Vai um renew?

705 – A Tempestade do Século (1999)

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Storm of the Century

1999 / EUA, Canadá / 257 min / Direção: Craig R. Baxley / Roteiro: Stephen King / Produção: Robert F. Phillips, Thomas H. Brodek; Bruce Dunn (Produtor Associado); Mark Caliner, Stephen King (Produtores Executivos) / Elenco: Tim Daly, Jeffrey DeMunn, Debrah Farentino, Dyllan Christopher, Colim Feroe, Soo Garay, Spencer Breslin, John Innes, Casey Siemaszko

 

“Dê-me o que eu quero, e eu irei embora”. Essa é a assustadora frase chave de A Tempestade do Século. Só acho que Andre Linoge deveria ter dito antes o que ele queria e a população da ilha de Little Tall, no Maine, dado logo essa bagaça a ele, por que olhe, é dureza aguentar as suas mais de quatro horas de duração.

Posso estar sendo polêmico ao dizer isso, porque na real, A Tempestade do Século é um dos melhores trabalhos de Stephen King para a TV (e até para o cinema se ampliarmos a coisa), um puta horror psicológico, com desdobramentos verdadeiramente sinistros, um vilão dos mais interessantes, e um final que é um soco no estômago, mas ficar na frente da televisão vendo por 257 minutos é de cair o cu da bunda. Fácil fácil eu conseguiria editá-lo em duas horas!

Claro, vamos pensar que estamos falando de uma minissérie que fora exibido em três episódios (aqui no Brasil chegou as locadoras naqueles VHS de fita dupla), mas ao mesmo tempo que ele tem o mérito de apresentar e fundamentar bem sua grande leva de personagens (algo que Stephen King simplesmente tem um tesão absurdo), ele cai na armadilha do Made for TV, com atores qualquer nota, efeitos especiais baratos e a direção nada inspirada e burocrática de um zé ninguém como Craig R. Baxley. E sério, a gente não precisa ficar tanto tempo aguentando isso.

Só que temos Andre Linoge (com direito a seu sobrenome sendo uma anagrama para Legião) que é um PUTA vilão, a única interpretação fora da curva de todo o elenco, feita por Colim Feroe, que nos proporciona sempre os melhores momentos de deleite de A Tempestade do Século. O sujeito é maldade pura e acompanhamos sua chegada à pequena e pacata ilha, onde todos os moradores se ajudam e vivem em harmonia na comunidade, e sabem muito bem guardar um segredo (lembrando que Little Tall é a mesma ilha onde é situada a história de Eclipse Total e os acontecimentos que envolveram Dolores Claiborne, citados no roteiro), para tocar o terror, naquele excelente argumento do forasteiro chegando para abalar o status quo, ainda mais quando a ilha é castigada por uma terrível tempestade que parece não ter fim.

Dá a parada que eu quero, que saio fora!

Dá a parada que eu quero, que saio fora!

Linoge, munido de sua bengala com um lobo de prata na ponta, aparece já assassinando uma velha senhora e passa a influenciar todos os locais, revelando seus mais terríveis segredos. Como o próprio Linoge diz, a cidade está cheia de adúlteros, pedófilos, ladrões, glutões, assassinos, valentões, patifes e idiotas ciumentos. Tá bom para você? isso sem contar a forma que ele vai controlando mentalmente os moradores para matarem uns aos outros ou cometerem suicídio. Só que tudo pode cessar quando o único desejo dele for cumprido: lhe darem o que ele quer, que ele irá embora.

Foda é que o maluco fica embaçando até metade do terceiro episódio para finalmente dizer o que diabos ele quer, e enquanto isso, ao mesmo tempo que vemos cenas assustadoras do poderoso controle de Linoge nos munícipes (destaco aí a excelente cena do sonho coletivo que revela o que irá acontecer a todos se não lhe for entregue o que ele deseja) e o teor de suas ameaças, temos enrolação desnecessária atrás de enrolação desnecessária que eu deixaria facilmente na lata do lixo da sala de edição.

Mas King está afiadíssimo no seu texto, no suspense e crescente, no sentimento de impotência de todos, inclusive do espectador, contra aquela força maligna, na atmosfera claustrofóbica de ninguém poder fugir da ilha por conta da tempestade, e no embate maniqueísta entre Linoge e o xerife Michael Anderson (Tim Daly), o único que parece ser razoável, uma pessoa de bem, mas que está fadado a sucumbir perante o desejo coletivo e a terrível escolha que os moradores terão de tomar para aquela ameaça demoníaca ir embora, nem que para isso eles devam pagar um preço muito alto. Quanto a isso, outro ponto que eu questiono é a sequência do sorteio das pedras, para descobrirmos quem deverá entregar para Linoge o que ele quer, que demora uns longos e eternos dez minutos de falsa tensão construída, uma vez que obviamente já sabemos logo de cara qual será o resultado.

Mas apesar do saco de Papai Noel que se precise para assistir A Tempestade do Século na íntegra, pelo menos ele é uma boa produção audiovisual, com um roteiro acima da média e uma construção narrativa melhor que outras empreitadas de King e sua obra na televisão, como A Dança da Morte ou Tommyknockers – Tranquem as Suas Portas. E talvez esse seja o grande trunfo, o fato do Mestre do Terror tê-lo escrito para o formato de minissérie da ABC, e depois ter sido novelizado pelo próprio, seguindo o caminho inverso ao de costume.

Vai um renew?

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Serviço de utilidade pública:

O DVD de A Tempestade do Século não foi lançado no Brasil.

Download: Torrent + legenda aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Papa Emeritus disse:

    Tá reclamando que ficou com a bunda na cadeira 4 horas seguidas? (kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk)

    E eu, que vi um filme húngaro de 7 horas de duração! rsrs

    Tá bom, eu dei algumas pausas pra poder comer, urinar… mas vi tudo em um dia. A vantagem é que o filme que eu vi tinha planos sequência bem longos que te deixam hipnotizados. Quando dei por mim nem percebi o tempo passar.

  2. Ricardo Martins disse:

    Acho o filme legal. Só é preciso paciência para ficar aguentando o cara perguntando isso umas 4 horas… “Dê-me o que eu quero…E eu vou embora” Tá, mas fala logo o que quer, pô!

  3. Eu vi a primeira vez quando passou no SBT lá no longínquo início dos anos 2000. Fiquei bastante impressionado com a tensão construída ao longo do filme (transmitiram editado, limando uma boa parte dele, o que acho que rendeu justamente o dinamismo que você queria ter visto sair das próprias mãos dos editores, Marcos), e, claro, com o soco bem dado no estômago ao fim. Ainda mais por conta da trilha sonora fantástica, que soube construir o clima de melancolia e pesar necessários para esse soco dar certo. Revi um dia desses e, de fato, ele perde bastante por causa da duração, mas ainda continua muito bom. E funciona melhor como drama de suspense do que como horror. Abraço.

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