The_Witch

Review 2016: #12 – A Bruxa

A Bruxa não é um filme bom… É um filme MAL! É macabro, assustador e maravilhosamente caótico.


Durante o século XVII, algumas colônias norte-americanas passaram por um revival do que havia de pior na idade média: extremismo religioso tomando as rédeas do comportamento humano, punindo os desviados, os loucos e as mulheres, durante a chamada Revolução Puritana que se deu início na Nova Inglaterra.

A sexualidade, principalmente feminina, remetia a Satã em carne e osso ou seja lá do que eram feitos os anjos caídos. A bruxa encarnava e centralizava todos esses problemas; entregava o próprio corpo ao diabo e acabava por causar as mais diversas aflições psicológicas e espirituais no homem cristão, cidadão de bem. Apoiados pelo manual de combate a bruxaria, a obra controversa intitulada Malleus Maleficarum, os puritanos buscavam reconhecer as formas com que as bruxas se manifestavam e se relacionavam com as crias do inferno, para assim puni-las de acordo. O ápice desse período negro foi eternizado na história como os Julgamentos das Bruxas de Salem, que nos é tão conhecida.

A primeira grande representação cinematográfica desse fenômeno da caça às bruxas motivada pela intolerância religiosa foi o filme mudo Häxan – A Feitiçaria Através dos Tempos, de 1922. Depois disso, foram necessários 96 anos para que este tema e período voltassem a ser representados no cinema com todo seu potencial – com um leve gostinho dado lá em 1999 com A Bruxa de Blair – o que finalmente aconteceu por meio do filme A Bruxa, de Robert Eggers, que chega nesta quinta-feira aos cinemas brasileiros.

O longa-metragem de estreia do diretor obteve notoriedade no festival Sundance de 2015 e alcançou um feito raro para o cinema independente. O sucesso foi tão grande que rendeu ao filme uma distribuição em grande escala, que alcançou cinemas mundiais, quando normalmente estaria fadado à ser lançado em vídeo. Essa é uma conquista para o cinema de horror e para o cinema independente como um todo e motivo suficiente para demandar respeito. Mas as qualidades de A Bruxa estão longe de parar por aí.

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Blair, antiga Burkittsville… Não, pera…

Uma família de puritanos é banida de uma colônia por motivos obscuros ligados a religião. Eles então se mudam para o interior, onde tentam recomeçar a vida em um local ermo à beira de uma floresta sombria. A família é composta pelo casal William e Katherine e seus cinco filhos, Thomasin, uma adolescente já caminhando para a idade adulta, Caleb, um rapaz um pouco mais novo, mas que também já é tratado como um pequeno adulto, Mercy e Jonas, um casal de gêmeos que não parece ter mais de sete anos e o bebê Sam.

A vida no campo não oferece nenhum alento, mas a família faz o que pode para sobreviver até o dia em que o bebê Sam é raptado. A partir daí, a tensão e a paranoia se instauram e a crescente ameaça do mal batendo a porta colocará em cheque todas as relações familiares e as crenças religiosas.

Já nos primeiros minutos de projeção, a trilha sonora grandiosa e arrepiante marca presença. Composta por Mark Korven, teve como principal instrumento uma nyckelharpa, instrumento de corda popular sueco e que aqui é utilizado na criação de uma música extremamente bizarra e dissonante, um som verdadeiramente diabólico e incômodo. A trilha funciona como um anunciador do mal, estabelecendo o clima do filme logo de cara.

Se a música já começa agarrando o espectador e puxando-o para dentro do universo macabro do filme, a composição visual o faz com igual intensidade. O diretor e roteirista Roger Eggers já havia trabalhado como designer de produção, figurino e arte antes de fazer A Bruxa, por consequência, não é de se surpreender que a representação do período histórico em questão seja tão perfeita. Eggers constrói uma versão cinemática de um Estados Unidos do século XVII com atenção aos mínimos detalhes; os atores conversavam com sotaque e utilizando inglês arcaico, por exemplo. A ambientação e os figurinos rústicos são tão bem feitos que não deixam sequer um prego parecer fora de época. O realismo quase documental do filme foi fruto de uma extensa pesquisa e funciona de forma brilhante ao exibir um mundo que soa e parece convincente e que qualquer espectador poderia entender como real.

