Os yuppies contra-atacam

714 – Psicopata Americano (2000)

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American Psycho

2000 / EUA / 102 min / Direção: Mary Harron / Roteiro: Mary Harron, Guinevere Turner (baseado no livro de Bret Easton Ellis) / Produção: Chris Halsey Solomon, Edward R. Pressman; Ernie Barbarash, Alessandro Camon, Clifford Streit, Rob Weiss (Coprodutores); Joseph Drake, Michael Paseornek, Jeff Sackman (Produtores Executivos) / Roteiro: Christian Bale, Justin Theroux, Josh Lucas, Bill Sage, Chloë Sevigny, Reese Whiterspoon, Jared Leto, Willem DaFoe

Certeza que Psicopata Americano é um dos filmes mais fodas da vida! Daqueles que você fala com a boca cheia, comenta todas as cenas incríveis, debate o final polêmico que gera N interpretações, fica embasbacado como Christian Bale está absurdamente incrível e puto por nem sequer concorrer ao Oscar®, e claro, ri sozinho toda vez que lembra a cena dos cartões de visita.

Baseado no best seller igualmente controverso e polêmico escrito por Bret Easton Ellis, Psicopata Americano metralha o espectador com uma dose cavalar de violência estilizada, misturada com humor negro e ácida crítica social e comportamental a uma caralhada de coisas (capitalismo, culto ao corpo, consumo, futilidade, relações interpessoais) de brilhar os olhos, uma gema que você não sabe se dá risada ou se fica completamente chocado.

E o que dizer sobre Patrick Bateman? Não dá para não considerar pacas o sujeito, e pagar um pau em todos os sentidos para a forma fodástica que um Christian Bale pré-Batman o interpreta. E nem de perto ele foi uma das primeiras escolhas para o papel, que foi oferecido para Leonardo DiCaprio (dissuadido por um grupo feminista pois interpretaria um misógino de mão cheia, por acreditar que ele enterraria sua carreira já que tinha tantas fãs adolescentes e mulheres por conta de Titanic – e detalhe, abandonou o projeto para fazer A Praia, do Danny Boyle… tá certo!), Ewan McGregor, Ben Chaplin, Billy Crudup e até o Jared Leto, que faz uma ponta como uma das vítimas, o da famosa dancinha (improvisada e não aprovada por Elilis) de Bale.

Os yuppies contra-atacam

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E tem mais, nos estágios iniciais quando os direitos do livro de 1989 foram vendidos, pasmen, Stuart Gordon foi recrutado para dirigir o filme com Ellis escrevendo o roteiro, tendo Johnny Depp no papel de Bateman. A ideia era um filme extremamente fiel ao livro, com fotografia em P&B para não tomar de cara uma classificação X. O projeto foi pro saco, Cronenberg substituiu Gordon e Brad Pitt seria o astro. Sabemos que também não deu certo, até cair nas mãos da Lions Gate que trouxe Mary Hallon para dirigir. Agora pense como seriam essas outras duas versões de Psicopata Americano?

Bom, voltando um pouco aqui, Bateman é o típico yuppie dos anos 80: rico, bonito, mora em um apartamento fantástico, malha todo dia, metrossexual, faz bronzeamento artificial, usa esfoliante de rosto, namora uma perua da alta sociedade, tem um gosto musical cafonérrimo, amigos com quem cheira cocaína no banheiro dos nightclubs e disputa reservas em restaurantes fancy ou quem tem o cartão de visita mais bonito, e… é um psicopata!

Na real sua psicopatia é sua verdadeira face, subterfúgio psicológico onde encontra razão em viver e felicidade em uma vida sem sentido, completamente de aparências, de inveja, de consumo exacerbado. Matar higienicamente prostitutas enquanto discorre sobre Phil Collins, Whitney Houston e Huey Lewins and the News é seu hobby, sua válvula de escape. Entre ternos caros, Rolex, cuecas Calvin Klein e champagne, estão serras elétricas, facas, estiletes, revólveres, machados e pistolas de prego, com os quais ele fere suas vítimas e derrama seu sangue com gosto.

I'm Bat(e)man

I’m Bat(e)man

Psicopata Americano grita a hipocrisia capitalista globalizada, o exagero os anos 80 e a ignorância da elite branca que brada sobre os problemas do terceiro mundo, a fome na África e ao mesmo tempo, acreditam que se você pegar HIV tornar-se-á imune a qualquer outro tipo de doença. É o culto ao corpo, ao se vestir, ao esbanjar dinheiro e como isso pode ser tão inócuo, que mesmo tendo espaço nas mais importantes rodas sociais e um escritório em Wall Street (em que você não faz absolutamente porra nenhuma o dia inteiro, só ouve seu Walkman) há um buraco negro vazio que se completa apenas com os prazeres de esfolar outro ser humano.

Falando assim o filme parece somente mais uma ode à violência gratuita e desmedida, como tantos outros, de Laranja Mecânica a Clube da Luta, são taxados, mas na verdade você dá mais risada do que qualquer outra coisa em Psicopata Americano. E não é somente aquele risinho de nervosismo. É de gargalhar alto mesmo, como as já citadas cenas dos cartões de visita (e como a Pierce & Pierce tem tantos vice-presidentes?), a cara de Bateman toda vez que ouve falar do hypado restaurante em que não consegue reserva (e seus colegas de trabalho, sim), a tese sobre Sussudio e a defesa da carreira solo de Phil Colins em detrimento do Genesis e claro, a absolutamente caricata e exagerada cena da serra elétrica, com Bale correndo pelado todo ensanguentado por corredores, e tem um desfecho completamente inverossímil.

ALERTA DE SPOILER. Pule para o próximo parágrafo ou leia por sua conta e risco. E quanto ao final do filme? Qual time você está? Daqueles que acham que Bateman de verdade era louco de pedra, não cometeu nenhum daqueles crimes, tudo é um delírio e ele é somente uma insana vítima infeliz da sociedade fútil que o rodeia, ou daqueles que acham que na verdade ele cometeu sim as barbáries, mas o inescrupuloso mercado imobiliário escondeu evidências para poder logo revender o apartamento, em um dos endereços mais nobres de Nova York e das vistas mais cobiçadas e o advogado de Bateman simplesmente o confundiu com outro yuppie qualquer que saiu da mesma forma, como o personagem de Leto o confunde com Marcus Halberstran? O final aberto e seu monólogo existencialista são outros dois pontos fortes da fita.

Psicopata Americano dá uma machada no American Way of Life de vez, mais forte até que Bateman dá em Paul Allen, e sem dúvida é um daqueles filmes que é impossível passar incólume, nunca recebeu toda a verdadeira atenção que se deveria, principalmente por conta dos problemas enfrentados com a censura, protestos e até a própria má fama do livro e de Ellis, mas tornou-se um cult que aos poucos vai sendo descoberto por tantos cinéfilos maravilhados.

New York Chainsaw Massacre

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Serviço de utilidade pública:

O DVD de Psicopata Americano está atualmente fora de catálogo.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Fala, Marcos! Beleza?

    Você leu o livro do Ellis? Se sim, o livro está à altura do filme?

    Tô com esse livro na lista do skoob tem uns três anos. Talvez esse post seja um sinal.

    Parabéns pelo blog. Sempre seguindo.

    Abaço!

    • Allan disse:

      Me intrometendo na resposta, mas eu recomendo a leitura do livro. É muito bem escrito e bastante detalhista. As cenas dos assassinatos são realmente brutais, coisa que no filme é mostrado de forma bem mais leve e menos explícita.

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