#chupaNolan

677 – O Enigma do Horizonte (1997)

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Event Horizon

1997 / EUA, Reino Unido / 96 min / Direção: Paul W. S. Anderson / Roteiro: Phillip Eisner / Produção: Jeremy Bolt, Lawrence Gordon, Lloyd Levin; Colin Brown, Nick Gillott (Produção Executiva) / Elenco: Laurence Fishburne, Sam Neill, Kathleen Quinlan, Joely Richardson, Richard T. Jones, Jack Noseworthy, Jason Isaacs, Sean Pertwee

 

Quando assisti ao O Enigma do Horizonte em 1997, eu fui com uma expectativa altíssima ao cinema para com o longa, afinal era um sci-fi misturado com terror, daquele mesmo molde de amalgama entre os dois gêneros, eternizado por Alien – O Oitavo Passageiro, que eu adoro, com suas referências  a Solaris de Tarkovsky e 2001 – Uma Odisseia do Espaço de Kubrick. Eu acabei me decepcionando um bocado, tenho que confessar, apesar de ter gostado bastante do filme.

Eu já o assisti pelo menos uma dezena de vezes desde que sentei naquela cadeira do Cinemark (que era uma novidade por aqui, diga-se de passagem) e sempre o achei um filme brilhante, porém incompleto, que não entrega tudo que promete. Parece que crítica e público compartilharam de minha opinião, uma vez que ele foi mal recebido por ambos, fracassou na bilheteria e tornou-se um daqueles filmes subestimados, quase até malditos para todos os envolvidos.

Até descobrir em seu lançamento em DVD em 2006 que minha impressão não estava errada, e que o corte original do diretor Paul W. S. Anderson (que nunca mais acertou em NENHUM FILME de sua carreira) tinha 130 minutos e foi obrigado pelos mandachuvas da Paramount, após duas desastrosas exibições teste, a cortar nada menos que meia-hora, que ajudaria muito mais no esclarecimento sobre aquela confusa viagem dimensional/infernal que a nave Event Horizon fez, aprofundaria no background dos personagens, uma vez que eles revivem cada um seus infernos pessoais, medos e culpas e principalmente, uma cena absolutamente gráfica cheia de sangue, gore e uma violentíssima orgia sexual que envolvia além dos famosos olhos sendo arrancados, tortura, sodomização por canos de ferro, estupros coletivos, dentes arrancados, intestinos puxados pela boca, espancamento e seios sendo arrancados a dentadas, onde amputados e atrizes do cinema pornô foram contratados para atuar e deixar o realismo lá em cima. CA-RA-LHO!

O mais triste de tudo é que essa versão do diretor nunca viu a luz do dia e nunca verá, pois todo esse material se perdeu, exceto alguns fotogramas e cenas gravadas em videotape. Tá bom, por mais que eu seja fã confesso da ultraviolência, e ainda mais sabendo que Clive Barker prestou consultoria para o longa, que pretendia trazer o típico terror escatológico e pervertido do escritor britânico, inspirado por seu Hellraiser – Renascido do Inferno, o que deixa mesmo um sentido de frustração quanto ao O Enigma do Horizonte é mesmo pensar que toda a profundidade da trama e o horror psicológico que seria explorado por conta daquele desastrosa viagem por um buraco negro, foram deixados de lado por questões mercadológicas de estúdio, e medo da classificação R em detrimento de cenas de explosões, ação desenfreada e toda a tonelada de clichês da ficção científica básica.

Bike espacial!

Bike espacial!

Pois é, viagem por um buraco negro. A nave Event Horizon teve o nome emprestado pela teoria de Stephen Hawking, que ao escrever “Uma Breve História do Tempo” definiu o “horizonte de eventos” como um limite teórico de um buraco negro, região limítrofe do espaço-tempo, onde as leis da Física terminam e a gravidade é tão intensa que nem a luz pode escapar. Pois então, essa embarcação espacial foi construída para que o homem pudesse viajar para outras galáxias, no caso, Proxima Centauri, projetada pelo Dr. William Weir (Sam Neill), através de um mecanismo que criaria a dobra de um buraco negro experimental, que pretendia ligar dois pontos do espaço por um buraco de minhoca e assim viajar mais rápido que a velocidade da luz. Opa, você me pergunta: peraí, você não está falando do Interestelar não? Não, Nolanbitches, Paul W. S. Anderson, o diretor de RESIDENT EVIL, já tinha colocado isso na tela quase duas décadas antes, e lide com isso!!!!!!

A viagem da Event Horizon aconteceu em 2040 e a nave perdeu contato, sendo considerada a maior catástrofe da história espacial, até que sete anos depois, ela emitiu novamente um sinal de socorro, localizada próximo a Netuno. A nave Lewis & Clark (nome da dupla de expedicionários que realizaram a primeira grande exploração do continente norte-americano), liderada pelo Capitão Miller (Laurence Fishburne) então é acionada para uma missão secreta de resgate da Event Horizon. Ao chegar no local indicado, a antiga tripulação não responde a nenhum chamado, e o sinal interceptado traz uma mensagem em latim, “liberate me ex inferis” que significa “salve-me do inferno”.

