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Bibliofobia: #10 – A Vida de H.P. Lovecraft

Por dentro dos tentáculos de H.P. Lovecraft em biografia escrita por J.T. Joshi


Ao se digitar o nome “Lovecraft” no Google são localizados cerca de 10.200.000 resultados. Quando escrevemos “Influências de Lovecraft” no mesmo buscador, quase 70.000 repostas são computadas. O consagrado autor Stephen King, ganhador do Troféu Golden no Hall da Fama, uma vez afirmou que quase toda a ficção de horror significativa paira na sombra de Lovecraft. Robert E. Howard, criador do lendário Conan, e Robert Bloch, escritor do livro “Psicose”, também admiravam e mantinham contato com o autor. Neil Gaiman, Alan Moore, Gillermo Del Toro, Caitlin R. Kiernan, John Carpenter, Thomas Ligotti, David Wong… A lista de apreciadores confessos do Rei do Indizível é prodigiosamente extensa.

Mas, afinal, quem foi esse ser que parece ter tocado, com suas entidades tentaculares, quase todos os grandes autores, diretores e artistas do terror, ficção e fantástico do nosso século? Quem diabos foi Howard Philip Lovecraft e como encontrar fontes confiáveis de informação em meio a tantos dados jogados na internet?

Em 2014, a Editora Hedra parece ter percebido a ausência de respostas para essas questões e trouxe para o Brasil a biografia A Vida de H.P. Lovecraft, escrito pelo maior especialista do autor no mundo, J.T. Joshi.

Somos convidados a mergulhar na monocromática história de Howard, passando pela genealogia de sua família e indo até as profundezas de seus conturbados relacionamentos pessoais e ideias controversas. Acompanhamos a difícil infância de Lovecraft em Providence, na Nova Inglaterra, onde ele perde seu pai, que falece internado em um hospital psiquiátrico após contrair sífilis, fica fascinado pela imensa biblioteca de seu avô, vive sob a superproteção de sua mãe, lida com uma saúde frágil e colapsos nervosos, perde as esperanças de alcançar níveis mais altos de estudo em uma universidade e como tudo isso parece ter sido fundamental para o seu amplo desenvolvimento artístico.

É interessante vermos que as inúmeras lendas que surgiram ao redor do escritor, como as que falavam sobre um possível comportamento homossexual retraído ou aquelas que achavam que ele era uma pessoa extremamente antissocial, são jogadas por terra através da exposição de trechos e mais trechos de cartas escritas tanto por Lovecraft (calcula-se mais de centenas de milhares) como por seus muitos amigos, uma vez que ele mantinha correspondência com um amplo círculo de pessoas.

a-vida-de-h-p-lovecraftA assexulidade do autor e a difícil relação entre ele e sua esposa em um casamento frustrado também são expostas de modo direto e sem mistificações. Um dos pontos altos do livro é o fato dele trazer todas as possíveis influências que o autor teve durante sua vida. Desde seu pensamento estético literário até suas perspectivas pessoais filosóficas. Na obra, também são abordadas suas contribuições para o gênero que modernizaria e propiciaria o fortalecimento do jornalismo amador e das publicações fantásticas independentes, como a seminal Weird Tales Magazine.

Porém, em alguns momentos, a leitura tornar-se maçante devido ao grande número de descrições dos locais por onde Lovecraft morou e andou (e não foram poucos). Importante lembrar que o biografo é um acadêmico, o que justifica esses detalhes pormenorizados. Para o leitor desavisado, a primeira metade do livro é um tanto letárgica, mas melhora depois que adentramos de vez no sombrio mundo tentacular que Lovecraft criou, como os chamados mitos de Cthulhu. Também impossível não falar da comida de bola da publicação com a ausência dos nomes em português dos contos do escritor.

Lovecraft foi, como afirma Joshi, o maior autor americano do século XX. Mas, infelizmente, também foi fruto de seu tempo. Com pensamentos éticos e raciais retrógrados e uma evidente xenofobia, é estranho imaginar que ele é o responsável por histórias que confrontam diretamente noções extremamente dogmáticas para a época em que foram escritas.

Ideias como a existência de Deus ou a superioridade humana diante do restante do universo são constantemente atacadas nos contos do autor. Talvez, devêssemos deixar de ver grandes escritores e escritoras como deuses de algum tipo e passarmos a enxerga-los como o que eles realmente são: humanos repletos de contradições. Apesar de tudo, ele lutou bravamente pela manutenção e pela disseminação da arte literária pura, onde ela não fosse movida pelos desejos do capital, e até por isso, teve uma vida financeira dificílima e provinciana, morrendo na pobreza e no anonimato, tendo um reconhecimento tardio vindo por meio da legião de amigos e fãs que mantiveram seu nome vivo.

Lovecraft é, e provavelmente e sempre será, o maior escritor de literatura fantástica que já existiu, além de ser o responsável pela criação do horror literário moderno. Para todos aqueles que compartilham esse pensamento (e imagino que não são poucos) essa biografia do autor é leitura imprescindível. Caso haja ainda maior interesse em conhecer a sua vida, recomendo também o excelente documentário Lovecraft: Medo do Desconhecido, lançado no Brasil em DVD pela Versátil Home Vídeo.

 


Tauami de Paula
Tauami de Paula
Estudante de Letras e de Filosofia, esse apreciador do absurdo e do inexplicável sempre encontrou mais sentido na arte do que na vida. Sendo raramente visto fora de casa, passa os dias lendo, escrevendo e criando teorias sobre tudo aquilo que não entende.

0 Comentários

  1. Brï Jordão disse:

    Agora falta um The Visions of Lovecraft.

  2. Papa Emeritus disse:

    O que eu mais admiro no trabalho do Lovecraft não são nem as criaturas “inimagináveis” que ele criou, e sim a capacidade fascinante que ele tinha de mostrar o quão insignificante é a existência humana perante ao universo.

    • Tauami de Paula tauami disse:

      De fato! Essa, aos meus olhos, é definitivamente a razão que faz com que esse autor tenha tanta repercussão na atualidade.

      Com os avanços da ciência na exploração do macro e do micro cosmo e com as perspectivas filosóficas do século XXI nos mostrando a total ausência de um sentido da vida preestabelecido, a insignificância humana toma proporções que jamais antes foram devidamente ressaltadas na literatura.

      A genialidade de Lovecraft estabelecesse nos seus escritos não só por ter trazido isso à tona, mas também embutir nos seus textos as consequências psicológicas dessas percepções na raça humana.

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