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786 – O Exorcismo de Emily Rose (2005)

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The Exorcism of Emily Rose


2005 / EUA / 122 min / Direção: Scott Derrickson / Roteiro: Paul Harris Boardman, Scott Derrickson / Produção: Paul Harris Boardman, Beau Flynn, Gary Lucchesi, Tom Rosenberg, Tripp Vinson; Andre Lamal, David McIlvain, Terry McKay, Julie Yorn (Produtores Executivos) / Elenco: Laura Linney, Tom Wilkinson, Campbell Scott, Jennifer Carpenter, Colm Feore, Joshua Close, Kenneth Wlesh


O Exorcismo de Emily Rose é o melhor filme sobre possessão demoníaca desde O Exorcista. Ele simplesmente conseguiu essa façanha, das mais difíceis do subgênero, de se aproximar do clássico dos clássicos, além trazer uma abordagem diferente, nesse caso, um drama de tribunal, sem cair nas armadilhas dos clichês e trazer uma sequência de exorcismo daquelas verdadeiramente assustadoras e impressionáveis.

Desde que William Friedkin trouxe o livro de William Peter Blaty para as telas (e rejeitou a trilha sonora de Lalo Schifrin, já leu isso aqui?), todo filme sobre o tema sempre esbarrou na mesma fórmula prosaica (e ainda é assim até hoje, mais de dez anos do lançamento do drama da pobre Emily Rose) e na panfletagem carola da igreja Católica e sua luta maniqueísta sobre as forças do mal. O Exorcismo de Emily Rose tem isso, mas conseguiu, a partir de um drama sério, adulto, baseado em fatos reais, trazer um novo olhar sobre a possessão demoníaca, atualizando os efeitos especiais e principalmente, servindo como referência para produções futuras, desde O Último Exorcismo até o recente Exorcistas do Vaticano.

Scott Derrickson, hoje um dos nomes mais quentes do horror, responsável pelo sensacional A Entidade e o decente Livrai-nos do Mal, e diretor do aguardadíssimo filme do Dr. Estranho da Marvel, acertou em cheio a mão de não fazer um longa apelativo, fugir das levitações, vómitos e cabeças rodando em 360º, mas instituindo aí alguns outros truques – depois copiados a exaustão – como a quebra de coluna, deformações faciais práticas (nada tão exagerado quando de Regan McNeil possuída pelo Pazuzu) e olhos com pálpebras negras, usar elementos sobrenaturais deveras sinistros, mas tudo isso como subtexto, pano de fundo de um típico filme de tribunal, à la John Grisham.

Outra grande força motora de O Exorcismo de Emily Rose é a atuação de Jennifer Carpenter, futuramente mais conhecida como a irmã do Dexter Morgan, no papel título. Seguido de perto igualmente por dois grandes atores e que abrilhantam ainda mais a produção, como Laura Linney como Erin Bruner, que começa o filme como uma fria e obstinada advogada, mulher forte, solteira, independente (com seu problema de bebida), mas que lá pelo final, por conta das situações que envolvem o julgamento e das forças das trevas que passam a operar em sua vida (como fazê-la acordar toda noite às 3h, a hora do Anticristo, contrário do horário da morte de Jesus), acaba se tornando fragilizada e crente; e Tom Wilkinson como o Padre Moore, acusado de homicídio culposo por negligência durante a prática do exorcismo que tirou a vida de Emily.

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Ai miga, tô quebrada!

Com diversas cenas climáticas intercaladas com o julgamento, há uma coleção de momentos de bastante impacto visual, que pode realmente meter medo nos impressionáveis, como a sequência quando ela entra na Igreja após começar a ser molestada pelas forças demoníacas; no quarto do campus da universidade quando seu namorado acorda e a encontra toda torta ao chão; as cenas em que ela já está de volta a casa dos pais e passa a arranhar a parede, se contorcer e comer insetos; e a já clássica cena do exorcismo no celeiro, com os demônios (sim, no plural) se revelando como possuidores do corpo da pobre garota interiorana católica. Falando na tal religião, a mesma mensagem carola em seu final (até que a moça seria uma santa) está lá e não dava para fugir disso.

