Jogo de sombras

64 – No Silêncio das Trevas (1945)

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The Spiral Staircase


1945 / EUA / P&B / 83 min / Direção: Robert Siodmak / Roteiro: Mel Dinelli (baseado na obra de Ethel Lina White) / Produção: Dore Schary (não creditado) / Elenco: Dorothy McGuire, George Brent, Ethel Barrymore, Kent Smith, Rhonda Fleming, Gordon Oliver

 

No Silêncio das Trevas, com o perdão da palavra, é um PUTA thriller. Filme muito bem executado pelo diretor Robert Siodmak, que teve sua escola no expressionismo alemão, que mistura suspense, um casarão vitoriano, um serial killer, estética de filme noir e um clima gótico de mistério.

Toda a forma que o longa é conduzido é magistral. Sua fotografia, o jogo de câmera, ângulos e movimentos pouco usuais no cinema até então, os planos, e o mais importante, a construção da atmosfera perfeita, até levar a conclusão final, que infelizmente acaba pecando um pouco e deixa-o por um triz de torná-lo um filme perfeito.

O roteiro, baseado no livro “Some Must Watch” de Ethel Lina White nos traz um assassino que vem aterrorizando uma pequena cidade, matando mulheres que tenham em comum algum tipo de deficiência. Aí entra na história Helen, protagonista do filme, interpretada estupendamente por Dorothy McGuire, uma jovem que ficou muda após passar por uma traumática experiência ao ver a casa de seus pais ardendo em chamas.

Helen trabalha na casa dos Warren, onde moram o Professor Warren, sua mãe enferma que vive de cama e precisa de cuidados constantes, Sra. Warren, e seu meio-irmão Stephen. Junto com ela trabalham e vivem na mansão Blanche, a secretária que tem um caso com Stephen, o Sr. e Sra. Oates, ambos empregados e a enfermeira Baker, que vive sendo maltratada pela rabugenta Sra. Warren.

Uma noite de tempestade se aproxima, e todos esses personagens, incluindo o Dr. Parry (interpretado por Kent Smith, de Sangue de Pantera), apaixonado por Helen que tenta ajudá-la a recuperar sua voz, estarão ligados dentro desse casarão como cenário, envolvidos em intrigas familiares, paixões e mistério, elementos perfeitos para um suspense controlado enquanto o assassino trabalha à espreita, em busca de sua próxima vítima.

À espreita

À espreita

Isso é o que posso contar do filme sem estragar nada. Claro que no decorrer da história seremos munidos de informações sobre cada um dos ali presentes, que nos dará pistas para tentarmos desvendar quem anda praticando tais atos hediondos, até chegarmos no final, onde a verdadeira identidade do assassino é revelada em uma cena de extrema tensão crescente, que acontece na tal escada espiral, que remete ao título original do filme.

Mas toda a fita é construída de forma magnífica, com todos seus elementos em perfeita sintonia. Primeiro, temos uma garota que não pode gritar ou pedir por socorro, então isso vai aumentando ainda mais a dose de pavor e angústia, principalmente durante sua perseguição. Segundo, temos diversos personagens excêntricos, enclausurados dento daquele casarão, cada um com uma motivação ou comportamento suspeito, que poderia pintar como o assassino no final da trama. Terceiro é a ambientação perfeita nas tomadas entre os grandes quartos e corredores da mansão, porões e demais aposentos, opressivamente somada com a ameaçadora tempestade lá fora. Quarto é a competente atuação de todos os atores, em plena sintonia, principalmente de Dorothy McGuire e de Ethel Barrymore, que faz o papel da Sra. Warren, que concorreu ao Oscar® de Melhor Atriz Coadjuvante naquele ano.

O que mais chama a atenção em No Silêncio das Trevas é a direção vanguardista de Siodmak, e certos detalhes que ele coloca em cena que deslumbram. Vamos sempre lembrar que estamos falando de um filme da década de 40, mas alguns elementos nos rementem aos melhores giallos que serão rodados décadas depois. Parece que você está você está assistindo um filme perdido no tempo / espaço de Dario Argento ou Mario Bava. O assassino usando sua luva de couro, mortes violentas e com requintes de crueldade, mesmo nunca sendo explícitas (como acontecia nos giallos), e principalmente o voyeurismo.

Na cena do primeiro assassinato, enquanto a garota troca de roupa, somos testemunhas de um sádico espreitando dentro do armário, apenas observando-a, com o diretor nos mostrando um close em seu olhar doente, já prestes a atacar a vítima. Esse mesmo olhar à espreita na escuridão é visto antes do criminoso cometer o segundo (e último) assassinato do longa, já envolto nas sombras do velho casarão dos Warren, onde um corte de cena e excelente jogo de luz e sombra ilumina apenas as mãos da vítima se contorcendo. Fora isso, ao descobrirmos sua motivação, em querer livrar o mundo dessas mulheres com imperfeições, vemos que apesar das aparências que nos enganaram até então, já que nos é reservado uma reviravolta ao descobrir a verdadeira identidade do assassino, sempre tratou-se de uma mente distorcida e perturbada.

Só para concluir esse texto, volto ao primeiro parágrafo: No Silêncio das Trevas é um PUTA thriller. Em nenhum momento soa datado e canhestro, dá para ver nitidamente a ousadia da direção de Siodmak na década de 40, e vislumbrar quantas influências futuras ele deixou para o gênero.

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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. […] polícia aos estudantes do colégio, do juiz ao próprio psicólogo. Yuzna em entrevistas citou No No Silêncio das Trevas e O Bebê de Rosemary como as maiores influencias para o clima construído em A Sociedade dos […]

  2. gustavo disse:

    Assisti ontem esse filme, por indicação do site…..grata surpresa…..realmente um ótimo filme…e dizer que foi feito nos anos 40….Valeu!!!

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