Nunca confie em bonecos de ventríloquos

63 – Na Solidão da Noite (1945)

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Dead of Night


1945 / Reino Unido / P&B / 103 min / Direção: Alberto Cavalcanti, Charles Crichton, Basil Dearden, Robert Hamer / Roteiro: John Baines, Angus MacPhail (baseado em histórias de H.G.Wells, E.F. Benson, John Baines, Angus MacPhail) / Produção: Michael Balcon; Sidney Cole e John Croydon (Produtores Associados) / Elenco: Mervyn Johns, Roland Curver, Mary Merrall, Googie Withers, Frederick Valk


 

Na Solidão da Noite é um filme atemporal, muito adiante de seu tempo. Foi o precursor de um estilo de cinema de terror que se tornaria muito comum e adorado pelos fãs do gênero: uma junção de várias histórias, formando uma antologia, sempre com um personagem que funciona como o fio condutor entre os contos.

Além disso, Na Solidão da Noite é um dos primeiros filmes de terror realizados na Inglaterra desde o começo da Segunda Guerra Mundial. A censura sempre foi muito forte na terra da Rainha, e até por isso, muitos filmes americanos não chegavam nem a serem exibidos no velho continente, pois eram considerados excessivamente violentos. Então era um território praticamente inexplorado.

Pois bem, a trama tem o arquiteto Walter Craig como personagem que mantém o elo das diversas histórias sobrenaturais que irão se desenrolar durante o decorrer do filme. Craig sofre de pesadelos recorrentes com um grupo de pessoas que se reúnem em uma casa de campo. Noite após noite ele é atormentado pelo mesmo sonho. Até que em determinado final de semana, ele é contratado pelos proprietários de uma casa para realizar uma reforma, e lá em seu interior, ele encontra exatamente o mesmo grupo de pessoas e as mesmas situações vividas em seu sonho, que sempre teve um desfecho macabro. É como se ele tivesse uma espécie de premonição, e tudo que Craig vira em seu sonho, vai tornando-se realidade.

Cada uma dessas pessoas ali presentes irá contar uma história fantástica diferente, cinco ao total, cada uma dirigida por um diferente diretor (inclusive o brasileiro Alberto Cavalcanti) e com roteiros individuais, e entre uma e outra, o psicanalista Dr. Van Straaten vai analisando o convidado e dando várias interpretações para seus sonhos e os diferentes acontecimentos contados por aquele grupo de pessoas, sempre procurando uma resposta cética e plausível.

A turma toda reunida

A turma toda reunida

A primeira história, The Hearse Driver, dirigida por Basil Dearden e escrita por E.F. Benson, é contada pelo piloto de corridas Hugh Grainger, que após sofrer um grave acidente na pista, sobrevive milagrosamente. Ainda internado, ele tem uma estranha visão da janela do seu quarto: um misterioso cocheiro está parado em uma carruagem toda negra e sinistra que diz a ele “tem espaço para mais um, Senhor”, e desaparece em seguida. Hugh fica com aquilo na memória, até que após ter alta do hospital, ele está prestes a tomar um ônibus, quando o motorista é o mesmo que ele havia visto dirigindo a carruagem e fala novamente a frase: “tem espaço para mais um, Senhor”. Amedrontado, Hugh desiste de pegar o ônibus, que logo em sequência, perde o controle e cai de uma ponte. Ou seja, o estranho sonho salvou o piloto da morte mais uma vez.

A segunda história é Christimas Party, dirigida por Cavalcanti e escrita por Angus MacPhail. Nela, a jovem Sally O’Hara está em uma festa de Natal em uma velha mansão, onde as crianças estão brincando de esconde-esconde. A garota é encontrada por Jimmy Watson, que a esconde no sótão para não serem descobertos, e na tentativa de assustá-la, conta a história de Francis Kent, um garoto que havia sido assassinado naquele mesmo local por sua irmã. Jimmy deixa o ambiente e Sally ouve o choro de um garotinho. Ao atravessar uma porta secreta no sótão, encontra um jovenzinho triste e perdido. Sally presta assistência a ele e o coloca na cama para dormir, para mais tarde, descobrir que não há nenhum garotinho no local e que ela acabara de ter um contato com o fantasma de Kent.

The Haunted Mirror é a terceira e assustadora história, dirigida por Robert Hamer e escrita por John Baines. Contada por Joan Cortland que certa vez comprou um espelho para seu marido Peter de aniversário. O espelho outrora pertenceu a um antigo aleijado que assassinou sua esposa, e começa a refletir a personalidade doentia de seu primeiro dono para Peter, que passa a perder a sanidade, sendo levado pelas visões refletidas naquele terrível espelho, a ponto de quase matar a sua esposa. Já a quarta história, Golfing Story, dirigida por Charles Crichton e escrita por H.G. Wells, é a mais fraca de todas, com um desnecessário tom cômico que destoa de todo o resto da produção, onde dois jogadores de golfe rivais, George Paratt (o narrador da história) e Larry Potter disputam uma partida pelo amor da bela Mary Lee. Enganado por George, Larry comete suicídio entrando no rio, e passa a atormentar (não no sentido assustador da palavra, mas no sentido de aporrinhar mesmo) George, acompanhando-o até em seu casamento, já que não consegue voltar para o além por ter esquecido qual o ritual necessário para tanto.

Espelho, espelho meu...