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Ah, a bruxa vem aí…

Também é notória a fotografia acinzentada, lúgubre de Jarin Blaschke, a maior parte de seu tempo utilizando a luz natural, que remete ao clima selvagem e inóspito da região que a família escolheu como morada, e que vai se tornando cada vez mais escura, conforme o filme vai chegando ao seu final e vemos a degradação daqueles colonos, durante sua batalha física, mental e espiritual contra o mal sobrenatural que os rodeia e os faz cair em tentação. A luz vai caindo conforme a esperança se esvai e o verdadeiro mal se instala.

Outro ponto que merece destaque são os atores, rostos desconhecidos do grande público, o que ajuda a tornar ainda mais crível o clima documental histórico e a forma visceral e pungente em que eles entram em seus personagens e dão o máximo. Destaque principalmente para a Thomasin de Anya Taylor-Joy, a personagem principal do longa, o jovem Harvey Scrimshaw que interpreta Caleb, muito bem em um papel complicadíssimo de nuances que vão desde a reprimenda do desejo sexual pela irmã mais velha, a necessidade da urgência em ser o “segundo em comando” e principalmente, na avassaladora cena da possessão, e o patriarca, William, interpretado por Ralph Ineson, com sua voz gutural e o sofrimento de seus questionamentos entre sua fé e sua família.

A forma com que o filme se apropria dos temas de bruxaria e satanismo não tem nada do glamour hollywoodiano. O profano volta a ser algo aterrador e ameaçador na forma da bruxa, dos animais e da própria floresta, carregada de mistério e que é quase um personagem com vontade própria. O bode preto que aparece na maioria dos comerciais, trailers e pôsteres é utilizado de forma tão brilhante pelo diretor, que suas expressões e postura são desconcertantemente humanos. A Bruxa consegue fazer até um COELHO parecer ameaçador!

Um elemento interessante dessa temática é que bruxaria é um assunto diretamente associado a religião e sexualidade. Em diferentes níveis, A Bruxa explora esses temas de forma notável, especialmente no que toca a sexualidade e a libertação sexual, frente a uma sociedade opressora. É esse tipo de subtexto que acrescenta ainda mais profundidade ao filme, tornando-o multidimensional e uma experiência que demanda atenção e investimento por parte de quem o assiste. Mas ao mesmo tempo, é perfeitamente possível aproveitar o filme pelo que ele é, um conto de terror dos mais assustadores.

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Santa ceia?

É importante ressaltar um ponto que tem gerado muita polêmica. A Bruxa não é o filme de terror tradicional que chega aos nossos cinemas. No gênero, quem domina os grandes lançamentos são os filmes mais simplórios, com um apelo mais imediatista. Os tradicionais jumpscares, aqueles sustos repentinos e que não tem qualquer função dentro da história, se tornaram parte da experiência pela capacidade de arrancar reações rápidas do público, que se sente satisfeito ali naquele momento. A Bruxa faz exatamente o contrário: cria uma atmosfera e um contexto envolventes e que puxam o espectador para dentro daquele mundo horrífico e o aprisiona lá dentro por toda sua extensão. A tensão aumenta exponencialmente sem dar qualquer tipo de alívio e é aí que reside a magia negra do filme. A Bruxa não é o filme que visa dar susto, mas sim causar medo.

Além do jumpscare, outra característica clichê de muitos filmes de terror atuais é a incapacidade do roteiro de resolver a trama sem apelar para soluções fáceis. Constantemente aparecem coisas como um professor universitário especializado em entidades da antiga Babilônia, um vizinho que tinha uma avó paranormal, um livro que revela a única forma de se livrar do mal ou até uma página na internet com relatos de sobreviventes. Em 2015, o filme Corrente do Mal brincou com isso de forma brilhante, na controversa cena da piscina, onde os personagens bolaram um plano idiota exatamente por não encontrarem nenhum tipo de solução, coisa que quase ninguém entendeu. A Bruxa não faz essa brincadeira como o filme de David Robert Mitchell fez, apenas cria uma solução adequada e perfeita para a trama, com seu tom pesadíssimo e pessimista.

