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Corrente do Mal explicado

O melhor filme de terror de 2015 escolhido aqui pelo 101, nos seus mínimos detalhes


No nosso TOPE NOVE dos Melhores de 2015, o terror indie norte-americano Corrente do Mal ficou com a medalha de ouro do melhor filme do ano. O longa acompanha uma jovem que é “contaminada” por uma espécie de maldição sexualmente transmissível. Um dos pontos fortes do filme é o mistério e a narrativa cheia de ambiguidades, que força o espectador a prestar atenção aos detalhes e completar algumas partes com a própria imaginação, sem nunca entregar nada.

Muitos destes mistérios não são fáceis de compreender de primeira. Então resolvemos por aqui explicar de forma simples o que se passa no filme – até por ele gerar tanta controvérsia – então já aviso, este é um artigo carregado de SPOILERS. Os argumentos aqui expostos são embasados por uma análise pessoal do filme, entrevistas feitas com o próprio diretor e outras análises de sites gringos.

O monstro do filme, que chamarei aqui de “Coisa”, em referência ao nome original – “It” Follows – é uma espécie de maldição ou demônio que se manifesta fisicamente no mundo real, mas só é visível para aqueles que estão “contaminados”. A contaminação se dá através do ato sexual. A Coisa persegue uma pessoa apenas por vez e só para quando consegue matar essa pessoa, voltando assim a perseguir a vítima anterior. Nas palavras do personagem Hugh/Jeff, a Coisa está sempre andando na direção da vítima, apenas andando, mas ela sempre chega – uma analogia bem simples com a própria Morte. A vítima pode se esconder e fugir o quanto quiser, a Coisa pode até ser despistada, mas nunca irá parar de perseguir o alvo até que seja “transferida” para outra pessoa. Apesar de só ter um alvo por vez, todos que foram contaminados em algum momento continuam sendo capazes de ver a Coisa também.

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Quer que eu desenhe?

Já na cena de abertura do filme, uma jovem sai de casa e corre em círculos, sem que o espectador ou outros personagens vejam algo. Ela então se desespera e foge, indo para uma praia deserta. Neste momento, ela está “contaminada” e tentando fugir da Coisa, que apenas ela pode ver; a garota acaba por desistir e se entregar, sendo brutalmente morta. As roupas da personagem mostram como a Coisa não se anuncia e consegue pegar qualquer um desprevenido.

Pouco depois, na cena do cinema, Jay e Hugh/Jeff estão em um encontro romântico que termina bruscamente quando ele pergunta se Jay conseguia ver uma mulher de vestido amarelo e esta diz que não vê ninguém. A mulher de vestido amarelo era na verdade a Coisa, Hugh/Jeff está “contaminado”. No dia seguinte os dois transam e ele passa a Coisa para ela. Após o ato sexual, Hugh/Jeff prende Jay em uma cadeira de rodas e espera a Coisa aparecer para confirmar se havia passado a maldição pra frente corretamente. A Coisa aparece pela primeira vez para Jay na forma de uma mulher nua. Ele então explica para ela as “regras” e então deixa Jay em casa. A partir daí, ela começa a ver a Coisa se manifestando de diversas formas; uma mulher velha que parecia ter saído de um hospital, uma adolescente violentada, um homem bizarramente alto.

Tá me seguindo?

Tá me seguindo?

Uma coisa notável sobre o filme é que ele gira em torno das relações sexuais sem nunca ser explícito. As cenas de sexo são contidas e recatadas. Após a morte de Greg por exemplo, Jay foge e já desesperada, encontra três homens se divertindo em um barco. Ela então tira a roupa e entra dentro d’água para ir até eles. A cena é cortada para mostrar Jay molhada dentro do carro, voltando para casa. Não fica claro em momento algum se ela chegou a transar com algum dos homens do barco, mas a reação de surpresa e horror dela quando a Coisa aparece novamente é um indício de que algum deles foi morto. Existe ainda um certo voyeurismo em Corrente do Mal, já que constantemente os personagens observam e são observados através de janelas.

Ao contrário do que muitos pensam, o filme não é somente uma metáfora sobre doenças sexualmente transmissíveis. É possível fazer essa interpretação, já que como a própria AIDS, a Coisa contamina a vítima através do ato sexual e então persegue essa vítima até a morte, sempre acompanhada pelo estigma da doença. No entanto, este é apenas um dos vários sub-textos existentes e que claramente não é o objetivo principal do filme, sendo a análise mais simplória e banal possível. Afinal de contas, DST’s não te abandonam quando você contamina outra pessoa.

