Boris "Wurdulak" Karloff

167 – As Três Máscaras do Terror (1963)

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I tre volti della paura / Black Sabbath


1963 / Itália, Reino Unido, França / 92 min / Direção: Mario Bava / Roteiro: Mario Bava, Alberto Bevilacqua, Marcello Fondato (baseados nas obras de Ivan Chekhov, F.G. Snyder, Aleksei Tolstoy) / Produção: Salvatore Billitteri, Paolo Mercuri / Elenco: Boris Karloff, Michéle Mercier, Lidia Alfoni, Mark Damon, Jacqueline Pierreux


Todo filme que você ler nos créditos “regia di Mario Bava”, você pode crer que na maioria das vezes verá um excelente filme de terror, afinal, Bava foi um dos mais brilhantes e técnicos diretores italianos de todos os tempos. Aqui em As Três Máscaras da Morte, mais uma vez ele mostra todos os seus recursos narrativos e estéticos.

Certo dia, Ozzy Osbourne e Tony Iommi estavam andando na rua nos anos 60 quando viram o pôster de As Três Máscaras da Morte, porém com o título que ele ganhou na Inglaterra: Black Sabbath. Maravilhados com o cartaz, que trazia Boris Karloff em um cavalo segurando uma cabeça decepada nas mãos, eles decidiram então trocar o nome da atual banda, The Earth, por aquele. O resto é história…

As Três Máscaras da Morte é um filme composto de três contos de terror, dirigidos pelo maestro do macabro Mario Bava, que desde o primeiro filme tardio como diretor, A Máscara de Satã, trouxe um novo olhar para os filmes de horror, elevando o seu nível. Isso porque ele levou consigo toda sua experiência adquirida como diretor de fotografia, criando uma certa sofisticação visual, uso exagerado de cores vivas, jogos de luz e sombra, enquadramentos minuciosos e abuso de zooms e travellings inovadores na época.

Estrelado e apresentado por Boris Karloff, o filme traz três elementos de horror diferentes em seu enredo, mostrando toda a versatilidade do diretor em assustar a plateia nas mais variadas formas: o primeiro, O Telefone, que podemos considerar a protogênese do giallo, traz uma história de assassinato, vingança, voyeurismo e sexualidade; o segundo, O Wurdalak é uma história russa de vampiros; o terceiro e último, A Gota D’água, é uma história sobrenatural de espíritos, ganância e vinagança.

O Telefone, baseado em um conto de F.G. Snyder é a história mais curta e “fraca” da três. Possui um enredo simples, mas que funciona muito bem e cria uma clima de tensão crescente no espectador. Basicamente Rosy (a estonteante Michèle Mercier), uma prostituta de luxo, começa a receber ameaçadoras ligações de um desconhecido, jurando-a de morte, que logo ela deduz ser seu antigo cafetão, Frank Rainer, que havia sido libertado da prisão há pouco. Morrendo de medo, ela liga para Mary para pedir ajuda. Detalhe que Mary é um ex-caso de Rosy, que até hoje não digeriu bem a separação. O conto inteiro é rodado dentro do apartamento de Rosy, gerando um clima de claustrofobia e colocando o lar como local não seguro, já que Rosy está sendo vigiada constantemente e o perseguidor sabe de todos os seus passos. O episódio em suas entrelinhas explora muito a tensão sexual nesse triângulo amoroso Rosy / Mary / Frank, a possessão e controle e de maneira bem sutil, mas óbvia, e o lesbianismo e o fetiche sexual, tema que era uma baita tabu na década de 60.

Alô Cristina!

Alô Cristina!

