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Review 2016: #15 – Baskin

Baskin é o produto de uma mistura entre Lucio Fulci com Clive Barker. Deliciosamente grotesco.


Após terminar Baskin fiquei alguns bons minutos olhando para uma página em branco pensando por onde começar a escrever esta crítica. Em meio a maquinações do meu cérebro inquieto, me lembrei de uma entrevista com Eli Roth que li há algum tempo, na qual o renomado diretor americano clamava sentir falta de filmes que o fizessem pensar que o criador era insano. Roth ainda foi mais longe e afirmou que um bom filme de terror deveria ser perturbador e chocante. Neste momento, espero que Roth já esteja a par da existência de Baskin, pois este é exatamente o tipo de filme que ele descreve.

O fato do filme ser turco, por si só já o torna um fenômeno raro e digno de atenção. Enquanto o horror hollywoodiano continua produzindo enlatados, o resto do mundo – e os próprio cinema indie americano – continua experimentando e ousando, pedindo apenas que nós, enquanto público, saibamos quando é hora de dar alguns passos para fora da nossa zona de conforto.

No filme, um grupo de policiais recebe um pedido de socorro de uma outra equipe. Ao investigarem o chamado, acabam indo parar no quinto dos infernos, literalmente. O primeiro ato apresenta personagens em um contexto aparentemente comum. Os policiais são apresentados como um grupo de machos alfa, durões e bem vividos. Neste início de filme, muitos dos diálogos e ações parecem não ter muito objetivo, mas um olhar mais apurado pode ser bem recompensador mais adiante.

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Cadê fazer selfie com cidadão de bem com a camiseta da CBF agora?

Em certo ponto da projeção, há um plano de filmagem bem interessante e representativo da jornada dos personagens: a van dos policiais passa na estrada e, em um determinado momento a imagem fica invertida em 180°, deixando a van de cabeça para baixo. Essa inversão antecede o chamado de socorro que levará o grupo para a perdição. Ao longo desta primeira parte, uma série de elementos bizarros dá indícios de algo muito errado acontecendo. Baskin utiliza de jogos psicológicos para causar uma sensação de estranhamento, antes mesmo de mostrar qualquer coisa e, acredite, ele MOSTRA bastante coisa!

Ao chegarem no local, descobrem tratar-se de uma antiga delegacia de polícia abandonada desde a época em que a Turquia era parte do Império Otomano, que deixou de existir na década de 20. De acordo com os locais, aquele era um lugar tenebroso e que as pessoas evitavam ir. Cumprindo seu dever, eles se aventuram delegacia adentro e não tardam a se deparar com visões do inferno.

Nessa altura do campeonato, o filme remete bastante a jogos de terror, na linha de The Evil Within e Silent Hill. Espalhados pelo local estão membros/criaturas pertencentes à um culto diabólico. O local em si parece uma dimensão paralela, um plano metafísico habitado tanto por forças infernais quanto seres vivos. Um dos grandes trunfos do filme é ter como protagonistas um grupo de homens adultos e machões que ainda por cima são policiais. As coisas com que eles se deparam naquele submundo são tão grotescas e perturbadoras, que eles são facilmente quebrados e reduzidos a seres frágeis e amedrontados, aumentando ainda mais a sensação de medo.

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Açougue do inferno

Se até o momento você não assistiu ao trailer do longa, recomendo que não o faça, pois mostra várias cenas que dão a impressão de que o filme em si será recheado do começo ao fim com gore e monstruosidades. Esse lado mais doentio fica concentrado na segunda metade do longa e é suficiente para deixar qualquer Eli Roth babando de satisfação, mas pode decepcionar um pouco quem tomou o trailer por referência.

O culto maligno representado é forte candidato ao título de mais bizarro do cinema. O ator que interpreta o líder do culto é uma figura aterradora; Mehmet Cerrahoglu tem feições deformadas por alguma doença genética, que facilitaram sua transformação em uma espécie de entidade medonha. Sua performance é igualmente impressionante, sem dúvidas o ponto mais alto do filme.

O lado negativo reside no desperdício de potencial. O embasamento infernal religioso por trás de Baskin, assim como todos os conceitos abordados, envolvendo paranormalidade, mundos metafísicos e criaturas grotescas são pouquíssimo explorados. O último ato e o desfecho dos personagens parecem muito apressados. Este é o tipo de filme que cria inúmeras perguntas, sem se preocupar em responder nenhuma delas, o que não é necessariamente um problema. A curiosidade que resta é exatamente por se tratar de uma proposta interessantíssima e muito diferenciada, mas que nunca se aprofunda o suficiente em seus temas. São tantos símbolos e referências que com certeza renderiam um artigo bem mais complexo para abordar toda a simbologia.

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Arraste-me para o inferno!

Os fãs de horror mais experientes vão encontrar neste filme um portal para revisitar o cenário splatter/gore italiano lá dos anos 80, com seus filmes de natureza apocalíptica e bem niilista, como se este fosse um neto estrangeiro de Lucio Fulci.

Apesar dos problemas, Baskin é fantástico, conseguindo ser visualmente atraente e repulsivo ao mesmo tempo, um filme que deve ser visto com muita atenção, mesmo quando o impulso é de virar a cara. É o produto da mente perversa de Can Evrenol, que parece ser um filho bastardo de Fulci com Clive Barker.

4.5 corpos mutilados para Baskin

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Cabra-cega!

 

 

 

 

 


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

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