♪  Em fevereiro, tem o capeta (tem o capeta) ♫

Review 2016: #25 – The Blackcoat’s Daughter

Minimalista, atmosférico, psicológico e creepy as hell, é mais um exemplo da nova e efervescente safra do cinema indie de terror americano


Já faz um tempo que eu venho aqui no 101HM batendo na tecla sobre o frescor e a qualidade da nova e efervescente cena indie de terror americano. O gênero, desde o expressionismo alemão, passa por momentos cíclicos e é construído por tendências, essas responsáveis por ditar regras, quebrar paradigmas e estabelecer uma nova linguagem.

Atualmente os EUA está na crista da onda do que mais quente vem sendo feito no cinema de horror, graça ao surgimento de uma nova geração de cineastas independentes – que despontou no final da década passada com o movimento mumblegore – onde, influenciados pelas produções dos anos 70 e 80 cresceram assistindo Carpenter, Argento, Fulci, Craven, Hooper e cia limitada, chegaram a cadeira de diretor e hoje imprimem uma nova forma de contar histórias assustadoras, mesmo que com temas recauchutados, optando por uma estética minimalista (incluindo aí sua trilha sonora) na construção de sua atmosfera, pegada retrô e preferindo o horror psicológico, que vai diretamente em contraponto aos enlatados hollywoodianos cheios de fórmulas, clichês e efeitos especiais, tipo James Wan e esse Invocação do Mal 2, só para ilustrar.

The Blackcoat’s Daughter é mais um dos excelentes exemplos desse movimento, que já cravo com toda certeza como um dos melhores filmes de terror do ano. Dirigido e escrito pelo debutante Oz Perkins, exibido pela primeira vez no TIFF ano passado, ainda sob o nome de February, logo ele já caiu nas graças da crítica especializada, e teve seus direitos de distribuição comprados pela ascendente A24 Films, a mesma de A Bruxa, Sob a Pele, O Quarto de Jack, e o esperado The Green Room, para você ter uma ideia.

February-movie

Sangue na neve!

Um exercício de terror satânico, creepy as hell, The Blackcoat’s Daugther é poderosamente ancorado na sua artsy construção tétrica absurdamente arrastada (quase nada, além da concepção de atmosfera e personagens, acontece na primeira hora do longa, esteja avisado!), mas que imprime a todo momento ao espectador uma claustrofóbica sensação de estranheza, desconforto e mal iminente que se desenvolve em um processo de slow burning, pontuado pela força das atuações do trio Emma Roberts, Kiernan Shipka e Lucy Boynton, somada a excelente fotografia de Julie Kirkwood e trilha sonora.

O longa alterna-se entre linhas narrativas que acompanham três adolescentes: Kat (Shipka) e Rose (Boynton), duas meninas completamente diferentes e cada qual com seu drama pessoal, que ficam confinadas durante o recesso escolar de inverno em fevereiro (o longa se passa no melhor dia do ano, 22/02, cof, cof) no internato para garotas em que estudam, junto de duas freiras, enquanto esperam a chegada atrasada de seus respectivos parentes para busca-las; e Joan (Roberts) uma jovem enigmática que parece traumatizada por algum acontecimento passado e está em busca de uma carona para Port Smith, onde fica localizada a mesma escola preparatória.

Dentro dos portões de Bramford, as garotas isoladas passam a experimentar uma crescente ocorrência de acontecimentos estranhos a conta-gotas na primeira metade, dentro dos longos corredores e quartos escuros, cercado pela vastidão desoladora da neve que cai do lado de fora, enquanto Kat começa a ser acometida por visões intensas e horríveis de forma progressiva, que vai piorando seu comportamento sui generis, enquanto Rose tenta ajudá-la, após um entrevero inicial entre ambas, sem fazer a menor ideia que está cada vez mais à mercê de uma invisível força maligna.

Enquanto isso, a taciturna Joan, determinada a chegar o mais rápido possível em Bramford, consegue carona com um casal, Bill (James Remar) e Linda (Lauren Holly), em viagem para visitar o túmulo de sua filha, brutalmente assassinada há nove anos. Bill vê imensa semelhança física entre as duas garotas e acredita que é seu destino ajuda-la.

Dica para esse frio!

Dica para esse frio!

Somente na segunda metade, enquanto o filme se aproxima de seu terceiro ato devastador, que as tramas finalmente se cruzam, após uma quase insuportável manutenção de suspense, preparando o palco para um clímax chocante, após dar algumas pequenas e preciosas pistas sobre as personagens durante sua narrativa não linear.

The Blackcoat’s Daughter não traz a história mais inédita do mundo, e até poderia ter evitado alguns clichês previstos do subgênero, mesmo que aqui encarado apenas como complemento à trama e não seu verdadeiro gimmick, mas é na forma sinistra como ela é construída dentro de seu minimalismo macabro para chegar a uma explosão chocante e visceral, que reside sua genialidade, fazendo com que Perkins entregue uma obra simplista que foge dos padrões, sem gastar tempo dando explicações desnecessárias, procurando saídas fáceis, se apegar a fórmulas e sem utilizar o recurso de jumpscare UMA ÚNICA VEZ durante toda a projeção, calcando-se somente no terror psicológico satânico da velha escola.

Três dos melhores filmes de terror dos últimos dois anos, A Bruxa, Corrente do Mal e The Blackcoat’s Daughter, tem em comum o fato de serem estreias de diretores independentes novatos, Robert Eggers, David Robert Mitchell e Oz Perkins respectivamente, todos oriundos dessa mesma cena que escrevi no começo, esbanjando técnica e personalidade, imprimindo um novo estilo e mandando às favas o cinemão de terror mainstream dos grandes estúdios.

Estamos testemunhando o futuro do horror moderno sendo feito, pelo menos até o próximo ciclo se iniciar.

4,5 capetas chifrudos para The Blackcoat’s Daughter

♪ Em fevereiro, tem o capeta (tem o capeta) ♫

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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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