radha-mitchell-as-rose-da-silva-in-silent

813 – Terror em Silent Hill (2006)

8e6cd28c.jpg

Silent Hill


2006 / Canadá, França, Japão / 125 min / Direção: Christophe Gans / Roteiro: Roger Avary / Produção: Don Carmody, Samuel Hadida; Victor Hadida, Andrew Mason, Akira Yamaoka (Produtores Executivos) / Elenco: Radha Mitchell, Sean Bean, Laurie Holden, Deborah Kara Unger, Kim Coates, Tanya Allen, Alice Krige, Jodelle Ferland


Se existe UM único filme baseado em um jogo de videogame que realmente ficou bom, mesmo com sua liberdade poética, é Terror em Silent Hill (se não contarmos Street Fighter com Van Damme – BRINKS!).

Ainda mais se formos levar em consideração filmes inspirados por survival horror/ games de terror, onde temos a porcaria imensurável da série Resident Evil com a Mila Jovovich como “maior exemplo”, e mais outras tralhas do nível de Doom ou House of the Dead,  Alone in the Dark e BloodRayne, todos do excelentíssimo Sr. Uwe Boll, Terror em Silent Hill é tipo Cidadão Kane.

Apesar da alteração na trama, nomes dos personagens e tudo mais, a adaptação do famoso jogo da Konami (que já é uma grande homenagem/referência a uma cacetada de filmes e obras literárias do terror e fantástico) tem como seu maior mérito o francês Christophe Gans na direção. Gans é um sujeito realmente apaixonado pelo game, e lutou durante cinco anos para conseguir os direitos da produtora de jogos eletrônicos para leva-lo as telas. Só conseguiu após enviar para a Konami um vídeo com uma entrevista descrevendo como Silent Hill era importante para ele, além de cenas que filmou, pagando do próprio bolso, com as músicas do jogo sobrepostas.

Essa paixão e esmero são vistas em todos os detalhes de Terror em Silent Hill, tanto na direção, quanto no design de produção, figurino, e preocupação estética em manter-se fiel, apesar de liberdades criativas (acertadas a meu ver, principalmente na questão de trocar um personagem masculino em busca da filha desaparecida pela Rose Da Silva de Radha Mitchell) ao tom da franquia de videojogo, sua atmosfera e suas minúcias mais importantes.

silent-hill.jpg

Olááááááá, enfermeiras!

Isso porque o fã verá, ou melhor, ouvirá em tela toda a trilha sonora utilizada (incluindo aí algumas faixas de Silent Hill 3) no jogo, além dos principais detalhes que contribuíram para seu sucesso e fazem parte do cânone, como o choque entre as duas dimensões da cidade fantasma amaldiçoada, a cinza que cai constantemente por conta de um suposto incêndio sem fim em seu subterrâneo que destruiu a cidade e matou praticamente todos seus moradores, a sirene que anuncia o choque com essa realidade paralela sobrenatural e até o celular que substitui o rádio que, por meio de estática, anuncia a aproximação das criaturas bizarras ali residentes.

Aliás, as criaturas também são outro ponto alto do filme, assim como no jogo. Claro, algumas construídas em CGI transparecem bem o aspecto de game, não poderia ser diferente, mas o impacto visual da presença do Cabeça de Pirâmide, interpretado por Roberto Campanella – que também faz outras pontas no filme – e das enfermeiras, todas interpretadas por dançarinas para dar uma impressão fidedigna na flexibilidade em seus movimentos perturbadores, é para agradar os fãs em cheio, já que são dois dos mais emblemáticos – conhecidos e reconhecíveis também – vilões dos consoles.

O roteiro de Roger Avary (o cara que escreveu Pulp Fiction), como disse lá em cima, trouxe mudanças substâncias para aquele que jogou Silent Hill no saudoso PlayStation, apesar de manter a premissa básica. Rose resolve levar a filha adotada com distúrbios mentais, Sharon (Jodelle Ferland – Cheryl, no jogo) para a cidade de Silent Hill, que a acompanha em seus pesadelos e ataques de sonambulismo, mesmo a revelia de seu marido, Christopher (Sean Bean, que MILAGROSAMENTE NÃO MORRE NO FILME), para tentar encontrar uma cura e entender o que está se passando com a menina. Ela sofre um acidente de carro fugindo da perseguição da policial Cybil Bennett (Laurie Holden) e acorda presa na cidade lúgubre e cinzenta, com a filha desaparecida.

Rose então tentará sobreviver ao verdadeiro inferno que o lugar se transformou e enfrentar suas criaturas malignas, contando com a ajuda da policial Bennett, onde ao mesmo tempo começa a descobrir o obscuro passado do local, incluindo aí uma extremista seita religiosa, e de sua filha adotada, que tem uma ligação muito próxima com Alessa Gillespie, menina idêntica a Sharon, e uma ligação com o sobrenatural e bruxaria que ela nem imagina.

