Mais um corpo fresquinho...

220 – Frankenstein tem que ser Destruído (1969)

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Frankenstein Must Be Destroyed 

1969 / Reino Unido / 98 min / Direção: Terence Fisher / Roteiro: Bert Batt, Anthony Nelson Keys (história) / Produção: Anthony Nelson Keys / Elenco: Peter Cushing, Veronica Carlson, Freddie Jones, Simon Ward, Thorley Walters, Maxine Audley, George Pravda

 

Quinto filme da série, Frankenstein Tem que ser Destruído subverte completamente o status quo da competente franquia da Hammer até aqui. Criador literalmente transforma-se em criatura. O Barão Frankenstein torna-se tão monstruoso, vilão sádico e cruel que faz de tudo para conseguir realizar seus cada vez mais mirabolantes experimentos, que enterra a necessidade da existência de um cadáver gigante e irracional ambulante, base tanto da obra de Mary Shelley quanto dos filmes da Era de Ouro da Universal.

Está aí. A originalidade foi sempre o ponto forte dos filmes de Frankenstein da Hammer. Peter Cushing, mais uma vez trazendo vida ao personagem outrora literário, já viveu diversas facetas na pele do cientista que brinca de ser Deus. Conforme as sequências vão saindo do forno, o subgênero “filme de monstro” vai sendo deixado cada vez mais de lado, para extrapolar somente o “filme de cientista louco”. No caso das produções da Universal nas décadas de 30 e 40, o foco era o monstro, que começou sendo interpretado por Boris Karloff em Frankenstein, de 1931, e continuou amaldiçoando várias gerações da família de seu criador e até saindo na mão com outros monstros do estúdio, como o lobisomem e o Drácula.

O estúdio inglês dá foco máximo para sua estrela galante e Cushing vem voltando em cada uma das sequências mais deturpado (e caricato, é verdade), explorando sua manifestação debiloide da busca científica, em detrimento de colocar o foco em suas criações bizarras. Apenas no original lançado há mais de dez anos, A Maldição de Frankenstein e em O Monstro de Frankenstein, espécie de continuação direta, a criatura (vivida por Christopher Lee no primeiro filme) dá as caras. Os demais filmes são centrados nos experimentos fracassados com outras pessoas, homens ou mulheres, frutos de diversos interesses científicos de Frankenstein.

Aqui, por exemplo, o cientista quer fazer um transplante de cérebro, algo perfeitamente plausível em sua concepção, ao contrário do que dizem os quadrados da época. Para isso, ele resolve chantagear um casal, o Dr. Karl (Simon Ward), jovem médico de cabelos loiro e penteado moptop (afinal, estamos na década da beatlemania), que trabalha no asilo em que seu antigo parceiro cientista, o Dr. Brant, está internado, e sua noiva, a bela loira Anna, dona de um pensionato, que é a responsável por usar os decotes escandalosos da vez. Ah, o motivo da chantagem é que Karl roubava drogas pesadas da farmácia do hospício e os vendia na rua, e o Barão Frankenstein descobre o fato, que pode arruinar a vida do jovem.

Mais um corpo fresquinho...

Mais um corpo fresquinho…

Antes tivesse sido preso e seu registro médico caçado. Frankenstein vai transformar a vida deles em um inferno, envolvendo-os em arrombamentos, sequestro, experiências médicas ilegais e assassinato. Tudo isso para tirar o cérebro do Dr. Brandt e colocá-lo no corpo do Professor Richter (Freddie Jones), retrógrado e autoritário diretor do hospício que Karl trabalha. Tudo com a pobre Anna como cúmplice a tiracolo.

E como se não bastasse, há uma cena chocante, onde Frankenstein estupra Anna (mas mesmo assim, Cushing não perde a classe). É algo até estranho ver um ator como Cushing participando deste tipo de cena. Os personagens nem mesmo comentam sobre a cena depois, pois os bastidores dizem que ela não estava no roteiro e foi enxertada de última hora, mesmo com os atores sendo veementemente contra, pois os chefes do estúdio reclamaram da falta de sexo e violência, duas coisas que vinha levando os fãs americanos ao cinema, e eles queriam agradar os distribuidores yankees (aka Warner Bros.). Cushing lamentou a inclusão final da cena e pediu desculpas para a deliciosa Veronica Carlson por ter participado. É um lorde, mesmo!

E se os chefões queriam violência, realmente não falta em Frankenstein Tem que Ser Destruído. É o mais violento filme da franquia (que já vinha crescendo de uma produção para a outra), com cabeças decapitadas, cérebros sendo retirado, sangue jorrando em profusão e por aí vai. Além disso, há um distinto toque cômico tipicamente inglês, na figura do Inspetor Frisch que investiga os assassinatos, e os outros aristocráticos moradores do pensionato, tomadores de chá e cheios de empáfia, estereótipos que parecem ter saído de um sketch de Monty Python.

Mais uma vez a direção de Terence Fisher é corretíssima e exuberante. Fisher já sabe explorar cada enquadramento, cada cenário cafona com o padrão Hammer de qualidade, fotografia gótica, domina a cenografia, jogo de cores e o figurino, como nenhum outro diretor do estúdio ou do período conseguiu, traduzindo-se como sinônimo da tradição do horror inglês literário. Cushing irrepreensível (novas…), trilha sonora de James Bernard inspirada e competente maquiagem de Eddie Knight, fazem de Frankenstein Tem que Ser Destruído, sem dúvida nenhuma, um dos melhores filmes da Hammer, e talvez, o melhor da franquia.

Estou falando,  não preciso ser destruído.

Estou falando, não preciso ser destruído.

Serviço de utilidade pública:

O DVD de Frankenstein tem que ser Destruído está atualmente fora de catálogo.

Download: Torrent (sem legenda em português) aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

3 Comentários

  1. […] de cirurgia plástica e transplantes de cérebro mal sucedidos em A Vingança de Frankenstein e Frankenstein tem que ser Destruído e até já realizou uma operação de “troca de sexo” por meio de transfusão de almas (???!!!) […]

  2. porra velho sem legenda tenha dò.

    • Olá Luis Alex. Não entendi o “tenha dó”. Não tenho um blog de download e legenda de filme. Faço as resenhas e análises da minha lista. Coloco os links para baixar como um serviço de utilidade pública.

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