Não olhe para trás. Ou melhor, olhe sim...

Não olhe para trás. Ou melhor, olhe sim…

Outra coisa interessante é que o filme se passa em um microcosmo adolescente, ou seja, em um universo limitado à vida dos jovens, no qual os adultos não tem qualquer influência direta nos acontecimentos, o que é intencional. A principal manifestação da influência adulta na vida dos personagens acontece com a própria Coisa, quando esta assume a forma da mãe do Greg, antes de matá-lo e quando assume a forma do pai da Jay na infame cena da piscina.

Corrente do Mal é um filme de poucos diálogos e que evita ao máximo explicar oralmente o que acontece. O pai da Jay não é mencionado em momento algum da cena da piscina, mas ele aparece duas vezes em fotografias de família dentro da casa dela. A mãe da Jay nunca aparece em foco ou com relevância, mas é sempre vista com alguma bebida alcoólica. Em uma das poucas cenas com participação efetiva de um adulto, Greg escuta a mãe dizer que a família de Jay é muito complicada, sem dar nenhuma razão para tal. Estes elementos, somados a ausência absoluta do pai ao longo do filme, podem ser um indício de que ele cometeu suicídio. Cabe ainda mencionar o fato de que quando o pai da Jay aparece na piscina, a irmã caçula pergunta “O que você vê?” e ela responde “Eu não quero dizer”. Existe aí uma relação familiar muito complicada, mas explorada sempre nas entrelinhas. (NE: um ponto que é interessante acrescentar é que o filme se passa nos subúrbios de Detroit, uma cidade decadente e falida pela recente situação econômica dos EUA e com o prejuízo de suas montadoras de automóveis, principal atividade da região, e por isso aquele aspecto de “local deserto” e também uma das possíveis explicações da ausência de adultos é o fato deles terem de trabalhar o dia todo, inclusive em outras cidades).

A falta de informação sobre o que está acontecendo e a história contada nos detalhes é uma das várias qualidades de Corrente do Mal. Na maioria dos filmes de terror, os personagens dispõem de algum elemento que os ajuda a compreender e combater o inimigo; uma pessoa que já passou pela mesma situação, um livro antigo, um relato na Internet. Aqui não existe qualquer indício de onde a Coisa veio, do que ela seja e muito menos de como destruí-la. O plano executado na piscina, que era de eletrocutar a Coisa, foi uma tentativa inocentemente construída com aquilo que a imaginação deles permitiu (NE: estamos falando de adolescentes, todo mundo aqui já foi um e contar para os pais as cagadas que fez ou que está acontecendo, é sempre a última alternativa, sempre preferindo a ajuda dos amigos e planos idiotas antes).

O diretor-roteirista disse em entrevista que a intenção foi de realmente construir um plano mirabolante e fantasioso, estilo Scooby Doo e que seu objetivo era fazer algo que fosse contra a estrutura tradicional na qual os personagens descobrem como derrotar o monstro e colocam o plano em execução. A ideia claramente não dá certo pois a Coisa entendeu o que se passava e começou ela mesma a arremessar os objetos dentro d’água. Existe ainda uma teoria de que a Coisa teria alguma conexão com a água, que é um elemento bem comum no filme. Ela se recusa a entrar na piscina olímpica, em determinado momento a piscina do quintal de Jay está misteriosamente destruída, ela ataca duas vezes na praia, assume a forma de uma mulher encharcada… Enfim, é outro dos vários mistérios do filme!

Pool party!

Pool party!

De volta a cena da piscina, em um determinado momento a irmã da Jay joga um lençol sobre a Coisa para revelar onde ela estava, o que é possível pois a Coisa não é um fantasma e sim uma manifestação física. – Isso fica óbvio ao longo do filme, por exemplo quando a Coisa precisa quebrar a janela da casa de Greg e depois bate na porta do quarto dele, ou seja, a Coisa não atravessa paredes. – Logo depois Paul consegue acertar alguns tiros que resultam no que talvez seja a cena mais incompreensível do filme. Jay olha para dentro d’água e vê uma substância semelhante a sangue em grande quantidade se espalhando por toda a piscina. Como o diretor David Robert Mitchell disse em entrevista, a ideia do plano era ser mirabolante, algo feito por adolescentes e que claramente não funcionaria. Então a criatura não foi derrotada, pelo contrário, aquela coisa na água pode ter sido uma amostra da forma real da Coisa.

