Vá de retro!

178 – Onibaba – A Mulher Demônio (1964)

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Onibaba


1964 / Japão / P&B / 103 min / Direção: Kaneto Shindô / Roteiro: Kaneto Shindô / Produção: Hisao Itoya, Tamotsu Minato, Setsuo Noto / Elenco:  Nobuko Otowa, Jitsuko Yoshimura, Kei Satô, Jükichi Uno, Taiji Tonoyama


Onibaba – A Mulher Demônio, a obra cultuada de Kaneto Shindô, é um filme de terror histórico, que baseado em uma parábola budista, escancara o antagonismo de classes do Japão medieval para criar uma assustadora alegoria sobre a vida em meio a falta de recursos, segregação social e crítica velada aos efeitos da bomba atômica.

Apesar do ponto de partida do texto budista, não há nenhum caráter religioso em Onibaba – A Mulher Demônio, e o mal é alguo muito mais terreno e carnal, o que difere e muito da maioria dos filmes de terror nipônicos. Recheados de metáforas, bruto, claustrofóbico, de carregada fotografia preta e branca quase expressionista (crédito para Kiyomi Kuroda), cenários minimalistas e uma trilha sonora de tambores de Hikaru Hayashi remetido ao sentimento tribal, a história de Shindô, socialista declarado, é repleta de metáforas, e mesmo se passando no Japão rural do século XIV, no período Sengoku, é um filme atemporal, podendo ser anexada a qualquer espaço e tempo.

Essa terrível guerra civil entre clãs samurais pelo controle do Japão durou mais de um século, e o resultado é um país devastado, sobrando consequências terríveis para os mais pobres. Uma velha senhora (Nobuko Otowa) vive com sua jovem nora (Jitsuko Yoshimura) em uma cabana no meio de uma plantação de juncos próximo ao rio, e para sobreviver, elas matam os samurais perdidos ou moribundos que se perdem pela extensa plantação e trocam suas armas e armaduras por comida, para poderem sobreviver em meio ao ambiente desolado.

Canavial de paixões

Canavial de paixões

Até que um belo dia, o vizinho Hachi, que havia ido para a guerra com o filho e marido das duas, volta sozinho para casa, tendo fugido dos horrores da batalha. O retorno de Hachi e o fato do filho/ marido das duas estar morto, é o estopim da construção de um relacionamento entre eles que irá abalar o status quo das duas mulheres, e interferir até diretamente na forma como negociam seus alimentos. Além disso, uma explosão de desejo sexual entre Hachi e a viúva do amigo unem os dois, sem qualquer dilema moral ou de consciência, para desgosto da velha senhora, que tenta em vão assustar a moça com histórias terríveis sobre o inferno, destino para pecadores que praticam sexo fora do casamento.

Isso obviamente não impede que a moça, independente de horário ou clima, vá até a cabana de Hachi para consumar o desejo carnal, sem nenhum outro tipo de sentimento envolto. Certa noite, com a jovem fora, um distinto samurai bate a porta da velha e pede ajuda para que ela o guie para fora do matagal de juncos, pois havia se perdido ao voltar da batalha. Esse guerreiro usa uma horrenda máscara de demônio para cobrir o seu rosto, que segundo ele, é o mais belo rosto que a mulher já teria visto em vida. Mas mesmo assim, ele não tira a máscara, deixando bem claro a separação hierárquica entre um samurai e um camponês na base da pirâmide social.

Porém a velha leva o samurai até uma armadilha, que cai em um buraco e perde sua vida. A obsessão em ver seu rosto faz com que ela desça até o buraco, onde temos um vislumbre de uma centena de esqueletos humanos que as duas já haviam matado, e remove a sua máscara, deparando-se com o choque de uma cena de horror, pois ao contrário do que havia dito, ele tem o rosto completamente deformado, uma metáfora para o hibakusha, grupo pária da sociedade e estigmatizado, composto pelas vítimas dos efeitos da radiação da explosão das bombas de Hiroshima e Nagazaki.

Vidas secas

Vidas secas

A velha começa a usar então a horrenda máscara para assustar a mais nova pelos seus pecados. Porém em uma cena terrível, a máscara fica grudada permanentemente no rosto da mulher, que não consegue tirar de nenhuma forma, suplicando perdão para a mais nova, que atribuiu o fato a um castigo por ela tentar assustá-la. Debatendo-se em desespero e implorando por ajuda, a máscara só consegue ser retirada pela mais nova após alguns golpes de machado, e então segue-se o clímax da fita. ALERTA DE SPOILER. Leia por sua conta e risco ou pule para o próximo parágrafo. O rosto da velha está igualmente deformado como do samurai que ela tirou a vida. A jovem foge horrorizada pelos juncos, perseguida pela velha aos berros, gritando “não sou um demônio, sou um ser humano” seguido pelo seu final abrupto.

A parábola budista a qual Onibaba – A Mulher Demônio foi inspirada chama-se yome-odoshi-no-men ou niku-zuki-no-men, que conta a história de uma mãe que costumava usar uma máscara de demônio para assustar sua filha, impedindo-a de ir ao templo. E como punição, a máscara adere em seu rosto e quando é removida, leva junto a carne de sua face. Aqui, é um reflexo traumático dos efeitos do pós-guerra e os horrores que ele desencadeou na sociedade japonesa.

Onibaba – A Mulher Demônio dramatiza o fracasso e expõe o desejo humano nas mais sombrias manifestações. É amoral, pois em nenhum momento nos é apresentada a conduta dos protagonistas, tais como assassinato, posse, controle e desejo sexual, provida de algum sentimento de culpa ou definindo o que é certo ou errado, apenas relatando homens e mulheres nos limiares da civilização, vítima de suas condições de vida, dando vazão aos seus instintos mais básicos e a constante luta por sobreviver, o que pode, literalmente, despertar demônios.

Vá de retro!

Sai, diabo!



Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Pensador Louco disse:

    Grande postagem. Filme imprescindível em qualquer cinemateca, e agradeço por compartilharem o filme. 8)

  2. […] Antes que alguém me pergunte (ou se pergunte), esse filme não tem nada a ver com o famoso conto homônimo de Edgar Allan Poe, que inclusive inspirou diversas adaptações cinematográficas. O Gato Preto é um dos maiores exemplares do cinema de horror japonês, dirigido por Kaneto Shindô, diretor de outro clássico da Terra do Sol Nascente, Onibaba – A Mulher Demônio. […]

  3. oscar_b disse:

    Olá. Poderia colocar o link novamente?

  4. Alice disse:

    Sou louca por esse filme e estou baixando de novo, parabens pelo o site!

  5. Ótima crítica de um dos melhores filmes que eu vi esse ano. Cru, amoral, e com um final abrupto e fodástico!!

  6. Cian disse:

    Fiquei com muito dó da velha.

  7. […] 1) Onibaba – A Mulher Demônio (1964) […]

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