de dor, culpa e sofrimento, principalmente quando a esposa vai ser enterrada, com o consentimento de Roderick. A cena do cortejo fúnebre e a trilha sonora enfurecida que se acompanha é realmente uma das mais impactante no cinema de terror de vanguarda no final da década de 20. É desconfortável ver os homens levando-a até o mausoléu, com o véu branco da morta esvoaçando para fora do caixão, elemento que seria muito importante na narrativa futura.

Não é aquele rapper

Não é aquele rapper

Se você já leu o conto de Poe, ou assistiu alguma outra adaptação do conto, como O Solar Maldito, dirigido por Roger Corman e estrelado por Vincent Price nos anos 60, já sabe o desfecho dessa história. Senão, ALERTA DE SPOILER, pule para o próximo parágrafo, ou leia por sua conta e risco: Madeleine na verdade sofre de catalepsia e foi enterrada viva, voltando da tumba em uma noite de tempestade para prestar contas, fazendo com que a mansão de Usher começa a ruir. Diferentemente do livro (e do filme de Corman), onde Madeleine aparece com a roupa rasgada e suja de sangue, devido a luta para conseguir sair do caixão, aqui Epstein trabalha a imagem de uma figura mais etérea e plácida, com um viés mais fantasmagórico.

O diretor também é responsável por criar uma belíssima atmosfera angustiante e depressiva em quase todo o filme, utilizando recursos visuais subjetivos muito interessantes, como o esvoaçar das cortinas, folhas secas voando pelos corredores, névoas, a corda de um violão arrebentando, suspensão do assoalho, o movimentar de um pêndulo, e técnicas como uso de deformidades óticas e o total controle do contraste entre luz e sombra. Tudo isso para criar essa pegada sinistra.

Outro detalhe interessante é que Epstein utilizou outros contos de Edgar Allan Poe para construir a história de A Queda da Casa de Usher, além do conto homônimo, mesmo com suas mudanças estruturais que podem até desagradar os fãs da obra, como no caso de Roderick e Madeleine serem irmãos no livro, eliminando aqui a mensagem subliminar do incesto (algo que Corman também não utilizou em sua versão, colocando um pretendente pela irmã do personagem de Price na trama), também desenvolveu a ideia da tortuosa perda da mulher amada, como em O Corvo, seu mais famoso poema, e elementos de O Quadro Oval, onde um pintor representa a angústia de pintar um quadro de seu amor, ou mesmo Ligeia que também é citado na produção.

Mas em A Queda da Casa de Usher estão ali todos os elementos necessários para um bom filme de terror, assim como ambientação perfeita, narrativa pesada, uma história macabra, um trabalho extremamente competente do diretor e incrível atuação de Jean Debucourt como o obsessivo e traumatizado personagem central.

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Espelho, espelho meu…

 


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

11 Comentários

  1. Pensador Louco disse:

    Muito bom, nunca tinha visto esta versão. Obrigado por compartilharem. 8)

  2. Alexandre disse:

    Gostei muito da sua resenha. Existe uma outra versão de “A queda da casa de Usher”, também de 1928, dirigida por James Sibley Watson e Melville Webber, com roteiro do poeta americano e.e. cummings, com 13 minutos de duração. Se não me engano a imagem que traz a legenda “Não, o Usher não é aquele rapper…” é desse filme e não do filme de Epstein.

  3. “Não, Usher não é aquele rapper”. UHAUHAUHAUHAUHAUHAUHAUHAUHAUHAUHA!!!

  4. Piukuticka disse:

    Primeiramente parabens pelo 101horrormovies
    A Queda da Casa de Usher (1928) é perfeito e maravilhoso
    Seu comentario esta muito bem construido e sistematizado Parabens
    http://101horrormovies.com/2012/11/16/15-a-queda-da-casa-de-usher-1928/

  5. Jailton disse:

    Nesta página, onde fica o link para baixar o filme? Desde já, obrigado!

  6. Allan Vidal disse:

    Olá, muito bom o blog. Apenas gostaria de corrigir uma informção.. Esse filme foi um marco do Impressionismo francês(e não expressionismo). Obrigado pela atenção!

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