Pyramid_Head_as_he_retreats_as_Cybil_shoots_his_hand..jpg

Pirâmide e as baratas

Ainda há uma trama paralela com o personagem de Bean tentando encontrar a mulher, ajudado, pero no mucho, pelo policial Thomas Gucci (Kim Coates), também enxertados na história para dar outra dinâmica ao filme e não ficar restrito apenas aos acontecimentos dentro de Silent Hill e mostrar a dinâmica de sua localização paralela ao nosso mundo real. Recurso narrativo necessário, e também, imposição do estúdio, uma vez que o primeiro rascunho do roteiro enviado não continha nenhum personagem masculino, e, bem, sabem como é…

Outro detalhe bem interessante para os fãs dos games – além de todos os já citados – é a mecânica de survival horror que ele imprime, mesmo claro, que com toda a grandiloquência do cinema e a estrutura e mídia completamente diferente, onde a heroína terá que olhar as linhas das estações de ônibus para se localizar, memorizar o caminho de um mapa enorme na cabeça (uma vez que ela não tem a opção de apertar o SELECT), explorar o local para encontrar lanternas em gavetas, decifrar alguns puzzles e usar armas de fogo e barras de ferro para se proteger. Isso eleva o nível de Terror em Silent Hill em grandeza, algo que nenhum outro filme baseado em game fez.

Terror em Silent Hill alcançou um status, pelo menos para mim, ainda inigualável, desbravando um terreno completamente fértil onde nenhum outro filme conseguiu chegar, provando que sim, dá para fazer uma adaptação incrível para o cinema de um game de terror, bem diferente, por exemplo, do desserviço que é Resident Evil. E passado 10 anos de seu lançamento, mesmo com uma sequência infinitamente inferior lançada em 2012, fica aí a esperança que outros jogos de horror, como Forbidden Siren, Dead Space, The Evil Whithin e Bloodborne, possam ganhar vida nas telonas, trazidos por pessoas tão apaixonadas como Christophe Gans, pois potencial, eles têm de sobra!

radha-mitchell-as-rose-da-silva-in-silent.jpg

Cubatão!



Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. cleverdiego disse:

    Ótima crítica! Silent Hill é mesmo fantástico, tanto o filme quanto os primeiros jogos!

  2. Vinicius Lemos disse:

    Uma otima adaptacao para um dos jogos da minha vida…pena que resident evil nao teve a mesma sorte. Mas fica a esperanca de que, um dia, resolvem fazer isso com fatal frame ou forbiden siren….

  3. Papa Emeritus disse:

    Silent Hill é uma lição de moral no que poderia ser os filmes de Resident Evil. Pra quem não sabe, o primeiro filme de Resident Evil iria ser dirigido por George Romero. Tem até o roteiro dele vazado na internet. E era bem mais fiel ao game do que aquela porcaria que o Paul Anderson fez (que de fiel não tem nada). E olha só, o filme do Romero além de ser mais fiel teria o mesmo clima de filmes como A Noite dos Mortos Vivos e Despertar dos Mortos. Com Chris, Jill, Barry e Rebbeca (além do Wesker) na mansão do primeiro game tentando sobreviver aos zumbis, mas com seus conflitos entre si (claro que isso iria se diferenciar um pouco do game, mas putz, seria 1 trilhão de vezes melhor que a porcaria que fizeram). A Sony que distribui (ou produz) os filmes de Resident Evil achou o roteiro do Romero muito parecido com os filmes de zumbi dele (como se isso fosse ruim), aí meteram o pé na bunda do cara e chamaram o Paul Anderson pra dirigir e reescrever o roteiro. Cara, dá raiva só de pensar que substituíram o Romero pelo Anderson. Resident Evil esteve por um instante nas mãos do PAI do apocalipse zumbi. Eu lembro da primeira vez que joguei Resident Evil no Playstation 1 lá em 1996. Eu sentia aquela sensação de estar jogando uma mistura de A Noite dos Mortos Vivos com Alone In The Dark. A Capcom também tem culpa no cartório, pois ela também tá faturando em cima dessas merdas que são os filmes de RE. Sem falar que ela andou vacilando nos games ultimamente (eu por exemplo me diverti em várias partes em RE6, mas depois de terminar as 4 campanhas do game ficava uma sensação de vazio). Eu aposto que até o Zack Snyder faria um filme de Resident Evil mais fiel ao game do que esses lixos que o Paul Anderson faz (vide que 300 e Watchmen, bem ou mal, foram fiéis aos quadrinhos).

    Sério, Resident Evil é o game da minha vida (ao lado de Street Fighter 2, Mortal Kombat e Streets Of Rage 2), e eu sou louco pra ver uma adaptação fiel do game no cinema.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *