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A verdade (ainda) está lá fora

Há exatos 22 anos estreava Arquivo X. O resto é história da televisão sendo feita.


Foi em um 10 de setembro de 1993, logo após As Aventuras de Brisco County, Jr. (aquela série com o Bruce Campbell que ninguém lembra, mas era a principal aposta da emissora na época) que a Fox mudou para sempre a história da televisão. Nesta data, há 22 anos, estreava Arquivo X, trazendo o primeiro caso paranormal que os agentes David “Fox Mulder” Duchovny e Gillian “Dana Scully” Anderson investigaram.

Criado por Chris Carter, Arquivo X foi sem dúvida uma das mais importantes séries de televisão de todos os tempos, subestimada em seu começo até pelos próprios engravatados da Fox, mas que depois se tornou um ícone da cultura POP, um cult dos anos 90, arrebatando milhões de fãs, movimentando um merchandising absurdo, virando temas de convenções, e eu particularmente acredito que nenhuma outra série desde então, nem os Lost ou Game of Thrones da vida, conseguiram ou conseguirão angariar um séquito tão grande de fãs e seguidores (os chamados eXcers, lembra deles?) e se tornar tão populares quanto as aventuras de Mulder e Scully em busca da verdade.

Isso porque Arquivo X foi um verdadeiro fenômeno. Campeão de audiência, ganhou vários prêmios Emmy e Globos de Ouro. Estabeleceu uma mitologia, suscitou um debate que aguça a curiosidade de muita gente no mundo inteiro (alienígenas e conspirações governamentais para acobertá-los) desde que supostamente um disco voador caiu na cidade de Roswell no Novo México em 1947, transcendeu a televisão e virou livro, HQ, RPG, jogo de videogame, dois longas metragens lançados no cinema e originou uma série spin off. Passeou entre diversos gêneros durante suas nove temporadas: sci-fi, terror, suspense, comédia, romance, drama. Criou slogans, estabeleceu personagens no imaginário nerd e ainda tinha uma música tema que vira e mexe alguém assobia quando uma coisa misteriosa acontece.

Muito desse status é por ela estar tão profundamente enraizada na década de 90 e no modus operandi daqueles tempos. Arquivo X nasceu como uma arriscada e subestimada aposta de Chris Carter, e foi para uma geração sem torrent, Popcorn Time, Netflix e afins. Aqui no Brasil então, Internet e TV à Cabo era raridade. Você era OBRIGADO a estar na frente da televisão numa sexta-feira à noite, ligado na Rede Record para assistir a um novo episódio e não perder nenhum detalhe da intricada trama conspiratória que se desenrolava e atormentava os dois pobres agentes do FBI. Ou você conseguia se conectar por um modem discado na madrugada e acompanhar fóruns de discussão na Internet, ou tinha que correr para a banca comprar a revista Herói, a Super-Herói ou mais tarde a Wizard para acompanhar as novidades e ter algum tipo de guia de episódios para poder se localizar na intrincada trama conectadíssima.

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Quem tinha essa daí? Eu ainda tenho!

Os finais de temporada deixavam os fãs em polvorosa, roendo unhas esperando durante um ano (algo que nenhuma série havia feito com tanto afinco) e a forma como os capítulos eram divididos entre o fio condutor que interligava e direcionava tudo desde o piloto (que, por sinal, é um dos melhores pilotos já feitos para uma série de TV) e os famosíssimos episódios chamados de “Monstro da Semana”, quando Mulder e Scully enfrentavam alguma ameaça mutante, paranormal ou sobrenatural em uma história fechada, só trazia mais audiência e fãs para o lado de Carter, Duchovny, Anderson e da FOX.

Todo mundo queria saber o que aconteceu com Samantha, a irmã abduzida de Mulder, quem eram os envolvidos na conspiração de colonização alienígena, o que era o Óleo Negro, qual seria a próxima traíragem governamental ou qual a verdadeira identidade do Canceroso e sua ligação com nosso querido agente protagonista.

