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Um imbróglio dos infernos!

Por que a Warner resolveu, em Invocação do Mal 2, levar aos cinemas um caso em que os Warren não participaram efetivamente?


O caso conhecido como Poltergeist de Enfield é um das mais famosas, importantes e documentadas ocorrências de atividade sobrenatural de todos os tempos, que de 1977 a 1979, recaiu sobre a família Hodgson, moradora de Brimsdown, Enfield, na Inglaterra, vítima de acontecimentos paranormais envolvendo duas irmãs, Janet e Margareth, respectivamente de 11 e 14 anos, com direito a objetos se movendo sozinho, camas tremendo, levitação e a possível possessão por alguma entidade sobrenatural.

Essa é a história que chegou aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira como um novo causo da dupla de investigadores paranormais Ed e Lorraine Warren em Invocação do Mal 2, dirigido por James Wan, que já carrega toda a pinta de ser o blockbuster de terror do ano, repetindo o sucesso do primeiro filme de 2013.

É de conhecimento público que, apesar do alardeado “baseado em fatos reais”, o longa é uma livre adaptação com uma liberdade poética imensa e até sorrateira, uma vez que Ed e Lorraine tiveram um contato mínimo com o caso e nenhuma importância durante as investigações dos fenômenos paranormais sofridos pelos Hodgson.

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Sai desse corpo que não te pertence!

Quando a imprensa britânica se interessou pela casa mal-assombrada de Enfield e passou a publicar os estranhos acontecimentos em seus tabloides, o investigador paranormal Maurice Grosse (no longa interpretado por Simon McBurney), membro da Sociedade de Pesquisa Psíquica, assumiu o caso, ao lado do parapsicólogo Guy Lyon Playfair (escritor do livro “This House is Haunted”), e ambos passaram anos documentando e estudando-o, inclusive sendo os responsáveis por descobrir que a jovem Janet estava sob controle do espírito de Bill Wilkins, um nefasto velho antigo morador da residência.

Fato é que segundo o próprio Playfair em entrevistas, os Warren sequer foram convidados para dar seu parecer no caso, chegando lá por conta própria, hospedando-se apenas uma noite da residência dos Hodgson, e aproveitando a oportunidade para tentar fazer dinheiro com isso. Não há registro da participação de ambos, exceto por uma passagem descrita no livro Ed & Lorraine Warren – Demonologistas de 1980, de Gerald Britten, uma espécie de biografia do casal lançado no BR pela Editora DarkSide Books.

Então por que raios Wan resolveu levar justamente essa história para os cinemas, como sequência de um dos maiores sucessos do cinema de terror da atualidade, sendo que há mais de OITO MIL casos documentados pelos “caça-fantasmas de verdade”?

Playfair e Grosse: Os "Warren" britânicos

Playfair e Grosse: Os “Warren” britânicos

Porque a Warner Bros. NÃO possui os direitos de seus casos reais, como fora relatado pelo THR, que pertencem a Tony DeRosa-Grund, da Evergreen Media Group, sujeito responsável por mover uma ação judicial tentando impedir que qualquer sequência fosse realizada.

Para entender o imbróglio, segundo os acordos feitos com a Evergreen, a Warner possui somente direito a 25 casos dos Warren (o que seria equivalente a apenas 1% deles), incluindo aí a casa da fazenda dos Perron de Invocação do Mal. Caso contrário, para levar novas histórias ao cinemas, deveria se desembolsar uma grana para cada uma delas, ou então, claro, colocar o Sr. DeRosa-Grund como produtor. Além disso, a Evergreen vendeu esses direitos para a Lionsgate produzir uma série de televisão, que está devidamente parada no sinal vermelho por conta dessa pendenga jurídica.

Qual foi a saíddaily_mirror_enfielda então dos engravatados do estúdio da Caixa D’água? Alegar que tanto o caso de Annabelle, o spin off da boneca do Capiroto, quanto do Poltergeist de Enfield, são vagamente baseados em passagens do livro “O Demonologista”, que possui direitos de publicação limitados, o qual a Warner tem um acordo de colaboração com o escritor Gerald Britten para sua adaptação, enquanto DeRosa-Grund mantém autoridade sobre os direitos dos tais “arquivos de casos reais de Ed e Lorraine Warren”.

Com o lançamento de Annabelle e Invocação do Mal 2, veio um segundo processo, uma vez que de acordo com a Evergreen, Brittle havia lhes garantido de forma prévia uma opção de adquirir os direitos futuros para explorar “O Demonologista”. Só que nesse balaio de gato, Tony Spera, genro dos Warren, “tomou posse” desses direitos e vendeu para a editora Graymalkin, fazendo com que o processo respingasse até na família, acusados de não honrar os contratos do livro. ALTAS TRETAS!

Segundo os advogados do demandantes, existe a possibilidade muito real dos réus perderem todos os direitos que tenham conexão com a franquia Invocação do Mal. Mas é bem provável que um acordo bom para todo mundo acabe se costurando no final das contas.

Enquanto isso, para a Warner, Inês é morta e ela segue assustando um monte de gente por aí, levando os causos baseados em fatos reais dos Warren, mesmo que pero no mucho, para as telas e enchendo os bolsos com as gordas bilheterias dos filmes, o que inclusive, deve acontecer novamente, sem a menor sombra de dúvida, com Invocação do Mal 2.

Originalmente publicado no Judão
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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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