Definhe... ah, não, isso é outra maldição cigana

858 – Arraste-me Para o Inferno (2009)

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Drag me to Hell


2009 / EUA / 99 min / Direção: Sam Raimi / Roteiro: Sam Raimi, Ivan Raimi / Produção: Grant Curtis, Robert Tapert; Ivan Raimi, Cristen Carr Strubble (Coprodutores); Joseph Drake, Nathan Kahane (Produtores Executivos) / Elenco: Alison Lohman, Justin Long, Lorna Raver, Dileep Rao, David Paymer, Adriana Barraza


Arraste-me Para o Inferno é nada menos que um verdadeiro deleite para aqueles que, depois da trilogia Homem-Aranha, queriam ver Sam Raimi de volta ao gênero que o lançou na carreira e o qual foi responsável por um de seus maiores clássicos, A Morte do Demônio, e mais ainda, em excelente forma, mostrando que não perdeu o jeito com o passar dos tempos.

O roteiro, de Raimi e seu irmão, Ivan, foi escrito pouco depois do diretor ter finalizado Uma Noite Alucinante 3, porém, foi ficando para trás em detrimento de outros projetos, chegando às telas por sua produtora ao lado de Robert Tapert, a Ghost House Pictures, somente 17 anos depois. Por isso, é muito óbvia a influência Evil Dead em todo o tom do longa, seus design, grafismos, mistura na medida certa de terror com comédia pastelão – subgênero que Saimi foi o grande responsável por criar, principalmente ao lado de Bruce Campbell, devido as influências do horror e dos Três Patetas em suas vidas – e situações nojentas e escatológicas.

Raimi trouxe para Arraste-me Para o Inferno uma clássica história de terror de maldição cigana, perseguição demoníaca, construção de clima de suspense e tensão, mesmo que com o carimbo grande produção hollywoodiana PG-13 – o que reflete no alto orçamento e abuso de efeitos especiais, assim como o uso de recursos tão saturados hoje, como o jumpscare – onde pode abusar de todas as suas influências – sem sombra de dúvida o clássico A Noite do Demônio de Jacques Tourneur sendo a principal delas, principalmente por conta da (ótima) cena final na estação – e suas marcas registradas (até o Oldsmobile Delta 88 está lá) inclusive as mais surtadas, que garantem o entretenimento certo e infalível.

Espíritos zombeteiros

Espíritos zombeteiros

A Christine Brown de Alison Lohman trabalha em um banco oferecendo empréstimos e sonha com uma promoção, quando uma velha cigana húngara, a Sra. Ganush (Lorna Raver) tenta lhe pedir uma extensão da hipoteca de sua casa, que seria a terceira, caso contrário irá perder seu lar dos últimos trinta anos. Pressionada pela tentativa de conseguir o cargo e tendo um concorrente ao posto, o sem escrúpulos Stu (Reggie Lee), ela nega o empréstimo para mostrar firmeza ao seu chefe e a Sra. Ganush irá lhe rogar uma maldição, colocada em um objeto pessoal (no caso o botão de um casaco) oferecendo sua alma para uma entidade demoníaca caprina conhecida como Lâmia, que em três dias, irá literalmente lhe arrastar para o inferno.

Não preciso dizer que Christine comerá o pão que o diabo amassou nesses três dias, passando por todo tipo de provação em que Raimi brincará com todo o aparato do terror clássico, passando por sessões espíritas para tentar acabar com a maldição, sacrifício animal, um ser demoníaco com pés em formato de casco e longos chifres à espreita, que nunca nos é mostrado em sua totalidade (vingando a briga de Tourneur com o produtor de A Noite do Demônio), cemitérios, cadáveres, moscas, insetos nojentos, sangue, vômitos e aparições.

Mas sem dúvida, tirando o divertidíssimo expediente em assistir Arraste-me Para o Inferno e literalmente se regozijar com o que Raimi habilmente oferece (e ele sabe que está fazendo isso), a grande questão principal do longa, tirando a velha máxima da causa e consequência, ganância e a situação econômica americana pós-bolha imobiliária de 2008, é a única forma com que Christine efetivamente conseguiria se livrar da maldição no final das contas: dando de presente o botão para outra pessoa, e com isso, fazer com que a Lâmia vá atrás dessa outra alma. Inclusive isso irá delimitar a forma com que Raimi brinca com um final feliz maniqueísta até seu último minuto, com um plot twist delicioso reservado!

Ash da vez

Ash da vez

Uma questão a se pensar com muito zelo, é se você teria a capacidade de acometer outra pessoa aos terrores que passou e condená-la ao inferno para se safar. Lembro claramente que quando fui ao cinema assistir Arraste-me Para o Inferno lá em 2009, havia de fato uma pessoa que eu odiava do fundo do meu coração nessa vida: minha chefe, que era um ser humano dos mais desprezíveis, não tardava em humilhar pessoas publicamente, de um comportamento arrogante, escroto e mesquinho, que conseguiu transformar meu trabalho dos sonhos e um pesadelo de assédio moral constante. Naqueles tempos, sem pestanejar eu teria dado o botão para ela e literalmente a mandaria par ao diabo que a carregasse!

Hoje, ponderando, diferente daquele rapaz de 27 anos, eu não seria capaz de entregar o botão amaldiçoado para ninguém, pelo menos conhecido, apesar de às vezes morrer de vontade em várias situações. Mas que há sim uma lista infindável de pessoas escrotas e reacionárias que mereciam que a Lâmia viesse puxar o pé à noite, a isso com certeza!

Mas fato é que Arraste-me Para o Inferno é cinemão de terror pipoca dos mais bem feitos e autênticos (viu, James Wan?), só faltando mesmo o cameo de Bruce Campbell (que não estava disponível por motivos de agenda) que não tem vergonha em explorar velhas fórmulas e fazê-las com competência, brincando com nosso imaginário e saudosismo, divertindo e até assustando um ou outro, por que não, do jeito certo, provando que Raimi realmente é um mestre, e que deveria voltar mais vezes para o gênero, pois nós, fãs, sempre estaremos ali ávidos lhe esperando.

Definhe... ah, não, isso é outra maldição cigana

Definhe… ah, não, isso é outra maldição cigana


 

 


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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