Mortícia?

124 – Plano 9 do Espaço Sideral (1959)

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Plan 9 from Outer Space


1959 / EUA / P&B / 79 min / Direção: Edward D. Wood Jr. / Roteiro: Edward D. Wood Jr. / Produção: Edward D. Wood Jr.; Charles Bug, Hugh Thomas Jr. (Produtores Associados); J. Edward Reynolds (Produtor Executivo) / Elenco: Gregory Walcott, Mona McKinnon, Duke Moore, Tom Keene, Tor Johnson, Vampira, Bela Lugosi


 

O pior filme de todos os tempos. Essa é a honraria que Plano 9 do Espaço Sideral, do emblemático Ed Wood, frequentemente carrega consigo. A verdade é que essa gema do cinema é uma pérola de valor incalculável do sci-fi trash. É objeto de idolatria e responsável pelo enorme sucesso que o diretor (também considerado o pior de todos) teria pós morte, quando seu longa viraria cult, influenciando pencas de cineastas, como o próprio Tim Burton, que dirigiu seu filme biográfico tempos depois.

Na verdade existe um fila interminável de filmes que poderiam ser considerados o pior de todos os tempos. Coloque aí nessa conta Manos: The Hands of Fate (esse sim para mim é o pior MESMO), Robot Monster, e por aí vai. O fato é que o anti-marketing de Plano 9 do Espaço Sideral é o que lhe rende o sucesso eterno, até os dias de hoje. Essa é a aura que ele carrega. Afinal, quem não tem curiosidade em ver o pior filme do mundo?

Outro dia no final do ano passado, por exemplo, estava assistindo na TV à cabo um filme chamado Pânico na Neve, não aquele do teleférico, mas a quarta continuação do outrora bom Pânico na Floresta de 2003. Para mim, esse filme é bem pior que Plano 9. Porque Plano 9 nunca soou pretensioso. Nunca se levou a sério. Ed Wood era apenas um homem que amava o cinema. E tentou ao máximo, com seus orçamentos mixórdios (este foi de parcos 60 mil dólares), grande dose de simpatia e criatividade, fazer aquilo que mais gostava na vida: dirigir filmes.

Claro, as atuações são toscas, os cenários de papelão, os discos voadores são controlados por barbantes amarrados em varas de pescar, o roteiro é uma bizarrice só. Mas quer saber, e daí? Melhor que muitos filmes de terror da geração feito-direto-para-o-DVD de hoje em dia (esse Pânico na Neve é só um das centenas de exemplos) que se levam a sério. Por mais lixo, Plano 9 do Espaço Sideral é uma declaração de amor ao cinema de horror e ficção científica. Afinal quem faria um filme financiado pela congregação batista local, sendo até batizado nessa religião, e recebendo vários pitacos na sua obra, como Ed Wood fez?

Mortícia?

Mortícia?

Além disso, Plano 9 é a última aparição de Bela Lugosi nas telas. Seu indiscutível legado, como Drácula original perpetua-se eternamente no cinema de horror. Aqui, velho, cansado, decadente, sem dinheiro e viciado em morfina, ele aparece em poucas sequências do filme, tento morrido durante as filmagens. E é emblemática, triste, melancólica e cheio de pesar a cena em que ele está parado em frente à casa, recolhendo a pétala de flor do jardim, lamentando a morte de sua esposa, antes da sua morte em cena, e de sua morte de verdade.

Mas aí vem um daqueles motivos pelos quais Plano 9 é execrado. Lugosi morreu, mas Wood teve a cara de pau de colocar um outro artistas em seu lugar, nitidamente mais novo e mais alto, cobrindo o rosto com a capa de Drácula, para ninguém perceber que não era Lugosi contracenando? E ainda tem takes em que aparece Lugosi, corta, aparece o Dr. Tom Mason, não creditado, substituindo-o (no IMDB o personagem tem o nome de Ghoul Man With Cape Over Face), que era na verdade o médico quiroprático (careca, usando uma peruca no longa) da atual namorada de Eddie.

Todos os personagens são caricatos. Não dá para levar nenhum sequer a sério. Tor Johnson, o ex-lutador de luta livre, que faz Lobo em A Noiva do Monstro, interpreta o inspetor Clay, que morre e volta à vida também. Vampire Girl, a esposa do Velho (nome do personagem de Lugosi) é interpretada por uma subcelebridade falida da televisão naqueles tempos, Vampira, que não tem uma fala o longa inteiro e fica andando para lá e para cá com sua expressão estática e braços duros, carregada de maquiagem. Os policiais são estúpidos. O piloto Jeff Trent (Gregory Walcott) é um canastrão de mão cheia, líder do coro da igreja que financiou o filme (e impôs a presença do sujeito à Wood). O coronel Edwards (Tom Keene) é outro tosco. Os alienígenas Eros, Tanna e seu líder (John “Bunny” Beckinridge, velho amigo transex de Wood) então nem se fala.