Como se não bastasse, Arquivo X fez escola e influenciou o modo de como se fazer séries depois (taí Lost e Fringe que não me deixam mentir). Saiba você que os criadores dos premiados e elogiados Homeland, a dupla Alex Gansa e Howard Gordon, e de Breaking Bad e Better Call Saul, Vince Gilligan, além dos produtores executivos de Supernatural, John Shiban e American Horror Story, James Wong, são crias e oriundos das desventuras que começavam em um porão do FBI, tendo trabalhado como roteiristas, produtores ou produtores executivos do semanal televisivo.

Fora a perfeita dinâmica e química dos protagonistas: Mulder com sua crença febril, sua busca incorruptível pela verdade, custe o que custasse, em contraponto ao ceticismo de Scully, toda sua fundamentação baseada na ciência e na razão (apesar da contradição em ser religiosa), e tudo isso, sem cair em um romance faceiro e piegas, mantendo apenas aquela tensão sexual no ar o tempo todo. E eu duvido que você moleque nerd nos anos 90 não era apaixonado por Dana Scully, uma mulher comum, ruiva, sardenta, baixinha, que não era nenhuma sex symbol ou super-heroína gostosona de quadrinhos, mas sim uma mulher inteligente, de personalidade forte, que sempre foi o verdadeiro porto-seguro e força motriz de Mulder.

Okay, vamos ser sinceros: Arquivo X foi um sucesso estrondoso antes de sua qualidade começar a despencar vertiginosamente ao longo dos anos, Duchovny abandonar o barco e ser substituído pelo agende John Dogget de Robert Patrick e Scully se afastar de seus deveres como agente do FBI para se dedicar a maternidade enquanto Monica Reyes (Anabeth Gish) ocupava seu posto, até seu final capenga em maio de 2002 – passando um pouco do ponto onde deveria ter sido encerrada.

E tem mais uma: Arquivo X está de volta. A FOX anunciou mais seis episódios inéditos, que estreia no dia 24 de janeiro de 2016, juntando novamente, depois de 13 anos de hiato desde que seu último episódio foi ao ar (e um segundo longa metragem em 2008), o criador e suas criaturas.

Mas será que hoje, há espaço para a volta dos intrépidos agentes federais combatendo OVNIs e conspirações governamentais secretas?

Eu quero acreditar!

Alguns pontos podem ser levantados para tentar se responder essa questão de alta periculosidade, pois a maldita memória afetiva, o saudosismo e a veneração pela série podem jogar contra. O primeiro é a acertada decisão em trabalhar com apenas seis episódios. Convenhamos que durante seus quase dez anos no ar, quase todo tipo de tema que aborde alienígenas, conspiração e paranormalidade já tenha sido explorado.

Hoje em dias pouquíssimas séries funcionam no esquema de 24 episódios, duração da maioria das temporadas de Arquivo X. Dessa forma mais enxuta, um arco completo pode ser trabalhado sem arrastar a mitologia em demasia e acabar perdendo fôlego.  Assim, Carter irá conseguir desenvolver uma história coesa dando uma menor margem para erro e descontentamentos, principalmente dos fãs ardorosos.

Outra coisa que precisamos ter em mente é que não será apenas uma série para saudosistas. Obviamente a ideia da FOX é conseguir audiência e isso também vale para um novo público, uma molecada que não vê lá mais tanta graça em ETs querendo dominar o mundo com a ajuda dos políticos como nos anos 90 e acha tudo isso tão caricato quanto Giorgio A. Tsoukalos e seus “Aliens”.

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Quem criou a vacinação contra a varíola?

Então provavelmente todo aquele complicadíssimo quebra-cabeça da colonização alienígena estará de fora, e vamos lá, os tempos são outros e não adianta bater em uma fórmula que querendo ou não, se desgastou e levou a série ao seu cancelamento, certo?