Em um mundo diferente talvez não fosse necessário apontar essas características, mas A Bruxa é um grande filme pequeno que conseguiu se erguer entre os poderosos, mas que pode ser renegado pelo grande público exatamente por não se enquadrar nessas características tão comuns. O longa está longe de ser comum, e merece ser valorizado como tal.

A Bruxa não é um filme bom. É um filme MAL! É macabro, assustador e maravilhosamente caótico.

5 Black Phillips para A Bruxa.

Com participação de Marcos Brolia
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Chapeuzinho cinza


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

5 Comentários

  1. Papa Emeritus disse:

    Tô doido pra ver esse filme. Mas aqui onde moro só tá passando num cinema lá na puta que pariu.

  2. “A Bruxa é um grande filme pequeno que conseguiu se erguer entre os poderosos, mas que pode ser renegado pelo grande público exatamente por não se enquadrar nessas características tão comuns.”

    Pois é… no cinema onde assisti, em Rio Claro/SP, a maior parte da plateia fez questão de sair falando em voz alta o quanto tinham odiado o filme. Alguns chegaram a dizer que era o pior filme que já tinham visto. Décadas de adestramento hollywoodiano dão nisso, claro, mas também culpo o hype, que acabou atraindo atenção demais pro filme de uma forma que não lhe foi saudável. Não é um filme pra ver em cinema de shopping. Suponho que as mesmas pessoas que saíram xingando da sessão teriam cagado de medo se tivessem visto o filme por acaso em casa, sozinhas, numa madrugada qualquer. Já eu tive minha apreciação prejudicada por tanta má vontade ao meu redor e por uma projeção porca numa sala mal projetada onde o som do Deadpool dublado da sala ao lado vazava e quase encobria a trilha do filme. Nunca aprendo que lugar de cinéfilo não é no cinema. =/

  3. Rafael Mingoranci disse:

    Complicado esse filme, ainda estou tentando absorver ele para ser sincero.

    Fui assistir ao filme por causa da crônica no Judão, mas o azar me impossibilitou de assistir em uma sala tranquila, pelo contrário, minha sala estava tomada por grupos de adolescentes (me senti velho) que gostam de fazer piadas durante o filme e prejudicam as pessoas ao seu redor.

    Talvez o gosto final do filme para mim tenha sido agridoce por causa dessas condições. Eu gostei muito da trilha sonora (me fez lembrar muito do “O Iluminado”) e a história é realmente interessante. Os personagens são bem construídos e quem trabalhou com o elenco infantil está de parabéns, os gêmeos conseguem irritar a todo instante que estão na tela. A cena da possessão é linda para dizer o mínimo. Mas, vou deixar o mas para o próximo paragrafo.

    Mas o filme não conseguiu concluir de uma forma que me deixasse satisfeito, talvez esteja acostumado com as soluções “fáceis” de hollywood como diz o texto, mas eu não vi uma conclusão para o filme. Não teve respostas para algumas coisas que não coloco aqui para não fazer spoiler, como disse no começo o gosto ao sair da sala não foi dos melhores, me pareceu que não conseguiram fechar a história no mesmo nível de todo o filme.

  4. carlos Soares da Costa disse:

    Hora de rever o top 9 na sessão Bruxas? rsrsrs

  5. Paulo Cunha disse:

    Olha, poucas vezes se vê no cinema a presença do MAL como nesse filme. Ainda mais hoje em dia, em que a maioria dos filmes de terror se baseiam em sustos previsíveis daqui e dali. Me remeteu a filmes em q a presença do mal eh sentida, não vista, como O Iluminado, o Bebê de Rosemary, A Profecia. Brilhante direção e atuações.
    Uma recomendação: se for ver no cinema, escolha uma sessão mais vazia, e com público que vc saiba q aprecia cinema de alto nível. Esse filme eh totalmente dependente de clima e inclusive se arrisca em algumas cenas. Se o público estiver indo pra palhaçada, estraga a projeção.

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