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Review 2016: #18 – O Convite

Está sentado bem perto de A Bruxa, no salão dos mais extraordinários filmes de terror de 2016.


Voltando em 2015, quando finalmente assisti o tão comentado Corrente do Mal, acreditei piamente que não encontraria outro filme de terror de tão altíssimo nível tão cedo. Então, menos de um ano inteiro depois, tivemos o prazer de receber Black Phillip em nossas vidas, no filme A Bruxa. A reação inicial que me tomou foi de duvidar, outra vez, que filmes tão fantásticos poderiam surgir em tão pouco tempo. Resolvi controlar esse impulso e continuar aberto e otimista e o resultado não poderia ser melhor. A Bruxa foi rapidamente seguida pelo infernal Baskin e este por sua vez já passou o bastão para o ainda melhor O Convite.

Você provavelmente já ouviu falar da diretora por trás deste filme, Karyn Kusama. Se bem que o nome não é tão familiar, né? E se eu disser que ela dirigiu o razoável Garota Infernal, aquele com a Megan Fox? Pois bem, até assistir este novo trabalho dela, eu – ou qualquer um – dificilmente acreditaria que aquela diretora tinha um filme tão bom na manga.

Em O Convite, um homem chamado Will vai a um jantar na casa da ex-esposa, dois anos após terem perdido um filho tragicamente. Ao longo desta simples reunião de amigos, Will começa a ficar preocupado com o comportamento da ex e do noivo, dando espaço para a paranoia se instaurar. Essa premissa pode parecer vaga e é realmente melhor que seja assim. Este é o tipo de filme que se beneficia da falta de conhecimento do espectador, por isso evitarei aqui quaisquer comentários que possam ser específicos demais.

Este é um longa de desenvolvimento de personagens e diálogos marcantes. Passando quase que inteiramente dentro de uma casa durante uma reunião de amigos, o foco recai completamente sobre os atores e sobre suas falas.  O protagonista é interpretado por Logan Marshall-Green (Prometheus), que com sua barba farta e cabeleira se parece ainda mais com um jovem Tom Hardy.

Adivinhe quem veio para o jantar?

Adivinhe quem veio para o jantar?

Todo o elenco é notável, mas Logan se destaca com louvor, não apenas neste filme ou no gênero, mas no cinema como um todo. Sua performance inspirada é uma das mais marcantes e poderosas do ano. Seu personagem é um homem que varia entre cinismo puro até agressividade, paranoia e muita, mas muita tristeza. Vale também destacar a performance de John Carroll Lynch. O homem tem uma vocação nata para fazer personagens misteriosos e surpreendentes.

É muito comum que filmes com uma única locação caiam no tédio ou no absurdo depois de algum tempo, caso não exista um manejo adequado da direção. Kusama surpreende pela maestria com que conduz a trama, evitando que até os diálogos e situações mais banais se tornem monótonos. Há sempre algo interessante prestes a ser dito ou feito por alguém e, em momentos mais relevantes para o desenrolar da trama, essas revelações conseguem manipular a expectativa do público. O senso de paranoia dos personagens é transmitido ao espectador pela construção lenta, porém cirúrgica, da tensão. A trilha sonora colabora ainda mais, acrescentando um tom de perigo iminente, quase apocalíptico, mas em escala reduzida.

O Convite é o tipo de filme que levanta discussões de gênero. Enquanto a maior parte do longa se mostra um thriller, a resolução abraça o lado horror que estes filmes costumam oferecer, tornando-o algo próximo ao horror-thriller. Curiosamente, o final do jantar é a parte mais fraca do filme – ou melhor, menos fantástica – talvez por ter sido demasiadamente convencional e pouco surpreendente. Em certa medida, o filme cumpre exatamente aquilo que se propõe, mas em comparação com os momentos de diálogos afiados e de temas delicados, é um final não tão extraordinário. Em compensação, o encerramento do filme, um único plano que antecede os créditos, compensa a “normalidade” do terceiro ato com uma reviravolta tão impressionante que deixa qualquer um com o queixo no chão.

Sem dúvidas um dos filmes que integrarão o TOPE NOVE dos filmes de terror de 2016. E que o destino me prove errado lançando filmes ainda mais fantásticos!

 

4.5 taças de vinho para O Convite

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Só observo…


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

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