Espelho, espelho meu…

A quinta e última história, The Ventriloquist’s Dummy, é a cereja do bolo, a mais bem executada e macabra dentre todas (inclusive com a maior duração). Também dirigida por Alberto Cavalcanti e escrita por John Baines (o mesmo de The Haunted Mirror), aqui o Dr. Van Straaten descreve como foi convocado para fazer o diagnóstico de um prisioneiro, o ventríloquo de sucesso Maxwell Frere, que lotava todos seus shows graças ao humor ácido do boneco Hugo. Só que Frere é um esquizofrênico que sofre de dupla personalidade e credita ao boneco o real controle de sua vida. O boneco então, à procura de um novo ventríloquo, induz Frere a assassinar o rival Sylvester Kee. Por isso Frere vai parar na cadeia, completamente insano, jurando de pé juntos que a culpa era do boneco. Esse conto foi adaptado outras vezes, inclusive na famosa série Além da Imaginação, escrito por Rod Serling e com William “Capitão Kirk” Shatner no elenco e também inspirou o excelente Magia Negra, com Anthony Hopkins. Fora isso, o boneco do filme Gritos Mortais, de James Waan, lembra muito a aparência de Hugo.

Assim que todos contam suas histórias, novamente o pesadelo do arquiteto vem à tona, e ele se vê na casa perseguido por todos os personagens dos contos apresentados até então, até acordar em sua cama, e ver que novamente foi vítima do mesmo sonho recorrente. Até receber uma ligação para visitar uma casa de campo que precisa de uma reforma, e voltar novamente ao local, como no começo do filme. Mas dessa vez é outro pesadelo, ou será a realidade? Fica a pergunta no ar.

Bom, depois dessa resenha nem sobra muito sobre o que falar sobre Na Solidão da Noite. Somente que é um excelente filme de terror, e um dos melhores e mais inventivos do gênero. Indispensável para os fãs.

Nunca confie em bonecos de ventríloquos

Nunca confie em bonecos de ventríloquos



Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. […] que ficou famosa exatamente por esse estilo de filme portmanteau, inspirado originalmente por Na Solidão da Noite do Eraling Studios, que teve início com As Profecias do Dr. Terror e seguiu-se com As Torturas do […]

  2. Guilherme disse:

    Olá, Marcos!

    Existe alguma forma de eu entrar em contato com você sem ser por intermédio do site? Quero dizer, uma forma em que possamos ter maior privacidade, sem o conhecimento de terceiros; pode ser um simples endereço de e-mail mesmo. É que, às vezes, quero fazer algum comentário sobre um determinado filme mas fico com certo receio de ficar parecendo que a minha verdadeira intenção é contrariá-lo ou corrigi-lo em alguma coisa, e eu jamais gostaria de se tornar um inconveniente para você. É claro que todos os comentários que eu considerar totalmente inofensivos continuarão a serem postados aqui mesmo; com a sua anuência, é claro.
    Caso você ache necessário, sinta-se à vontade para não postar este meu comentário; você pode, por exemplo, apenas enviar uma mensagem ao meu endereço de e-mail, já registrado aqui no site mas que não custa repeti-lo, guiavilatofani@yahoo.com.br, e aí, consequentemente, vou saber qual é o seu endereço de e-mail e assim poderei me corresponder com você, de forma privada, quando achar necessário. Estou ciente de que alguns debates em público são por vezes até, digamos assim, salutares para o projeto do site, mas há certos casos em que não seria pertinente discuti-los por aqui e que, por isso mesmo, seria muito mais apropriado abordá-los “pessoalmente”.
    Bom, qualquer que seja a sua decisão, vou respeitá-la, pode ficar absolutamente despreocupado quanto a isso.

    Um abraço!

    Guilherme

    • Guilherme, fique a vontade para postar o que quiser aqui de comentário. Esse é o espaço de interação com vocês leitores do blog, mesmo que não concordem comigo ou queiram apresentar seus argumentos e opiniões. Acho que dentro da minha proposta, não existe muito isso de me contrariar ou corrigir. Esse blog é um exercício pessoal e completamente parcial do que eu penso sobre os filmes que assisto. Então de forma nenhuma seria inconveniente saber opiniões diferentes e também pessoais. É só não ser ofensivo que não teria nenhum motivo em não publicar o comentário e até virar um bate papo.

      Ou então você pode mandar mensagens pela página do Facebook, que só eu terei acesso. Você já curtiu? https://www.facebook.com/101HorrorMovies. E lá podemos trocar ideias.

      Abs

      Marcos

  3. Guilherme disse:

    Que bom então saber que posso gozar de total liberdade aqui no site, isso é muito legal. Em relação a ser ofensivo, expressei-me muito mal quando mencionei o termo, eu deveria ter escolhido um vocábulo mais apropriado; na verdade eu estava apenas me referindo a fazer comentários que pudessem passar uma ideia errônea de que eu poderia estar com o propósito de denegrir ou depreciar o site; foi só nesse sentido mesmo, e não no de realmente ofendê-lo, fazendo uso de palavras de baixo calão e tal.
    Bom, então é isso aí. Agradeço mais uma vez pela generosa atenção.

    Um abraço!

    Guilherme

  4. […] nos idos anos de 1945, o filme Na Solidão da Noite trouxera uma assustadora história de ventriloquismo em seu segmento “The Ventriloquist Dummy”, […]

  5. […] anteriores como o surreal A Boneca do Demônio, os filmes com bonecos de ventríloquos do mal como Na Solidão da Noite ou Magia Negra mesmo o sensacional conto da antologia de José Mojica Marins em O Estranho Mundo […]

  6. Rick disse:

    Realmente esse filme é muito bom, já vi três vezes.

  7. Allan Denizart Nogueira Coêlho disse:

    Basil Dearden também dirige o episódio que faz a conexão entre as cinco histórias.

  8. […] não gosta de antologias de terror? Desde Na Solidão da Noite, passando pelos clássicos da inglesa Amicus até chegar em V/H/S, esse estilo de filme com […]

  9. Cheyenne Neko disse:

    gostei muito do filme e de como as historias conduziram tudo ao desfecho do filme de forma harmoniosa

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