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40 – A Filha de Drácula (1936)


Dracula’s Daughter


1936 / EUA / P&B / 71 min / Direção: Lambert Hill / Roteiro: Garrett Fort / Produção: E.M. Asher / Elenco: Otto Kruger, Gloria Holden, Marguerite Churchill, Edward Van Sloan, Irving Pichel


 

Diferente de A Noiva de Frankenstein, a ideia de uma continuação para o sucesso de Drácula não deu tão certo, resultando em um baita de um filme meia-boca. Estou falando de A Filha de Drácula, que junto com o filme de James Whale lançado um ano antes, acaba por inaugurar uma tendência da Universal de investir em sequências intermináveis de seus monstros, atirando para todos os lados e todos os graus de parentesco possíveis.

A grande diferença de A Filha de Drácula para A Noiva de Frankenstein, é que o segundo trouxe o diretor do original de volta, dando-lhe total controle criativo sobre a obra, trazendo novamente Boris Karloff no papel do monstro (ainda melhorado) e resultando em um filme, em muitos aspectos, superior ao antecessor. Já nessa fita, nem Tod Browning retorna à direção e nem Bela Lugosi volta a vestir a capa e as presas. Na verdade o Conde aparece de relance apenas no começo da história, que se inicia exatamente onde o filme de 1931 terminou.

Van Helsing (papel reeditado por Edward Van Sloan) enfiou uma estaca no coração do Conde e do maluco Reinfield, e é apanhado pela polícia e obrigado a prestar contas dos assassinatos que cometera, afinal, ninguém vai cair na história dos vampiros que ele conta. E esse é um aspecto bastante positivo do filme, trazer o fantástico para um campo mais plausível, onde o intrépido professor tem de explicar porque tirou a vida de duas pessoas aparentemente normais (mais ou menos como veremos anos mais tarde em Nosferatu – O Vampiro da Noite de Werner Herzog, onde Van Helsing acaba sendo preso também no final do filme, após matar o vampiro-mor). Só que o corpo de Drácula é roubado do necrotério por sua filha, a Condessa Marya Zeleska, interpretada pela bela e enigmática Gloria Holden, para prover um enterro digno ao pai, finalmente libertando sua amaldiçoada alma.

Esse castelo tá precisando de uma faxina

E liberdade é algo pelo qual a vampira anseia também, querendo renegar o sangue, os instintos e os poderes de sua família, porém, sem muito sucesso. Para isso, ela pede ajuda do Dr. Jeffrey Garth (Otto Kruger), um pupilo de Van Helsing, que estuda o campo da hipnose e da autossugestão para curar fobias. Hipnose a qual a Condessa é craque, pois usa um enorme anel no dedo para poder controlar mentalmente suas vítimas (obviamente, sem o mesmo charme do olhar arregalado e exagerado de Lugosi como Drácula). Só que a carne é fraca, e a Condessa faz mais uma vítima, uma pobre coitada que foi contratada pelo seu braço direito / mordomo / capanga, Sandor, para servir de modelo viva para um quadro.

Aí entramos em outro aspecto que torna o filme um pouco mais interessante, que é o desejo lésbico da vampira. Ela fica toda animadinha quando a garota futura vítima começa a se despir para a pintura. Bom, na verdade podemos julgar que Zeleska é bissexual no entanto, já que ela também demonstra uma certa queda pelo Dr. Garth. E claro que se falando de um filme da década de 30, qualquer sugestão que fuja um pouco mais dos padrões moralistas da época, é bem vinda, mesmo que completamente implícita e recalcada.

História vai, história vem, Zeleska rapta a assistente e paixonite de Garth, Janet, e a leva para o castelo da família na Transilvânia, onde é perseguida por Garth, Van Helsing e a polícia, sendo morta no final das contas por um flechada que atravessa seu coração, disparada pelo mordomo Sandor. Uma puta de um final preguiçoso.

A Filha de Drácula é uma sequência desnecessária, mas que tem alguns pontos positivos, como  apuração técnica maior e abuso de cenários, se comparados ao primeiro filme lançado apenas cinco anos antes, mostrando o quão rapidamente evoluía a indústria cinematográfica. Além daquele famoso requinte gótico e climão característicos dos filmes de vampiro da Universal, fotografia enxuta e atuações sóbrias (tirando aqueles personagens cômicos ao melhor estilo pastelão, geralmente policiais, que a Universal adorava colocar em seus filmes). É tudo muito bem executado, só que acaba não se sustentando no resultado final. Uma pena.

Tal pai, tal filha



Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. […] por Lambert Hillyer, o mesmo de A Filha de Drácula, O Raio Invisível é um dos percussores do cinema de ficção-científica que seria visto […]

  2. […] diferente, por exemplo, de A Filha de Drácula, O Filho de Frankenstein na verdade é um excelente filme, e um dos melhores da era de ouro do […]

  3. […] continuações de Drácula são as piores disparadas. Tanto O Filho de Drácula, quanto o anterior A Filha de Drácula, são duas bombas que não deveriam nem ter sido feitas. Bem diferente do que aconteceu com as duas […]

  4. […] e na utilização da figura erótica e sexual de uma vampira transparecendo desejo carnal. Em 1936, A Filha de Drácula da Universal, também trazia uma improvável personagem vampiresca, a Condessa Marya Zeleska […]

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