O Wurdalak, estrelado por Karloff, é o filme mais bem planejado e executado, tanto falando do roteiro quanto da ambientação e dos elementos utilizados aqui. Baseado em uma história do escritor russo Aleksei Tolstoy, o filme pega emprestado elementos típicos dos filmes da Hammer, para contar a história de uma família que vive isolada em uma lúgubre floresta e morre de medo dos Wurdalaks, vampiros das lendas locais que suga o sangue apenas daqueles que amam. Karloff é Gorca, o patriarca da família que sai em uma noite para caçar um impiedoso assassino turco que rondava a região. A lenda dizia que se daqui a cinco noites ele não voltasse, era para temer pelo pior que ele haveria se transformado na criatura, e deveria ter a cabeça decepada e uma adaga enfiada no coração. Quem se dá mal nessa história toda é Vladimir (Mark Damon), um viajante que repudia as superstições locais, e que vai parar na casa de Gorca pedindo descanso durante à noite, se apaixonando pela belíssima Sdenka (Susy Anderson) e se metendo no meio de uma macabra trama familiar. Vale prestar muita atenção na cena em que o neto de Gorka é transformado e perambula pelo exterior da casa logo após sair da cova, chorando para seus pais que está com frio. É de arrepiar todos os pelos do braço, da nuca, e de onde mais os tiver.

Boris "Wurdulak" Karloff

Boris “Wurdulak” Karloff

Para terminar, A Gota D’água é a cereja do bolo, e o melhor do três contos. Simples, contido mas de um pavor sem tamanho. Se nego chegar e falar que não sentiu medo da expressão daquela velha morta, pode ter certeza que está mentindo. São pequenos detalhes que compõe o aspecto assustador da história da enfermeira Helen Chester que é chamada no meio de uma noite de tempestade para preparar o corpo de uma velha psíquica que acabara de morrer durante uma de suas sessões. A velha rígida, estatelada na cama com uma expressão grotesca no rosto é algo ímpar no cinema de horror. Movida por uma ganância suprema, a enfermeira rouba um valioso anel de diamantes do dedo da velha. É aí que entra os tais detalhes: a mosca que aparece em seu dedo no lugar do anel, os inusitados ângulos da câmera, as cores frias piscando intermitentemente no apartamento da enfermeira e claro, a maldita gota d’água que fica pingando de forma a atormentar a ladra, até que o fantasma da morta (ou materialização do sentimento de culpa?) venha se vingar de lhe roubarem o precioso anel. Baseado em um conto de Ivan Chekhov.

Decrépita!

Decrépita!

Três histórias com os finais pessimistas, mostram uma verdadeira aula do que é fazer um filme de terror: uso de temas como obsessão, sexualidade, destruição da unidade familiar, ganância e arrependimento e tecnicamente falando, explora iluminação rica, jogo de cores, direção de arte deslumbrante, fotografia muito bem trabalhada e todo o mise-en-scène detalhado para fazer cada história funcionar de seu jeito peculiar, mesmo com contos que variam em sua essência e eficácia.

Nos EUA, As Três Máscaras da Morte foi lançado completamente modificado pela AIP (American International Pictures), perdendo toda a narrativa estrutural que Bava havia criado no original, para que tivesse um efeito cumulativo, invertendo a ordem dos contos, além de sofrer alteração da excelente trilha sonora de Roberto Nicolosi, manipulação dos frames para abrandar a censura, narrações intertítulos de Karloff e um final com uma desnecessária sugestão sobrenatural adicional (dirigida por Salvatore Billiteri) na sequência O Telefone. Aqui no Brasil chegou a ser lançado em DVD pelo selo Dark Side, com relançamento recente pela Versátil em uma edição caprichada em dual áudio.



Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. […] sobre os aspectos do filme após os sucessos internacionais de A Máscara de Satã de 1960 e As Três Máscaras do Terror de 1963, Bava driblou o baixo orçamento de parcos 150 mil e nos entrega uma obra visualmente […]

  2. […] do sucesso comercial ao distribuir nos EUA os filmes anteriores do italiano, A Máscara de Satã e As Três Máscaras do Terror. O Planeta dos Vampiros ainda contou com o financiamento da Italian International Film de Fulvio […]

  3. […] no segmento Wurdulak de As Três Máscaras do Terror ou posteriormente no clássico Mata, Bebê, Mata!, Bava mais uma vez faz juz ao apelido de maestro, […]

  4. […] mesmo que A Mansão da Morte não traga o mesmo esmero técnico que produções anteriores como As Três Máscaras do Terror, Seis Mulheres para o Assassino e Mata Bebê, Mata!, aqui Bava apresenta uma de suas obras mais […]

  5. Daniel disse:

    Um filmaço mesmo. O uso das cores no último segmento me fez lembrar de Suspiria, feito 10 anos depois

  6. […] 3- As Três Máscaras do Terror (1963) […]

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