O final do filme é propositalmente aberto, mais uma vez o próprio diretor disse que o intuito era que cada um chegasse a própria conclusão por meio de tudo que existe no filme e se recusou, a confirmar se a maldição acaba ou não. Fica aqui então a minha interpretação do final: Logo após a cena da piscina, Jay se rende ao poder da Coisa e finalmente aceita passá-la para Paul, na esperança de que este pudesse protegê-la. Isso é reforçado pela forma mecânica e sem prazer do sexo e quando Paul pergunta se Jay se sentia diferente. Em seguida, Paul é visto dirigindo em uma área pobre da cidade, observando algumas garotas de programa, pensando em passar para alguém a maldição, mas ele não o faz. Os dois ficam juntos, com um deles carregando a maldição. Na última cena do filme, os dois caminham de mãos dadas e, ao fundo, A Coisa caminha na direção deles mais uma vez. (NE: e o sujeito simplesmente não conta a ela! Covarde, em um desvio de caráter absurdo não diz a menina e caminha com ela de boa, e isso que eu achei um dos maiores socos no estômago desoladores do final pessimista).

Um vídeo review estrangeiro de Corrente do Mal, que não me lembro de quem, aplicou ainda a teoria das cores ao filme, dizendo que a cor vermelha sempre aparece no filme entre as cenas com a Coisa, como uma espécie de indício da existência da mesma. Na cena final, além de Jay e Paul, é mostrado um homem usando um casaco vermelho. Sendo assim, isso confirmaria ainda mais a minha teoria de que a Coisa ainda está atrás de um deles.

A ideia da Coisa surgiu para o diretor David Robert Mitchell por meio de um pesadelo, o que representa muito bem a estética do filme como um todo e que o torna uma experiência ainda mais única. Esse aspecto onírico (que se refere aos sonhos) do filme é perceptível em dois elementos bem sutis. O primeiro é que não é possível identificar o QUANDO em Corrente do Mal. Aparatos tecnológicos como o e-reader em forma de concha indicam algo atual ou até futurístico, mas a constante variação de estilo de roupa, veículos, decoração e tecnologia, mostram que não existe uma linha temporal no filme. Da mesma forma, também não é possível identificar a estação do ano em que eles estão; existem elementos que apontam para o outono, outros são indícios de inverno e até mesmo verão. Esse tipo de elemento sutil pode não ser perceptível a primeira vista, mas ataca diretamente o inconsciente, causando um estranhamento no público, semelhante ao que Kubrick fez em O Iluminado. Para mais detalhes sobre estes aspectos, recomendo para quem souber inglês a leitura do artigo Here’s Why You Missed the Scariest Parts of It Follows, que foi uma das minhas principais fontes.

O diretor de Corrente do Mal, David Robert Mitchell, disse em entrevista ainda que tinha várias ideias diferentes para explorar usando a Coisa, muitas delas não foram possíveis de realizar pela limitação financeira e de tempo, mas sugeriu que pode retornar para uma sequência.

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Que coisa…


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

4 Comentários

  1. Skin disse:

    Acho que se na sequência a Jay e o Paul se casarem, e a coisa for destruída, seria uma referência enorme ao cristianismo.

  2. […] Este é aquilo que pode-se chamar de um filme de terror “Carpenteriano”; estiloso, atmosférico e tenso. O filme apresenta uma manifestação maligna original, trilha sonora e fotografia de primeira qualidade e não se perde em explicações fáceis. Fora que foi o melhor filme do ano passado. Fiz até um guia para entendê-lo melhor AQUI. […]

  3. Alexander disse:

    Meu único problema com esse filme, foi quando a Jay consegue encontrar o Hugh/Jeff na casa dele, e TODOS ficam sentados em uma roda conversando sobre o ” ocorrido ” e fica nisso. O mínimo que o garoto deveria receber era um soco no meio da cara, e fora que ele ainda estava sendo procurado pela polícia (A irmã dela e os amigos viram que ela praticamente foi jogada na rua pelo cara), e deixaram isso de lado. Digo, foda-se a Jay, continue escapando da coisa e deixe aquele que te prejudicou para lá.

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