Cara, tô pregado!

556 – Hellraiser 2 – Renascido das Trevas (1988)

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Hellbound: Hellraiser II

1988 / Reino Unido, EUA / 99 min / Direção: Tony Randel / Roteiro: Peter Atkins; Clive Barker (história) / Produção: Christopher Figg; David Barron (Produtor Associado); Christopher Webster, Clive Barker (Produtores Executivos) / Elenco: Clare Higgins, Ashley Laurence, Kenneth Cranham, Imogen Boorman, Sean Chapman, William Hope, Doug Bradley

 

Inegável a importância e o tamanho do clássico visceral de Clive Barker, Hellraiser – Renascido do Inferno, lançado em 1987. Simplesmente um dos melhores filmes de terror de todos os tempos com seu excesso de sangue em abundância, nojeira, perversões sexuais, sadomasoquismo e o fato de ter introduzido o conceito dos terríveis cenobitas, e seu líder icônico, Pinhead.

Fato é que revisitar esse universo em Hellraiser 2 – Renascido das Trevas seria um elemento de alto risco. Ao mesmo tempo em que a continuação extrapola o universo mitológico de Barker, nos apresentando um pouco mais sobre a dimensão tétrica de prazer e sofrimento dos cenobitas e nos remete novamente a bizarrices sexuais, hedonismo, gore em alto nível, tortura e morte, também dá uma grande escorregada no ridículo e no exagero, além de recauchutar situações do primeiro filme.

Pelo menos para mim, assistir Hellraiser 2 é um tanto contraditório. Até a primeira hora do filme, ele caminha como uma sequência correta, apesar de seguir uma espécie de convenção cinematográfica para as continuações, retomando exatamente do ponto onde Hellraiser – Renascido do Inferno se concluiu. Ao mesmo tempo em que na primeira fita, Frank Cotton (Sean Chapman) tenta escapar do inferno com a ajuda de sua amante, Julia (Clare Higgins), usando-a como fonte de carne humana, pele e sangue para que ele volte a se materializar em nosso universo, aqui é a vez de Julia fazer exatamente a mesmíssima coisa, mandando qualquer sopro de originalidade às favas.

Veeeeeeeeeeenha!

Veeeeeeeeeeenha!

Mas a partir do momento em que somos convidados a conhecer o inferno dimensional dos cenobitas aberto novamente pelo decifrar do enigma do cubo “configuração da lamentação” (sim, é esse seu nome) é que o filme realmente desanda em uma overdose de imagens de pesadelos e pecados, misturados com uma profunda necessidade em abusar de efeitos visuais e de stop-motion (que hoje se tornaram datadíssimos, completamente diferente dos excelentes efeitos de maquiagem), uma vez que o orçamento era maior que o primeiro. Tudo se torna tão megalomaníaco que aquele charme obscuro e sujo do primeiro filme e até mesmo o desenrolar dessa sequência até então, perde-se completamente.

A trama, escrita por Peter Atkins em cima da história de Barker, retoma os acontecidos surreais do final do primeiro filme, com Kirsty (papel revivido por Ashley Laurence) internada em um instituto psiquiátrico depois do terrível assassinato de seu pai, madrasta e tio. Acontece que a clínica onde ela está é gerida pelo nefasto Dr. Phillip Channard (Kenneth Cranham), que além de promover todo tipo de experiência atroz com os internos, descobre-se ser um profundo pesquisador do oculto, coletando dezenas de fotos, textos, desenhos e imagens sobre os cenobitas, além de colecionar as famigeradas caixas.

O Dr. Kyle MacRae (William Hope), assistente de Channard, desenvolve certa empatia por Kirsty e é quem pega o psiquiatra com a boca na botija, ao escutar uma conversa por telefone do superior com o investigador do caso, pedindo para levar o colchão onde Julia foi morta, para sua casa. Invadindo o lugar, ele é testemunha da, de longe melhor cena do filme todo, quando ele leva um paciente atormentado, que em seu subconsciente vê vermes e insetos por todo seu corpo, e lhe oferece uma navalha para que se rasgue completamente em cima do colchão, alimentando o corpo de Julia que volta à vida, depelada, tal qual Frank Cotton no longa anterior.

