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Apesar de você (seu final…)

Ash vs Evil Dead foi a melhor (e mais sangrenta) série de terror dos últimos tempos. Mesmo com aquela conclusão em seu season finale


Agora com sua primeira temporada completa, tendo sua season finale exibida nos EUA no último sábado, pode-se afirmar sem nenhum erro que Ash vs Evil Dead foi a melhor série de terror dos últimos tempos, apesar de seu final.

Como escrevi por aqui anteriormente, ver novamente Bruce Campbell munido de sua boomstick e da serra elétrica acoplada em sua mão decepada explodindo e decapitando a cabeça dos deadites foi como revisitar um velho amigo que não vemos a um tempo, daqueles que amamos, conhecemos já todos os seus trejeitos e ficamos à espera de sua piadinha infame de gosto duvidoso, cantada de pedreiro ou atitude jocosa, que acha O Poderoso Chefão chato, e seu tipo de filme é Duro de Matar, segundo o próprio.

O sujeito de camisa azul e calça cáqui, depois de 30 anos passados da sua verdadeira cruzada contra os demônios kandarianos, recitou para uma moça em seu trailer, quando chapado após fumar um cigarrinho de artista, as passagens proibidas do Necronomicon, que guardava escondido em um baú de metal junto com sua coleção de revistas pornô, liberando mais uma vez as terríveis forças das trevas que poderão exterminar nosso mundo.

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GROOVY!

Coube ao nosso herói maneta preferido combater o exército de deadites, com o auxílio de Pablo e Kelly, ambos colegas de trabalho do nosso herói, também com o acréscimo da detetive Amanda Fisher em sua reta final e a revelação de quem é a misteriosa personagem de Lucy “Xena” Lawless, não apenas Ruby Knowles, filha do Professor Knowles, aquele que traduziu as inscrições do Necronomicon na cabana – que como sabemos, junto com sua esposa Henrietta e sua outra filha, Annie, teve um destino trágico no segundo filme – mas sim uma dos Obscuros, antiga ceita de híbridos humanos e demônios que escreveram o Necronomicon com sangue em páginas feitas de pele humana.

Ao final de sua primeira temporada com seus 10 episódios de curta duração, apenas 30 minutos cada, apesar de perder o fôlego, o mais importante para se avaliar (e curtir) Ash vs Evil Dead é colocar na cachola que séries de televisão e filmes de cinema são duas mídias COMPLETAMENTE diferentes, por mais que conversem de forma bem próxima. É simplesmente impossível executar a mesma linguagem em ambas, por conta de um simples motivo: duração. Ao fãs mais puristas de Evil Dead, há de se saber que não haveria a menor possibilidade de utilizar Ash como um personagem sozinho, sem seus sideckicks, Pablo e Kelly, ao longo de toda uma temporada.

Simplesmente não haveria roteiro, estrutura narrativa e até mesmo atuação, mesmo se tratando de um Bruce Campbell de volta na sua melhor forma, que suportasse um único personagem durante tanto tempo em uma “mitologia expandida”, se é que podemos chamar assim. Outro ponto passível a entrar nessa discussão é que também seria impraticável um enredo tão straight forward como dos três filmes.

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Trio Parada Dura!

A Morte do Demônio e Uma Noite Alucinante, as duas maiores referências para a série, tem lá seus 90 minutos de duração em média, mostrando um homem em uma cabana no meio da floresta enfrentando criaturas demoníacas possuídas. Não dá para fazer uma série inteira só com isso, gente, peloamor. Por isso as tramas paralelas, os parceiros de Ash, o enxerto de personagens, outras ameaças para o trio combater (que se autodenominou de forma infame como Bate-Fantasmas em um episódio), elementos que entraram no cânone (como o ótimo demônio Eligos com seu visual meio Silent Hill e meio Cenobita) e até algumas barrigadas e arcos longos demais que a tornou arrastada em alguns momentos. Até aí, normal, nem séries aclamadas que todo mundo paga um pau conseguiram 100% de aproveitamento em todos os seus episódios.

Houve também quem reclamasse muito da utilização do CGI. Acho que isso passa por um gosto mais pessoal e oldschool, mas devemos lembrar que a série PRECISAVA ser atualizada, com recursos tecnológicos disponíveis. Todo mundo adora a tosqueira, os bonecões, o sangue de guache, o stop-motion e o purê de batata nos filmes com seus efeitos práticos, mas sabemos que isso simplesmente não funciona nos dias de hoje, é datado, e não dá para brigar com a tecnologia. Achei, tirando vez ou outra, os efeitos especiais bem aplicados, e sem exagero ou falta de qualidade técnica.

O mais importante é que Ash vs Evil Dead manteve o espírito do original, com certeza. Principalmente em seus primeiros episódios e nos três últimos, com a volta do personagem à cabana. Todos os deadites mantiveram-se fiéis ao visual das criaturas kandarianas criadas por Sam Raimi, mas com um toque de maquiagem e de efeitos mais modernos.

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Aqui que fica Silent Hill?

