Max Von Sidow chateado

214 – A Hora do Lobo (1968)

kinopoisk.ru

Vargtimmen / Hour of the Wolf

1968 / Suécia / P&B / 90 min / Direção: Ingmar Bergman / Roteiro: Ingmar Bergman / Produção: Lars-Owe Carlberg / Elenco: Max von Sydow, Liv Ullman, Gertrud Fridh, Georg Rydeberg, Erland Josephson, Ingrid Thulin

 

“Hora do Lobo é o espaço entre a noite e a madrugada. A hora em que a maioria das pessoas morre, e que a maioria das pessoas nasce, e que os pesadelos são reais e que a angústia nos persegue”. Essa é a explicação de Ingmar Bergman, segundo os antigos, sobre o termo que nomeia seu filme: A Hora do Lobo. E é neste espaço de tempo contínuo permanente que o diretor irá nos jogar como espectadores de seu labirinto tétrico de pesadelos. Um filme hermético, difícil de se sintonizar no surrealismo impresso pelo diretor. A Hora do Lobo é sufocante, estranho, recheado de cenas bizarras em uma lindíssima fotografia preto e branca sombria, quase expressionista de Sven Sykvist, onde Bergman desconstrói o maior horror de todos: a loucura humana. Não há nenhum monstro, nenhum perigo “tangível”. Há apenas a perturbação da mente, que essa sim, pode criar os piores monstros imagináveis para si mesmos, capaz de gerar tortura psicológica e o fim do discernimento do que é real e o que é macabra fantasia. A Hora do Lobo derivou-se do roteiro de um filme muito mais amplo e abrangente, que se chamaria Os Antropófagos, abandonado pelo diretor logo após uma crise de pneumonia e a escolha subsequente de produzir Persona, em 1966. A ideia foi descartada e compactada para um filme menor. Diferentemente de Persona, onde o inferno psicológico e o tormento espiritual provém do universo exterior, aqui fica bem claro que esse tormento parte do interior do artista, dando vida aos seus pesadelos, saídos das páginas de seu diário.

Max Von Sidow chateado

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O artista em questão é Johan Borg, papel de Max Von Sydow (ele mesmo, o padre Merrin de O Exorcista), que muda-se com sua esposa, Alma (Liv Ullmann) para as Ilhas Faroé a fim de um exilo durante uma temporada, para desenvolver seu trabalho como pintor e artista plástico. Não precisa dizer que sua vida se transformará a partir desta mudança e do ponto em que ele se torna insone e seus pesadelos começam a ganhar vida, principalmente quando confrontada pelos outros bizarros “habitantes” da ilha. Alma, reprimida, é a personagem que rompe o silêncio de Johan de forma forçada, impedindo-o até certo ponto de deixar-se cair no mundo melancólico e absorto em qual vive. Cada frame em que apresenta a convivência entre ambos, parece ser possível se cortar o ar com uma navalha. Como se não bastasse a opressão que nos sufoca na dinâmica do convívio entre marido e mulher, uma verdadeira horda de pessoas estranhas começa a surgir na vida de John, que irá lhe tirar do eixo. Todas essas pessoas são narrada por Johan à sua esposa e expressas em seus rascunhos. Entre eles, uma velha que não pode tirar o chapéu, caso contrário seu rosto cai, os canibais, os homens pássaros, os homens aranhas, entre outras bizarrices. Momento chave para que as coisas comecem a degringolar é quando esses personagens começam a aparecer justamente para causar inquietação e discórdia no casal, que são convidados para um jantar desconcertante no castelo do Barão Von Merkens. Lá, entre inúmeras conversas fúteis, risadas exageradas, personagens ácidos e caricatos, sombras e close ups perturbantes, Bergman faz com que encarnemos em Johan e nos faz sentir nada a vontade, querendo sair de nossas peles, tal como o personagem em cena. Esse desastre de reunião social, já com o casal tão pouco a vontade, culmina quando Johan, ali apenas para fazer o papel de bobo da corte, tem suas inspirações e pretensões artísticas ironizadas pelos algozes na apresentação em forma de teatro de bonecos de A Flauta Mágica.

Reunião informal

Reunião informal

Depois dessa sequência, Johan explica à Alma sobre a tal hora do lobo, e daí para frente é o começo do fim, com duas sequências extremamente densas e tresloucadas. Primeiro quando o artista está pescando e mais um dos personagens de seu pesadelo toma vida, uma garoto adolescente que o ataca, mordendo sua pele, querendo se alimentar de Johan, e acaba morto e jogado no fundo do mar. O segundo, em nova visita ao castelo, Johan está em busca de sua amante, Veronica Vogler (Ingrid Thulin), quando mais uma vez é humilhado pelos presentes, colocando-o maquiagem feminina, o que vai torná-lo motivo de chacota tanto de Vogler quando dos demais ali presentes, que o observam no escuro dando risadas. Só que Bergman também deixa claro o quanto nós como espectadores não devemos confiar em Johan quanto narrador, já que os personagens possuem qualidades sobrenaturais (vide a cena em que a velha tira seu chapéu e desconstrói seu rosto) e conhecimento da psique e dos pensamentos do atormentado pintor, revelando-se como projeções da sua imaginação destrutiva, como a materialização de seus pesadelos. E soma-se isso ao monólogo final onde Alma tenta atestar a tese de que se você convive muito tempo com uma pessoa, as duas acabam tornando-se uma só, e fatidicamente, será que uma acaba vendo o que a outra vê? E o que eles viram? A Hora do Lobo é a obra prima dos filmes de pesadelo. Exatamente por ele não ser um filme sobre pesadelos, mas os tem em seu cerne. E os pesadelos, ao ganharem vida, ultrapassam a natureza do horror pessoal. E é precisamente esse neorrealismo oblíquo de Bergman que, de forma implícita, nos escancara a concepção desse pesadelo e nos oferece uma forma de horror sugerido, psicológico, de forma verbal e visual, nos forçando a testemunhar figuras horríveis e atos proibidos, que rastejam na mente do personagem e vem para nos assombrar.

Pagando peitinho

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Serviço de utilidade pública: Compre o DVD de A Hora do Lobo aqui. Download: Torrent + legenda aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

3 Comentários

  1. […] após assistir A Hora do Lobo de Ingmar Berman, meu post anterior aqui do blog, eu precisava de um filme tosco, trash, […]

  2. André Coletti disse:

    Parece que a legenda que veio não está certa. Essa aqui está sincronizada certinho: http://www.opensubtitles.org/pt/subtitles/5585893/vargtimmen-pb

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