SUPER CHOQUE

584 – Shocker – 100.000 Volts de Terror (1989)

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Shocker

1989 / EUA /109 min / Direção: Wes Craven / Roteiro: Wes Craven / Produção: Barin Kumar, Marianne Maddalena; Robert Engelman, Peter Foster (Coprodutores); Warren Chadwick (Produtor Associado); Wes Craven, Shep Gordon (Produtores Executivos) / Elenco: Michael Murphy, Peter Berg, Mitch Pileggi, Sam Scarber, Camille Cooper, Ted Raimi

Wes Craven ataca novamente! Não, isso não é no bom sentido. O cineasta errático que dirigiu preciosidades como Aniversário Macabro, Quadrilha de Sádicos, A Hora do Pesadelo e A Maldição dos Mortos-Vivos, tem também na sua filmografia umas bombas de doer, incluindo o pavoroso Shocker – 100.000 Volts de Terror.

Tá vamos lá abrir aquele perigoso pretexto do saudosismo infantil. E eu aposto um picolé de limão que você, se for da minha geração, assistiu a esse filme pela primeira vez em uma das fatídicas exibições na Tela Quente da Rede Globo. E claro que provavelmente você deve ter adorado. Mas como muito dos casos, nada que sobreviva a uma revisão mais criteriosa.

Fato é que Shocker é uma sequência de vergonhas alheias totais, uma atrás da outra (não tanto quando seu subtítulo em português), culpa do roteiro também escrito por Craven. E nem me venha falar que é um filme de baixo orçamento, o que prejudicou e tal, porque acho que nenhuma produção milionária no mundo melhoraria o longa, e olha que os efeitos especiais são bem decentes para a época, incluindo a versão “chuviscada” do vilão saindo da televisão e tal.

CHOCANTE!

CHOCANTE!

Shocker na verdade cai em uma armadilha muito comum do cinema de terror com aquele pezinho no fantástico e sci-fi: se levar muito a sério. Na verdade fica claro que a intenção de Craven era criar mais um vilão icônico, um novo Freddy Krueger, depois da exaustão da fórmula da sua maior criação. Então parte da seguinte premissa: um assassino violento, que volta a vida com poderes paranormais, em busca de vingança. Claro que se falhou miseravelmente nesse sentido, mesmo contando com uma atuação acima da média de Mitch Pileggi, o eterno Diretor Assistente Walter Skinner de Arquivo X.

Mas o lance é que a fita é dividida em três partes. Vamos agora analisá-las: A primeira metade na verdade é um baita filme de suspense/slasher/policial. Horace Pinker (Pileggi) é um técnico de televisão meio esquisito, serial killer que anda dizimando famílias violentamente e metendo medo na população de uma cidade. Certa noite, o jovem astro local de futebol americano, Jonathan Parker (Peter Berg – o ator que virou diretor de filmes como Bem-vindo à Selva, Hancock e Battleship: A Batalha dos Mares) tem um sonho clarividente onde vê sua família adotiva sendo assassinada brutalmente.

O que acaba acontecendo na vida real, levando o jovem e seu pai adotivo, o Tenente Don Parker (Michael Murphy) a uma verdadeira caçada humana ao psicopata. Após falharem em uma emboscada, fatidicamente Pinker acaba sendo preso após assassinar Alisson (Camille Cooper), a namorada de Jonathan. Condenado a cadeira elétrica, o último pedido do convicto é uma televisão. Então em um ritual sombrio nada explicado, ele adquire uma espécie de poder elétrico do aparelho televisor, e quando vai ser fritado na cadeira elétrica sobrevive por meio da capacidade de “trocar de corpo” através de uma descarga elétrica.

Chico Picadinho esteve aqui

Chico Picadinho esteve aqui

No que o filme estava caminhando muito bem, tirando o lance de Pinker ser mais rápido, mortal, sanguinolento e sorrateiro que o Jason, Michael Myers, Freddy e Leatherface juntos, desanda de vez nessa segunda metade, com o inimigo mudando de corpo enquanto busca vingança contra Jonathan. É um festival de bagaceiras de primeira linha, ao melhor estilo A Maldição de Samantha, outra “obra prima” de Craven. Primeiro que Pinker mancava de uma perna, e toda vez que ele transfere sua alma elétrica para outro, o sujeito passa a mancar também. Depois que há um viés sobrenatural canhestro com a falecida Alisson aparecendo para o namorado vivo, e lhe dá um amuleto que seria (sabe-se lá por que) o único objeto capaz de derrotar Pinker. E por aí vai.

