#chatiados...

219 – Cega Obsessão (1969)

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Môjû / Blind Beast

1969 / Japão / 86 min / Direção: Yasuzo Masumura / Roteiro: Yoshio Shirasaka, Edogawa Rampo (história) / Produção: Masaichi Nagata, Kazumasa Nakano, Hiroaki Fujii (Co-produtor) / Elenco: Eiji Funakoshi, Mako Midori, Noriko Sengoku

 

Cega Obsessão é um filme pervertido, fetichista, artesanal, minimalista e completamente mórbido e impactante.  Não poderia se esperar algo de muito diferente do cinema extremo oriental. Essa gema hardcore de Yasuzo Masumura escancara o amargo das relações humanas como um doloroso e bizarro ensaio sobre as necessidades básicas quanto ser humano e artista, e a capacidade em deixarmos nos levar pelas obsessões mais primitivas.

Nenhum outro canto do planeta poderia entregar um filme tão intenso e visceral, onde o toque é a base de toda a trama, do que o Japão. Para o oriental típico, há sempre uma distância respeitosa. Os asiáticos não são abertos iguais malas velhas, como os brasileiros. Eles não se expressam através do corpo, dos toques, dos gestos, dos abraços, como o latino sangue quente.  E a coisa piora de figura ainda quando a pessoa é cega.

Que é o caso de Michio, personagem afetado de Eiji Funakoshi, escultor cego, que vive em seu universo particular de sentidos e sensações. Mimado, criado com leite com pera por uma mãe super protetora, não tem o menor contato com o universo feminino (tampouco como tratá-las), e por isso, em seu ateliê, seu retiro íntimo, vive construindo bizarras partes femininas gigantescas de argila, como narizes, bocas, braços, pernas e seios, para seu deleite táctil.

#chatiados...

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É quando Michio conhece Aki (Mako Midori), uma jovem garota sem pudores que posa nua para fotografias e esculturas, que ele resolve criar sua obra prima: uma escultura mega realista e sensorial de cego para cego. Para tê-la como musa, Michio se passa como massagista e sequestra a moça, drogando-a com clorofórmio e a levando para seu estúdio, auxiliado por sua mãe, que faz qualquer coisa pelo garoto, por sentir uma culpa do tamanho de um piano, pela criança ter nascida deficiente visual. A garota em cárcere privado, após descobrir que não conseguirá sair do local, resolve ceder e aceitar as exigências do atormentado escultor, tentando seduzi-lo, demonstrando afeto que nunca teve,  e tentar tirar sua virgindade, a fim de usar essa artimanha para conseguir ludibriá-lo e fugir.

A mãe, sacando que a sirigaita que ser aproveitar do filho ser um bunda mole, começa o embate com a moça. O triângulo existencialista que se segue é uma virtuose de atuação nas caóticas sequências de discussões exacerbadas e confrontos físicos, já que os três têm razão, e ninguém tem culpa, então obviamente, todos os atos servem apenas para jogar mais gasolina na fogueira. Esse relacionamento culmina na morte da mãe, no remorso do filho por ter preferido o amor carnal de uma mulher ao dar ouvidos àquela que o carregou nove meses no ventre, e na afeição de Aki pelo escultor/ raptor, desenvolvendo uma espécie de Síndrome de Estocolmo, graças as seguidas e ininterruptas noites de amor entre os dois, que começa com um estupro, mas vai ser tornando um ato condescendente.

É aí que o filme vai dar uma guinada de 360º em seus vinte minutos finais, tornando-o completamente bruto, carnal, esquizofrênico e fetichista, deixando de lado o relacionamento humano e o suspense que permeava sua primeira metade, quase como um O Colecionador, de William Wyler, versão nipônica, passando para um perfeito exemplo do cinema transgressor asiático. Confinados no atelier escuro, vivendo em meio aos corpos gigantes moldados em argila, Aki começa a ficar cega, com a visão atrofiada de tanto tempo passado naquele ambiente sem luz, e ao apaixonar-se doentemente por Michio, começa a entender melhor a importância do toque e de ter as sensações nas pontas dos dedos, automaticamente viciando-se e sempre em busca de novas sensações.

Perdidos em suas curvas

Perdidos em suas curvas

ALERTA DE SPOILER. Pule par ao próximo parágrafo ou leia por sua conta e risco. Como os mais baixos e subdesenvolvidos seres, que apenas se baseiam em sensações e toques, vivendo em função de seu instinto, ambos entram em um espiral de masoquismo na procura da sensação definitiva. O que começa com mordidas, chicotadas e autoflagelação, vai ganhando aspectos mórbidos, ao ponto da garota implorar que lhe seja infligida dor máxima através de cortes. Sem forças, extremamente machucados por conta dos cortes e da agressão física, e sabendo que a morte assopra no cangote, Aki suplica para que antes de morrer, seu amado lhe corte fora os braços e pernas, para que experimente essa sádica sensação única de dor imensurável. Michio prontamente atende ao pervertido desejo da garota, que a cada membro cortado, de forma simbólica e subjetica, o diretor nos mostra o membro da estátua (nesta altura do campeonato completamente abandonada) caindo ao chão, para em seguida dar cabo de sua própria vida em um harakiri.

Cega Obsessão é um soco no estômago. É uma descida vertiginosa sem escalas na tendência masoquista e na obscuridade da mente humana. Mistura em perfeito equilíbrio da Nouvelle Vague japonesa no limiar do cinema erótico e fetichista asiático. É o Grand Guignol oriental. A trama é baseada em um conto de Edogawa Rampo (trocadilho fonético para Egar Allan Poe), pai dos romances policiais nipônicos dos anos 1920 até 1960, conhecido por histórias recheadas de compulsão obsessiva, desfiguramento e loucura, proibidas de circular no Japão durante o período da Segunda Guerra Mundial.

Como diz a sinopse do DVD lançando no Brasil pela Magnus Opus, “o diretor Yasuko Masumura, que já tinha sido assistente dos mestres Kenji Mizoguchi e Kon Ichikawa, é o autor dos filmes mais vigorosos do cinema japonês de todos os tempos”. Cega Obsessão não foge à regra.

Um certo olhar

Um certo olhar

Serviço de utilidade pública:

Compre o DVD de Cega Obsessão aqui.

Download: Torrent + legenda aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

4 Comentários

  1. oscar_b disse:

    Olá

    Me interessei pelo filme, a história parece ser bastante interessante (aliás acho que o cinema oriental tem uma pegada mais criativa, né). O problema é que há uma semana o torrent não tem nenhum seeds.
    Você poderia distribui o filme, por favor?
    Abraço valeu pelo site

    • Olá Oscar, tudo bem?

      Cara eu não tenho como distribuir o filme de outra forma. Eu só coloco os arquivos em torrent mesmo para baixar e tem esse problema, de ter que depender de seeds. É dessa mesma forma que eu baixo todos eles. Tente ver aqui no Pirate Bay se tem um arquivo com mais seeders para você conseguir baixar:

      http://thepiratebay.sx/search/blind%20beast/0/99/200

      Vale muito a pena mesmo, porque o filme é ótimo!

      Obrigado por acompanhar o blog.

      Abraço

      Marcos

  2. oscar_b disse:

    Beleza, vou dar uma procurada aqui.
    Valeu

  3. marcelle disse:

    Esse filme e Império dos Sentidos entraram pra listo dos filmes japoneses mais pesados que eu ja vi, mas ao mesmo tempo são filmes incríveis.

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