Definitivamente, Bela Lugosi's dead!

Definitivamente, Bela Lugosi’s dead!

E os cenários? O que falar daquele cemitério com as cruzes feitas de papelão, que balançam com o vento? E o interior da nave espacial? Que é um simples quartinho com uma escada e uma mesa com uma parafernalha em cima? Fora o figurino de festa à fantasia dos visitantes do espaço. E o interior do avião que Jeff pilota, então? Alguém me explique o que é aquele manche? Isso sem contar as filmagens dos discos voadores sobrevoando as cidades com seus já famosos barbantes, ou as cenas do exército em que Wood utiliza filmagens de arquivo que adquiriu de um estúdio que tinha feito vários tomadas ao acaso. E quando os canhões do exército americano disparam contra os discos voadores, estalidos e bombinhas pipocam na tela como se estivessem sendo atingidos. Coloque também nessa conta os erros crassos de continuidade.

O roteiro é uma besteira sem tamanho. Uma quase paródia trash de O Dia em que a Terra Parou. Um bando de alienígenas viajam anos luz para utilizar suas armas de elétrodos com raios e ressuscitar nossos mortos, enquanto tentam destruir a humanidade antes que os cientistas terráqueos consigam descobrir a bomba Solaronite, que imitaria partículas dos raios solares e se fosse usada, colocaria todo o universo em risco. Claro que cabe aos heróis enfrentar os zumbis, os alienígenas e salvar o mundo.

Ed Wood piora muito em todos os sentidos, com relação ao seu longa anterior, A Noiva do Monstro, que é tosco, mas um verdadeiro Cidadão Kane (por sinal, filme preferido de Wood) perto de Plano 9 do Espaço Sideral. Se tivesse nascido uma década antes, seu nome seria figurinha carimbada no Poverty Row de Hollywood com certeza.

Triste saber que sua fama post-mortem foi infinitamente maior do que a que teve em vida, pois com Plano 9, sua “obra prima”, não ganhou um níquel sequer pois os direitos do filme ficaram retidos pela igreja. Depois disso, Wood entrou em franca decadência. Crossdresser assumido, Wood passou a dirigir pornografia sob o pseudônimo de Akdov Telmig (Vodka Gimlet lido de trás para frente), escrever bizarros contos e novelas sexuais sobre travestis nos anos 70, até morrer por conta de complicações do alcoolismo.

Plano 9 é dez!

Plano 9 é dez!

Assista ao episódio do videocast do 101 Horror Movies comentando Plano 9 do Espaço Sideral:



Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. […] dos filmes trash qual é o pior filme do mundo. Os louros dessa aclamação dividem-se tanto entre Plano 9 do Espaço Sideral de Ed Wood, Manos: The Hands of Fate de Harold P. Warren e Robot Monster de Phil Tucker. Todos […]

  2. […] que a sentença “pior filme já feito” vem a cabeça, logo pensamos em Plano 9 do Espaço Sideral de Ed Wood ou Robot Monster. Mas vou te contar, O Ataque vem do Polo, para mim está ali pau a pau […]

  3. […] com quem trabalhou em dois filmes e meio (Lugosi viria a falecer durante as gravações do infame Plano 9 do Espaço Sideral, esse sim taxado o pior filme de todos os tempos). Seu sonho de ser diretor sempre passou por cima […]

  4. […] Leia a minha resenha sobre Plano 9 do Espaço Sideral aqui. […]

  5. […] se pegarmos como comparação uma dezena de filmes de Roger Corman, ou mesmo bombas homéricas como Plano 9 do Espaço Sideral, Blood Freak e Manos: The Hands of Fate, Children… se sai muito bem. Principalmente no […]

  6. Paulão Geovanão disse:

    Ed Wood foi o cara. O cara mais sem sucesso que já viveu! hahaha

  7. Dai disse:

    O link de download não está funcionando.

  8. […] e mixagem de som. Para completar, é um filme que serviu como referencia para outras obras, como Plano 9 do Espaço Sideral de Ed Wood (os personagens de Lugosi e Carroll Borland inspirariam a dupla de Joanna Lee com Lugosi […]

  9. Até ver o filme de Wood sobre ele ( para mim, o melhor papel de Depp em toda a sua carreira), não conhecia nada sobre ele. E me apaixonei. Ele, para mim, é como aquele cineasta brasileiro ( Rambo brasileiro) que foi no Jô Soares, há alguns anos atrás, e já morreu. Possuíam puro amor ao Cinema. E aquela cena com Lugosi, tocando a flor, me parte o coração…..

  10. […] de tudo que já escrevi, ainda cabe uma homenagem a Ed Wood com Plano 9 do Espaço Sideral sendo exibido na TV, uma ponta do ator Dick Miller, que esteve em vários filmes do Roger Corman e […]

  11. Rick disse:

    O que mais ri neste filme foi um disco voador que tinha uma escada de pedreiro por fora…sabe-se lá para que.

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