Só a antropofagia nos une!

700 – Mortos de Fome (1999)

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Ravenous

1999 / EUA, Reino Unido, República Tcheca / 101 min / Direção: Antonia Bird / Roteiro: Ted Griffin / Produção: Adam Fields, David Heyman; Tim Van Relim (Produtor Executivo) / Elenco: Guy Pearce, Robert Carlyle, David Arquette, Jeremy Daves, Jeffrey Jones, John Spencer, Stephen Spinella, Neal McDonough

 

Mortos de Fome é um estranho e subestimado filme sobre canibalismo, que foge (e muito) do senso comum, principalmente do subgênero e é recheado de humor negro em uma trama que envolve os horrores da guerra, assassinato, covardia, loucura e até uma velha lenda indígena americana. E claro, gente comendo carne humana!

Dirigido por Antonia Bird (que substituiu Milcho Mancheviski que ficou a frente da direção por apenas duas semanas) e com roteiro de Ted Griffin, somos logo de cara apresentados ao protagonista da história, que de herói não tem absolutamente nada: o capitão John Boyd de Guy Pearce. Condecorado durante a Guerra Mexicana, no Século XIX o “herói de guerra”  na verdade foi um covarde que viu todo seu batalhão ser assassinado enquanto se fingia de morto para sobreviver, escondendo-se embaixo de uma pilha de cadáveres, tomando acidentalmente seu sangue, até que ele se levanta, e sozinho pega os líderes rebeldes com a guarda baixa e os assassina.

Como o sujeito no fundo é uma vergonha nacional ele é enviado para um distante posto do exército conhecido como Forte Spencer, localizado na Califórnia, que serve como ponto de passagem para os viajantes que desbravam Serra Nevada, conhecido pelo seu rigoroso inverno. O forte é comandado pelo Coronel Hart (Jeffrey Jones) e lá está uma série de soldados caricatos e desajustados, como o médico beberrão, o sujeito de temperamento explosivo, o religioso que vive querendo escrever hinos de louvor, e um sujeito viciado em ervas alucinógenas e mulheres, além de um casal de irmãos nativos.

Certa noite, um estranho errante chamado F.W. Colqhoun (papel de Robert Carlyle) aparece no forte precisando de ajuda, e contando sua história, descobre-se que ele era um pioneiro que viajava junto de uma caravana pega desprevenida por uma tempestade de inverno, ao melhor estilo da Expedição dos Donner (e exatamente no mesmo local!), sendo obrigados a se refugiar em uma caverna e recorrer ao canibalismo para sobreviver. Como alguns membros da expedição ainda podem estar vivos, Hart mobiliza seus homens para tentar encontra-los.

Sanguinolento

Sanguinolento

Na verdade, tudo não passa de um embuste e Colqhorn é um sádico que só queria preparar uma armadilha e assim fazer novas vítimas para se alimentar. Do grupo de resgate, Boyd é o único que sobrevive (que a gente sabe até esse momento), mas obrigado a recorrer também ao canibalismo ao ferir gravemente a perna, somente para voltar ao Forte Spencer e descobrir que o verdadeiro nome do facínora é Coronel Ives, membro patenteado do exército americano que se tornará o novo chefe daquele posto.

Como se não bastasse toda essa picuinha e Boyd sendo taxado como louco, uma vez que ninguém acredita na sua história sobre canibalismo e que o Cel. Ives na verdade é um demente psicopata, um elemento fantástico é jogado na trama, ao evocar a velha lenda do wendigo, criatura sobrenatural que surgiu de um ser humano que passou extrema fome durante o inverno e comeu seus companheiros para se alimentar, e após perpetuar seus atos canibais, ganha atributos sobre-humanos, assimilando também sua força, inteligência, espírito, além da cura de doenças e regeneração de ferimentos.

Além de abordar o tema canibalismo de uma forma peculiar, longe de filmes tradicionais do gênero que evocam a antropofagia, como O Massacre da Serra Elétrica, O Silêncio dos Inocentes ou até mesmo o infame ciclo italiano canibal dos anos 70, Mortos de Fome também tem suas doses de violência sem apelar para o exploitation, mas com uma boa quantidade gráfica de sangue derramado, que atinge seu auge justamente no terceiro ato, no feroz e brutal embate final entre Boyd e Ives, no que obviamente, completará de forma maniqueísta o ciclo de redenção do herói, uma vez que só a morte pode livrar a pessoa da maldição do wendigo.

Negligenciado, pouco entendido, deliciosamente maluco e fora dos padrões, Mortos de Fome é uma original mistura de filme de horror com comédia de humor negro, que joga luz sobre um tema controverso de um modo completamente não ortodoxo e ainda nos brinda com a absurdamente inverossímil (de forma proposital) e famosa cena quando Boyd se joga do penhasco em direção a um queda vertiginosa entre as copas das árvores e o máximo que acontece é uma perna quebrada! Altamente recomendado.

Só a antropofagia nos une!

Só a antropofagia nos une!

Serviço de utilidade pública:

O DVD de Mortos de Fome está atualmente fora de catálogo.

Download: Torrent + legenda aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Sandra disse:

    Sabe por que as legendas que você coloca nas fotos são geniais? Porque você é muito bem informado, tem a tal da “bagagem cultural”. Parabéns,novamente.

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