Toda a tripulação da Event Horizon foi morta e após um acidente, que faz com que a Lewis & Clark precise de reparo, seus membros ficam presos na nave fantasma com limite de oxigênio de apenas 20 horas.  Aí que o bicho começa a pegar, quando descobre-se que na verdade a nave não foi parar em outra galáxia, e muito menos em outra dimensão, mas no próprio inferno dantesco em si, fazendo com que a tripulação se matasse de forma atroz, com corpos dilacerados, olhos arrancados, mutilações e muito sangue (mesmo com o grosso da cena cortada na versão final). E a mensagem em latim teve um erro de tradução, sendo na verdade “liberate tuteme ex inferis”, ou “salve-se do inferno”. Ops…

Liberate tuteme ex inferis

Liberate tuteme ex inferis

Só que o que quer que seja esse multiverso infernal por onde a Event Horizon esteve, trouxe consigo sua essência, que passou a atingir os membros da Lewis & Clark ali aprisionados, tal qual o Solaris, materializando suas culpas e remorsos, como a médica da nave, Peters, que tem a visão de seu filho aleijado com as pernas cobertas de feridas, Dr. Weir tendo pesadelos recorrentes de sua esposa que se suicidara e o Capitão Miller, sendo confrontado por um fantasma do passado, de um oficial que morrera queimado e fora deixado para trás por ele.

Até aí tudo bem, o filme vai causando um claustrofóbico e sufocante sentimento crescente de terror físico e psicológico, misturado com algumas cenas gráficas (como a excelente sequência em que um dos tripulantes entra na câmara de descompressão e é ejetado para o espaço sem traje de proteção) mas do final para frente, fica confuso e descompassado com relação a suas reais intenções, além de deixar o espectador na mão com uma explicação mais detalhada sobre o funcionamento daquele estranho mecanismo circular que realiza a dobra temporal, deixa de lado todos os desdobramentos filosóficos, físicos, teóricos e teológicos para virar mais um filme de ação no espaço, transformando a figura do Dr. Weir em um supervilão espacial psicopata deformado.

Hoje acredito que o fato se deve muito a esses cortes, e se você analisar bem friamente o filme, percebe que ele ficou confuso, truncado, e muita coisa importante deve ter ficado no chão da sala de edição, atrapalhando o andamento, narrativa, desenvolvimento dos personagens e até mesmo o ritmo da produção. E isso como disse, refletiu na crítica e no público, uma vez que o faturamento nas bilheterias foi de fracos 26 milhões de dólares nos EUA, e mais 20 milhões no mundo todo, contra 50 milhões de orçamento, fazendo com que O Enigma do Horizonte sequer se pagasse, mas tornou-o de forma tímida um filme cultuado no meio sci-fi/ nerd, subestimado, que infelizmente deixa a desejar por conta de seu tremendo potencial desperdiçado que poderia tê-lo colocado fácil entre os maiores clássicos do gênero.

#chupaNolan

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Serviço de utilidade pública:

O DVD de O Enigma do Horizonte está atualmente fora de catálogo.

Download: Torrent + legenda aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

8 Comentários

  1. Andrigo Mota disse:

    er,…pera…Paul W Anderson do espetacular resident evil saga? e do alien vs predador?
    tipo…Uwe Bowel manda lembranças, de truta pra truta

    • Haheuaheuhauehaue, bem isso mesmo. Mas em se tratando desse filme, ele é tudo o que o Marcos fala na resenha. O que me faz até pensar que merecia um remake ou algo do tipo, aproveitando essa idéia do buraco de minhoca mandar a galera pra uma espécie de dimensão infernal, fazendo um terror no espaço de primeira, numa pegada de suspense psicológico com gore. Nos games, pelo menos, isso tá garantido com Doom, Dead Space, Alien Isolation e outras pérolas. xD

      • Ou nem precisaria de um remake, mas se de alguma forma essa “versão do diretor” ganhasse vida, seria incrível

        Nossa verdade Roberto, esses jogos de survivor horror espaciais são demais! Melhor que muito filme aí.

        Abs

        Marcos

  2. Papa Emeritus disse:

    Eu odeio os filmes do Paul Anderson. Inclusive esse daí. O cara simplesmente DESTRUIU Resident Evil. E olha que ia ser o George Romero que ia fazer o filme. Até vazou o roteiro na época, e era bem melhor que aquela tranqueira que ele fez com a Milla Jovovich.

  3. allanfastcore disse:

    Tinha mesmo potencial pra ser melhor, mas também não acho um filme ruim. Tem uma pegada lovecraftiana.

  4. Roger disse:

    Gosto bastante desse filme e tenho esse DVD, hoje raro e fora de catálogo, hehehe… É o melhor filme do Anderson, com muito boa história e ótima produção, além do bom elenco. Mas eu sempre pensei que o problema é que o filme ficou curto demais, e saber agora que deveria ter 30 minutos a mais responde essa sensação. Um pouco mais desenvolvido e seria um clássico. Paramount com sua ganância pisou na bola.

  5. […] das criaturas). Os efeitos de maquiagem foram supervisionados por Dave Bonneywell, o mesmo de O Enigma do Horizonte, O Filho de Chucky, Extermínio 2, Rei Arthur, Alexandre, Fúria de Titã e Hellboy II: O Exército […]

  6. Carol disse:

    Acho um filme incrível. Mas tem essa sensação de que faltou algo e ficar sabendo de todos esses cortes explica tudo. É uma pena, poderia ser um clássico se houvessem respeitado um pouco o que o diretor (fico pasma de saber que um dia ele teve esse nível) quis. Não queria um remake porque realmente sou fã desse filme, mas a história original prometia tanto que deveria ser filmada sem cortes.

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