O mais interessante da fita é que de verdade ela é baseada em fatos reais, não como muitos filmes alardeiam por aí. Emily Rose da vida real é Anneliese Michel, uma jovem alemã que sofreu de um trágico destino como sua personagem fictícia, alegando estar possuída não por um, mas uma legião de demônios (tal qual os 1,2,3,4,5 e 6 do filme) morta durante a prática do exorcismo envolvendo dois padres, que foram à julgamento junto com os pais da menina. O caso ficou conhecido nos anos 70 como “O Caso Klingenberg” e virou o livro “The Exorcismo f Anneliese Michel” escrito por Felicitas D. Goodman, antropólogo chamado para depor, expert em possessão. No final os pais foram declarados culpados por negligência e os padres pegaram a sentença de seis meses de prisão (que acabou suspensa) e três anos de condicional.

A mais significante diferença entre os dois casos (tirando a transferência para os EUA) é que enquanto Emily parou de tomar o medicamento Gambutrol, prescrito para casos de epilepsia psicótica, tecla batida pelo promotor Ethan Thomas (Campbell Scott) e esse foi um dos motivos alegados de sua morte (além dos severos traumas físicos e a incapacidade de comer, influenciada pelas forças demoníacas), o exorcismo real de Michel estendeu-se por vários meses e ela continuou tomando o remédio até sua morte.

Mas o que importa de verdade é que O Exorcismo de Emily Rose conseguiu uma façanha dificílima, que é pelo menos manter elevado o nível conquistado por O Exorcista e ser um ótimo filme. Na verdade, eu ouso dizer aqui, passados quase 11 anos de seu lançamento, que ele também, tal qual o seminal filme, dadas as devidas proporções, é um divisor de águas do subgênero, uma vez que a maioria dos filmes que vieram depois que tratam e retratam o tema, se inspiram muito mais na estética da possessa apresentada por Derrickson, do que o clássico de 73 de Friedkin, considerado datado pela nova geração.

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The power of Christ compels… não, pera…



Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Olá. Descobri seu blog no segundo semestre de 2014 e a partir daí sempre o acompanho para ter um conhecimento mais amplo da história do horror. Tenho que elogiar o bom humor de suas resenhas e o fato de você tirar do baú desde os clássicos aclamados até as bagaceiras mais trash.

    2005 está sendo um ano de ouro para o gênero até agora.
    Na minha adolescência de torture porn,eu me lembro de ter gostado um trash bacana chamado “banquete no inferno (feast)”. Vai ter uma resenha para essa pérola?

    E para finalizar: recentemente você postou que “abismo do medo” é um dos 3 melhores do horror da década passada segundo sua opinião. Quais são os outros 2? Meu palpite é que “máritres” é um deles.

    • Marcos Brolia Marcos Brolia disse:

      Poxa que legal que você está acompanhando o blog buscando conhecer mais o gênero! E obrigado pelos elogios! Acertou em cheio! Martyrs e REC são os outros dois! E ah, acho que Banquete no Inferno tá na lista sim!

      Grande abraço!

      Marcos

  2. Matheus L. CARVALHO disse:

    Sem dúvida, Marcão.
    O EXORCISMO DE EMILY ROSE é um dos melhores filmes sobre possessão demoníaca dos últimos tempos, e, também um dos melhores derivados d’O EXORCISTA – ao lado de “O Anticristo” (1974), de Alberto de Martino, e “Exorcismo” (1975), de Juan Bosch.
    Não me lembro de ter visto outro filme mais assustador sobre o assunto. E, olhe que, em meio à tantas porcarias lançadas naquele ano – e atualmente – surgiu essa grande obra do terror moderno. Claro que, às vezes, parece um filme de tribunal, mas, é de fato, um Filme de Terror sobre Possessão Demoníaca.

    Um dos melhores filmes de terror do século XXI.
    Simples assim.

    9.5 / 10.0

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