No terceiro ato, a partir do momento que o filme descamba e abraça sua tosquice, como é o caso da sequência final, onde rola o conflito entre herói e vilão passando pelos canais e programas de televisão enquanto trocam sopapos, com a música de Alice Cooper ao fundo, é o ápice da produção, quando dói até o pâncreas de tanto gargalhar, e se percebe que naquele momento, ele assume o status de galhofa. E então funciona como que por milagre, porque você não vai ficar julgando e apontando o dedo, pedindo seriedade e coerência como pregava até então (mesmo sendo um maluco que vira estática e com poderes de possuir as pessoas que toca).

Por causa de Shocker – 100.000 Volts de Terror e outras, que a carreira do Wes Craven parece uma montanha-russa de altos e baixos (com muito mais baixos, apesar de seus altos serem sempre pontuais e emblemáticos, como o próprio A Hora do Pesadelo e Pânico). A dica é nunca levar o filme a sério desde o seu começo, apesar do que ele aparenta, se deliciar com a tosquice e claro, reviver os momentos saudosistas que somente filmes como esse despertam.

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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

14 Comentários

  1. Diogo disse:

    Grande clássico da Tela Quente, mesmo. Lembro que vi, quando criança, com meu pai, e nunca mais esqueci, até porque achava a tal namorada-fantasma linda. Depois de muitos anos, fui rever e tive, exatamente, essa mesma sensação que descreveu: “caramba, eu gostei desse lixo?”

    Agora, pelo menos, não dá para dizer que a tentativa não foi original!

    Parabéns pelas críticas, acompanho sempre!

  2. alucardcorner disse:

    Smiley & Shocker qual deles o pior filme ? lol. Craven infelizmente tem mais baixos que altos..

  3. Marcus disse:

    Quem é esse tal de Chico Picadinho?

  4. Em vez de fazer remake de “A Hora do Pesadelo” deviam fazer desse “Shocker” com Jamie Foxx no papel-título, em que seu antagonista fosse um super heroi escalador de paredes…OH WAIT!

  5. Papa Emeritus disse:

    Cara, esse Shocker pode não ser o pior filme do Craven, que fez o Vampiro no Brooklyn, mas é de DOER a barriga de tão ruim. Eu confesso que não lembro de ter assistido a esse filme quando pequeno, vi ele já mais velho. E odiei na primeira vez que assisti. Tem coisas intragáveis no filme. Várias vezes eu senti vontade de dar “stop” na fita. A carreira do Craven é de fato bisonha. Hora ele solta filmes sensacionais que se tornaram clássicos, hora ele solta porcarias indigestíveis como essa. Montanha Russa pura.

  6. […] Todos nós sabemos que Wes Craven mais erra do que acerta. No caso de As Criaturas Atrás das Paredes, é mais um dos felizes casos em que ele acertou (tirando aquele finalzinho…). Depois de começar a carreira de forma brilhante com nada menos que a trinca Aniversário Macabro, Quadrilha de Sádicos e A Hora do Pesadelo, o sujeito dirigiu algumas bombas memoráveis até então, como A Maldição de Samantha e Shocker – 100.000 Volts de Terror. […]

  7. Luis Felipe disse:

    Caro, descobri este blog faz umas 3 semanas e não dá para parar de ler.. Inacreditável sua capacidade crítica, em todos sentidos, e seus conhecimentos(os horrorcasts já indiquei a um monte de pessoas, são muito bons)… Mil Parabens
    Agora , olha só.. Tenho 34 anos (ach vc regula comigo) e este filme não passava em Tela Quente nao. Vc tem certeza do que afirmara?

    • Hey Luis Felipe. Obrigado pelos elogios e por indicar o Horrorcast.

      Certeza absoluta. Assisti pela primeira vez na Tela Quente da Globo. Só nunca vou lembrar o ano.

      Abs

      Marcos

  8. Eduardo disse:

    Acho vale destacar a trilha sonora com musicas de Hard Rock contam com Megadeath numa cover do Alice Cooper e Paul Stanley abre o filme com duelo juto ao Desmond Chilrd na musica titulo do filme … além de outra coisas boas… mas nem isso salva o filme … hehehe …

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