Cubo (nada) mágico

Cubo (nada) mágico

Então Channard irá trazer as vítimas para Julia recobrar sua forma, enquanto em troca, ela promete lhe mostrar os prazeres e obscuridades da dimensão dos cenobitas, abertas por meio de Tiffany (Imogem Boorman) uma paciente muda e introspectiva que passa todo seu tempo completando quebra-cabeças e descobrindo enigmas. Pois bem, o resultado é que Kirsty e Tiffany adentram naquele ambiente sinistro, rolam traições, enquanto Julia precisa de almas para levar ao inferno e o bom doutor busca seu objetivo, que é se transformar em um cenobita, Acaba alcançando o feito, tornando-se o mais perigoso de todos, e passa a caçar as duas garotas tanto naquele plano, quanto em nossa existência, deixando um rastro de sangue atrás.

Barker chegou a desenvolver cada história de background dos cenobitas para o primeiro filme, mas que acabou nunca sendo explorada, o que aconteceu em Hellraiser 2 – Renascido das Trevas. Expandindo sua mitologia, fica-se claro que os seres que são anjos para uns e demônios para outros já foram humanos e seus próprios vícios o tornaram aquelas criaturas insidiosas. Inclusive a primeira cena explora um pouco do passado do personagem de Doug Bradley, Pinhead, que descobrimos ser na verdade o Capitão Elliot Spencer, um membro do exército britânico que após o fim da Primeira Guerra Mundial, se depara com o cubo em busca das tais experiências sensoriais extremas, e acaba virando o personagem com a cabeça cheia de pregos que conhecemos muito bem.

Um dos maiores acertos é sabiamente deixar Pinhead e seus comparsas mais uma vez como coadjuvantes, evitando a superexposição que tanto Jason quanto Freddy experimentaram naqueles anos (pelo menos até aqui). Já em termos de violência, salta aos olhos a emblemática cena do colchão, a drenagem de Kyle por Julia e a transformação de Channrd em cenobita, que depois se torna incrivelmente exagerada com aqueles tentáculos de massinha que saem da palma de suas mãos e assumem toda sorte de objeto cortante, pontiagudo e rodopiante. Todo o low profile masoquista, soturno e maldito dos demais cenobitas, que se mostram até uns coiós em certos momentos, dá lugar a uma criatura quase carnavalesca com pretensões e poderes de supervilão. Isso sem contar a resolução demasiadamente forçada e aquele ceninha completamente desnecessária antes do filme se encerrar.

Mas apesar do roteiro oscilante, com momentos brilhantes e outros nem um pouco, Hellraiser 2 – Renascido das Trevas fecha um ciclo e se completa, mesmo sendo deveras inferior, com seu antecessor. Consegue expandir mitos, explorar pontos, lugares e personagens do original e deixa um leque de possibilidades para o futuro da franquia, que foi devidamente deturpado com as infindáveis sequências, perpetuadas pelas mãos de impiedosos e inescrupulosos produtores. E BOM HALLOWEEN para todos vocês, fãs do horror!

Cara, tô pregado!

Cara, tô pregado!

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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

3 Comentários

  1. Deyvisoon disse:

    Esse filme é surtado demais, na boa. Realmente é inferior ao primeiro, mas nunca vou esquecer essa cena do colchão e especialmente aquele inferno particular/pesadelo, com aquelas mulheres deitadas e cobertas com lençol, provocantes mas intocáveis… Ótimo Halloween a todos !!!

  2. […] Hellraiser II – Renascido das Trevas já era uma infinidade pior que o original. O terceiro então, segue ladeira abaixo. Há uma conexão na trama direta com os acontecidos do segundo filme (e consequentemente do primeiro), dando um certo aspecto de trilogia, devidamente expandido ainda mais depois como bem sabemos. Pinhead transforma-se em uma macabra estátua no final do longa anterior, e é comprado pelo dono de uma balada, J. P. Monroe (Kevin Bernhardt). Em um acidente irá respingar sangue no objeto e fará com que Pinhead comece a voltar à vida, já com sua sede por prazeres humanos carnais e doentios. […]

  3. […] já teve dez continuações (se eu não perdi a conta) e NENHUMA se salva. No máximo é um regular Hellraiser 2 – Renascido das Trevas, e olhe lá. Esse Hellraiser: Caçador do Inferno é outro que entra nesse balaio de gato de […]

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