Conta para o lado da FOX, que é quem vai colocar dinheiro na bagaça, a recente experiência positiva com o retorno da sua segunda série de maior sucesso desde que Arquivo X chegou ao fim: 24 Horas. Claro que o espaço de tempo em que ela ficou fora do ar foi muito menor, contando com a memória dos fãs ainda fresca, mas foi deveras eficaz em trazer de volta e de forma empolgante o velho e saudoso Jack Bauer, também no mesmo esquema de uma temporada mais curta que o habitual.

Outra dúvida é respondida se você viu Anderson (lindíssima e talentosa!) em Hannibal e Duchovny (ótimo!) em Californication ou Aquarius. Ou seja, ambos estão mandando bem em suas carreiras, não caindo no limbo dos atores decadentes de televisão. Claro, o novo Arquivo X não será tão físico quanto antigamente, com os dois vestidos de sobretudo munidos de suas lanternas, correndo para cima e para baixo, mas para compensar, o nível de atuação dos dois aumentou e isso será um ponto positivo importantíssimo. E convenhamos, nenhum precisava voltar aos papeis que até certo ponto lhe estigmatizaram pelo resto da vida, se a história realmente não fosse muito boa. Não acho que eles estejam passando fome por aí.

Nós queremos acreditar?

Nós queremos acreditar?

E talvez o que aconteceu em Arquivo X – Eu Quero Acreditar seja uma pitada do que pode rolar nessa nova temporada. Muita gente ficou frustradíssima com o segundo filme da franquia, especialmente por não trazer os famigerados alienígenas e os cambau novamente. Mas pera lá, analisando friamente, o filme é uma espécie de “Monstro da Semana”, e se visto por esse prisma, mas que diabos, seria um excelente episódio da série! Mas que não convenceu como longa metragem.

Só que a dinâmica de um episódio “Monstro da Semana” não funcionaria, uma vez que ambos não são mais agentes do FBI, não vivem mais enclausurados no porão do Buerau pegando os casos esquisitos que ninguém mais quer resolver e o tempo é curtíssimo para ficar gastando cartuchos com um episódio fechado por semana. Além disso, teremos dois novos agentes na jogada (lembra o que eu falei sobre a FOX querer angariar novo público?): os agentes Miller (Robbie Amell, de The Flash) e Eisntein (Lauren Ambrose, de A Sete Palmos). Talvez substitutos para uma próxima temporada? Vai saber.

Acredito que provavelmente haverá uma trama única ligando toda essa nova temporada, com seus desdobramentos, mas que necessariamente, pode não ter nenhuma ligação com toda a paranoia alienígena já fundada, e tudo bem, vamos seguir em frente, explorar novos conceitos e ao contrário do que um dos famosos slogans da série prega, não combater o futuro!

Também não podemos descartar o pequeno William, filho de Mulder e Scully, que fora dado para a adoção na última temporada (e não deu as caras na última incursão cinematográfica) e seria já um adolescente, com algum tipo de poder paranormal, e quem ninguém mais soube do paradeiro até então. E, principalmente, há ainda todo um mistério a ser revelado quanto a sua origem (alienígena?). Acredito que haja bastante pano para a manga para isso ser explorado.

Agora o que nos resta é sim comemorar essa data, até mais para um fã inveterado como eu, que teve em Arquivo X a primeira série que realmente acompanhei de cabo a rabo, inicialmente na Record e depois na FOX, e que já perdeu as contas de quantas maratonas fez para assistir todas as temporadas novamente desde seu término, e aguardar essa tão esperada nova temporada, torcendo para que a verdade ainda esteja lá fora!

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Tipo vinho, melhoram com a idade!


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Vinicius Lemos disse:

    Excelente materia, Marcos, mandou bem ao falar da serie que foi a primeira a me cativar o suficiente para ficar esperando pelas 22:00 de sexta que demoravam pra chegar (e, com sorte, traziam o Eugene Tooms pronto pra saborear um figado fresquinho). Mega ansioso por essa nova temporada, coisa que nao acontecia desde, sei la, 2001 (quando acabou a sexta temporada na Record, ja aos domingos)!
    ps: ainda tenho nao so a revista, mas o poster do arquivo X que vinha junto, hahahaha

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