A bela e a fera

397 – Nosferatu – O Vampiro da Noite (1979)

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Nosferatu – Phantom der Nacht / Nosferatu, the Vampyre

1979 / Alemanha, França / 107 min / Direção: Werner Herzog / Roteiro: Werner Herzog (baseado na obra de Bram Stoker) / Produção: Werner Herzog, Michael Gruskoff e Daniel Toscan du Plantier (não creditados), Walter Saxer (Produtor Executivo) / Elenco: Klaus Kinski, Isabelle Adjani, Bruno Ganz, Roland Topor, Walter Ladenganst

 

Nosferatu – O Fantasma da Noite é um belíssimo filme de vampiro. Ao mesmo tempo que o diretor Werner Herzog presta uma homenagem ao expressionismo alemão e ao filme original Nosferatu – Uma Sinfonia de Horror de Murnau, ele consegue imprimir sua própria estética para fazer, na minha opinião, a melhor adaptação cinematográfica, mesmo que não creditada, da obra de Bram Stoker.

Pontuado por um ritmo quase hipnótico, fotografia belíssima de Jörg Schmidt-Reitwein, direção de arte impecável (vencedora do Urso de Prata no Festival de Berlim daquele ano) e uma trilha sonora fúnebre e orgânica (assinada pelo grupo Popol Vuh), Nosferatu – O Fantasma da Noite em muito supera o filme de 1922, até por conta de recursos técnicos mais avançados e da sensibilidade de Herzog.

Na verdade a produção teve a liberdade de adaptar à sua maneira o livro Drácula, de Stoker, podendo utilizar o próprio nome dos personagens da trama original, sem enfrentar os problemas de direitos autorais que Murnau sofreu em seu filme. Ou seja, aqui não somos apresentados ao Conde Orlok, nem a Huter ou Ellen, e sim ao próprio Conde Drácula, Jonathan e Lucy Harker, tal qual Nosferatu – Uma Sinfonia de Horror se propunha em sua ideia original.

Fenômeno

Nosferaldo

A história é aquela que todos nós conhecemos: o corretor Jonathan Harker (Bruno Ganz) parte em meio às tenebrosas porém deslumbrantes paisagens dos Montes Cárpatos para fechar negócio com o repugnante Conde Drácula (Klaus Kinski), com sua expressão asquerosa, lembrando um rato humano, nariz adunco, longos dedos esqueléticos e face pálida. Nem de longe lembrando os aristocráticos Bela Lugosi em Drácula da Unviersal ou o altivo Cristopher Lee em O Vampiro da Noite da Hammer e muito menos o sedutor Frank Lagella em Drácula lançado no mesmo ano, e sim mantendo-se fiel a visão de Murnau do monstro vampiresco, assim como o livro de Stoker.

O temível conde compra uma casa em Bremen, na Alemanha e ao chegar de navio até o porto local espalha seu exército de ratos na cidade, que são responsáveis por alastrar um surto de peste e aterrorizar os moradores. Enquanto Jonathan, mordido pelo vampiro, sucumbe a maldição do morto-vivo, cabe a sua amada, Lucy (interpretada pela sempre linda Isabelle Adjani), assim como no filme de Murnau, ser o peso da balança, que com seu amor puro e verdadeiro e sua inocência, fará o papel de mártir para ludibriar a criatura e por fim de uma vez por todas nos malignos planos do Conde.

A peculiaridade dos personagens, completamente avessa ao livro, é um dos grandes diferenciais do filme. Aqui vemos Harker deixando de lado seu manto heroico e desmoronando sem piedade na transformação de vampiro, Lucy deixando de lado a fragilidade para tentar destruir Drácula, um Dr. Van Helsing meramente ilustrativo e completamente cético e um Drácula rabugento e menos sagaz e sedento por sangue do que outras encarnações nas telas.

Quando a noite cai...

Quando a noite cai…

Um dos maiores trunfos de Nosferatu – O Fantasma da Noite, responsável por não ser taxado como uma mera cópia do original, e posicionando-se como superior em certos momentos, é a tentativa de Herzog em mostrar uma espécie de beleza poética no mal (como as cenas em câmera lenta de um morcego batendo suas asas, ou a abertura com os closes de múmias embalsamadas com uma expressão angustiante de terror no rosto), e o mix de sensações etéreas e assustadoras que ele vai criando para preparar o espectador para o infortúnio e desilusão que está para se abater na cidade com a chegada do Conde e de seus maus agouros.

Herzog utiliza brilhantemente planos abertos, clima atmosférico e paisagens lindas, principalmente na estonteante cena onde vemos o dia se esvaecer pelas montanhas enquanto a noite, cheia de mistérios terríveis, começa a cair sobre o até então intrépido Jonathan Harker em sua viagem à Transilvânia, ou quando a praça central da cidade está tomada por ratos, caixões, animais soltos  e de uma forma mambembe, alguns tentam brindar a vida antes de serem tomados pelo abraço gelado da morte.

Nosferatu – O Vampiro da Noite celebra a perda da humanidade. De Drácula que vive atormentado achando a imortalidade, assim como seu sofrimento pela solidão e ausência de amor, uma maldição que o transformou em uma vil criatura, de Harker que mostra-se impotente ao domínio do mal e prepara-se, na linda cena final do filme, para continuar o legado do vampiro, de Van Helsing que é arrancado de seu seguro mundo científico ao matar a besta e ter que sofrer o mesmo destino de um assassino comum e finalmente de Lucy, cujo amor propriamente dito e a esperança, por maiores que sejam, não consegue quebrar os efeitos da maldade.

A bela e a fera

A bela e a fera

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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

7 Comentários

  1. Filipe Roque disse:

    Não achei a direção de arte impecável.A casa de Jonathan e Lucy não parece ser do século XIX.

  2. Gilberto disse:

    O filme é lento e chato. O tipico filme de arte europeu.

  3. Ërick Seixas disse:

    Sensacional , gostei muito

  4. Joao Santis disse:

    O melhor filme sobre este ser do mal.
    Toda inspiração e soprada aos ingénuos ouvidos humanos.

  5. loupalexanderFabio disse:

    a legenda no arquivo tá fora de sincronia :C

  6. […] finalizar o post, Nosferatu ganhou uma refilmagem em 1979, chamado Nosferatu – O Vampiro da Noite, dirigida por Werner Herzog, tão boa quanto o […]

  7. […] tirou a vida de duas pessoas aparentemente normais (mais ou menos como veremos anos mais tarde em Nosferatu – O Vampiro da Noite de Werner Herzog, onde Van Helsing acaba sendo preso também no final do filme, após matar o […]

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