Os quesitos gore e splatter, marcas registradas da “franquia” então são indiscutíveis. Baldes e baldes de sangue, vísceras, tripas, membros amputados, cabeças decapitadas, cérebros espatifados com tiro de espingarda, demônios abertos ao meio com serra elétrica e até um rosto fatiado numa máquina de frios (!!!) estiveram presentes, elevando à estratosfera o nível da violência gráfica já mostrada em uma série de televisão. Em um só episódio havia mais sangue que toda uma temporada de True Blood, por exemplo!

E cá está também o humor negro, politicamente incorreto ao extremo, com algumas sacadas simplesmente hilárias do tiozão Ash como um bom e velho medíocre americano de meia-idade, e até um pouco do pastelão também se fez presente. Ponto para tudo isso, além de algumas boas cenas climáticas de puro terror.

Para os fãs dos filmes, principalmente os mais xiitas, impossível negar a tonelada de referências, homenagens e easter eggs, que Ash vs Evil Dead prestou, desde a reaparição do famoso Oldsmobile Delta 88, do Necronomicon, do punhal kandariano, da sua mão decepada, do Bad Ash (aquele com quem ele treta em Uma Noite Alucinante 3), a cabana e todos os seus elementos ali presentes (a cabeça de veado empalhada, o relógio de pêndulo, o espelho na parede, o tape de rolo com a tradução das inscrições, o balanço na entrada e o porão) e até a famosa “shaky cam” – o improviso de um Raimi que não tinha grana para bancar uma steadicam – que faz as vezes do POV da força do mal zanzando entre as árvore da floresta.

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O gooooooooore!

O grande ponto negativo da série ficou mesmo por conta de seu final, que termina com um gosto ruim na boca, com um recurso preguiçoso de roteiro (que até faz certo sentido, uma vez que Ash nunca foi um herói, ele é um anti-herói, racista, hipócrita, mulherengo, machista, arrogante e egoísta – mas que amamos, vai) com um cliffhanger nada atraente e sem aquele “gostinho de quero mais” para uma segunda temporada, que já nasce sob desconfiança do que ela poderá se tornar, uma vez que corre o risco de ser mais um Sobrenatural da vida, com Ash, Pablo e Kelly tendo que caçar demônios por aí, do que Evil Dead propriamente dito.

Sinceramente, eu acho que deveria ter funcionado como uma temporada única, como um revival do personagem e daquele universo, como uma verdadeira volta triunfal, com todos os envolvidos na mais perfeita forma (Campbell está incrível e o piloto dirigido por Raimi é histórico), e que se mostrou muito além do simples fandom service, e todo mundo ficaria contente. Além disso, ao invés de 10 episódios relativamente curtos, talvez seis, com uma metragem maior (45 minutos habituais ao invés da meia-horinha), condensando algumas passagens e eliminando outras colocadas ali só para encher linguiça.

Mas já que teremos uma nova temporada vindo aí no segundo semestre, o jeito é confiarmos em Campbell e nos produtores, Sam Raimi e Robert Tapert, esperando que eles possam nos surpreender, uma vez que tem total nosso voto de confiança. E que Ash vs Evil Dead continue sendo tão GROOVY quanto essa primeira temporada, que apesar de uma ou outra derrapada, nos levou de volta à cabana (e até à infância de alguns) e presenteou os fãs com a sensação deliciosa de ver a real sequência de Evil Dead, depois de longos anos de espera, e não aquele remake/pseudo continuação desnecessária de 2013.

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Vejo vocês na segunda temporada!

 


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Norberto disse:

    Achei exatamente isso que você escreveu Marcos. O final me desceu muito mal, num episódio simplesmente SENSACIONAL! Achei até que a direção fosse do Raimi de tão boa. Pontos altos: Gore, muito gore; Trilha sonora impecável; Efeitos muito bons para uma série de TV; Comédia e o politicamente incorreto nas alturas; Os Deadites, fodas; E claro, meu herói de infância, Ash, no auge! Bruce Campbell RULES! Pontos baixos: Encheção de linguiça; um romance meio forçado do Ash com a policial; O tio e o medalhão que não serviram de porra nenhuma. Achei no total uma série nota 8 com picos de 10. E o primeiro episódio é para ver e rever ad eternum! Abraços e adorei o layout novo do site, no “capricho”. Groovy!!!!!!

    • Marcos Brolia Marcos Brolia disse:

      Groovy, Norberto!!!!

      Tem razão, o lance do Brujo e do amuleto foram só para encher linguiça, pelo jeito. O romance também não foi algo natural e não caiu bem, fora que aquele S01E06, aquele que eles ficam presos no bunker e tem a galera da milícia, de longe é o pior de todos. Dou quatro estrelas para a série… Só não chegou em 5 exatamente por algumas dessas barrigadas e o final.

      Pow, que legal que curtiu o novo layout, e fique aí a vontade para comentar sempre.

      Abs

      Marcos

      • Norberto disse:

        Valeu cara. Estou lendo o site desde Outubro e estou em ordem de data, anos 60 ainda e acompanhando as publicações mais recentes. E já vi um monte dos seus Horrorcast, bem legal tbm. Achei esse episódio 6 e o do Dinner (Mas esse se salvou pelo surto “Fome Animal” do final!) bem fracos mas no geral foi bem saudosista e com muito respeito pelo Universo Evil Dead. Abraços!

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