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Fim de semana de Terrorfest em São Paulo

Passamos o último sábado (18) imersos no evento alocado dentro do FestComix e contamos tudo de bom (e de ruim) que rolou por lá


No último fim de semana, de 17 a 19 de junho, aconteceu aqui em São Paulo a primeira edição da Terrorfest, alocado dentro do já tradicional FestComix, maior feira de quadrinhos do país, realizado no Expo SP. A ideia era emular um pouco do que acontece na gringa, onde são realizadas convenções de terror, muitas delas também inseridas dentro do contexto da cultura pop/geek (que é onde o terror realmente pertence) junto de outras manifestações artísticas, e também reviver o antigo espírito da Horrorcon, que acontecia nos anos 90.

Dentro da programação, houve exibição de curtas metragens, bate-papo com diretores, escritores, quadrinistas, roteiristas, especialistas em maquiagens, presença de subcelebridades do gênero no Brasil, tipo Toninho do Diabo, e no que tange o universo das HQs, estandes com lançamentos e novidades de horror de nona arte.

O 101HM passou o dia na Terrorfest no último sábado, e vamos contar um pouco sobre as nossas impressões, pontos positivos e negativos (infelizmente foram muitos) e o que esperamos para as próximas edições, já que o evento foi confirmado para acontecer novamente em 2017.

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Puxadinho! Crédito: Facebook – Terrorfest

Marcos Brolia:

O grande problema do Terrorfest foi sua estrutura, afinal era apenas uma pequena sala, quase um puxadinho, alocado dentro do evento. Era impossível não ficar tomado pela sensação do amadorismo completo, apesar da louvável iniciativa de Daniel Vardi, idealizador do projeto, e, claro, dos descontos dados por ser a primeira edição.

A exibição dos curtas foi prejudicada por motivos técnicos, onde uma projeção de má qualidade, direto na parede, e o som mal equalizado, interferiu completamente na experiência, principalmente do aguardado curta Pray, dirigido por Claudio Ellovitch, coprodução Brasil-Hong Kong, cujas legendas era impossível de ler caso você fosse míope e conseguir entender o solilóquio do protagonista saindo daquelas caixas de som abafadas. O curta Estrela Radiante sequer chegou a ser exibido também por problemas técnicos, interrompido dois minutos depois de seu início.

Durante a parte da tarde, os bate-papos ficaram prejudicados por conta do concurso de Cospobre Cosplay realizado do lado de fora, no pavilhão em frente a sala, e não ajudou nada a péssima acústica do puxadinho, com apenas um pano em sua entrada para vedar a entrada de som. Uma pena, pois a mesa com os diretores Rodrigo Aragão, Mario Mancuso, Beto Ribeiro, Fabiana Servilha e Claudio Ellovitch, realmente foi bastante interessante, e a mesa anterior, Editores Satânicos, sobre o mercado nacional de HQs de horror, estava completamente vazia, chegando a registrar quatro pessoas durante o bate-papo, enquanto do lado de fora um microfone gritava ao chamar os fantasiados para o julgamento que faziam sua festa particular.

Mas sem dúvida nenhuma, o que mais me incomodou foi a presença de Toninho do Diabo, arrastando os transeuntes para dentro a sala como se fosse um vendedor em frente a Rua Santa Ifigênia, e o mesmo fazendo suas brincadeirinhas e piadas sem graça durante os bate-papos, mantendo a pecha que o gênero tem em pleno 2016 de se ridicularizar e querer se manter caricato, mambembe e trash, indo na contramão de tudo que o 101HM acredita e combate, querendo tratar o terror como cultura pop e menos como estereótipo ou marginalizado.

O ponto alto, individualmente falando, foi o prazeroso bate-papo que tive com Rodrigo Aragão, o nosso Tom Savini e o principal diretor nacional de terror da atualidade, sobre a pré-produção de Mata Negra, as dificuldades em se fazer cinema de terror independente no Brasil, a burocracia dos editais e o período negro do corte de verba para cultura e cinema por conta da situação política do país, Zé do Caixão e a polêmica série do Space (que ele gostou muito, para quem interessar possa) e novidades em off, mas quem ficar ligado por aqui, saberá quando pudermos divulgar.

O Terrorfest tem MUITO a melhorar, precisa repensar em seu conceito, espaço, alocação e principalmente estrutura, pois público a gente sabe que tem para prestigiar. Mas o principal é sair do amadorismo, não se contentar com isso. Ao mesmo tempo merece também os parabéns pela iniciativa e coragem e por ajudar a fortalecer o gênero no Brasil já que tão pouco é feito nesse sentido.

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Dirigindo a palavra. Crédito: Facebook – Terrorfest

Marcelo Mattina:

O evento em si foi muito pequeno. O Terrorfest ficou encapsulado dentro de uma única micro sala onde aconteciam as exibições de curtas e conversas, e tal fator impossibilitava uma real imersão, pois, esse era apenas um apêndice de um evento maior.

A sala era mal equipada, com um caixas de som defeituosas e microfones com mal contato e/ou sem bateria. Mal iluminada para passar os curtas que refletiam em uma parede branca de gesso normal, sem tela, sem preparo. Talvez tudo isso se dê pelo baixo orçamento investido no evento e a esperança é que o mesmo cresça para que consigam uma maior verba na empreitada. Sendo essa apenas a primeira edição, fica compreensível a falta de capital para com a infraestrutura.

Em relação aos quadrinhos, poucos mostrados na FestComix eram de autoria nacional e menos ainda de terror, com exceção de nomes como a editora Mino, Venetta ou Draco, quase não se viam HQs para o público que a consome, algo de extrema estranheza em um evento nacional “especializado” em graphic novels.

As duas conversas que presenciei foram bem diferentes entre si em conteúdo, mas igualmente ralas. A primeira sendo “Minas que tocam o terror” trouxe importantes personalidades do mundo geek e de cinema de gênero, mas que não tinham opinião ou conhecimento para discussão do papel da mulher no terror, com apenas um rápido prólogo sobre as dificuldades de ser mulher no mercado e na vida social. Quando se levanta o assunto do terror, nada mais foi dito em relação à isso, seguido de uma sucessão de clichês e inverdades rasas e frouxas que desvirtuam aqueles que querem se informar sobre o assunto.

A segunda mesa foi com os diretores dos curtas passados ao longo do evento, entre eles Rodrigo Aragão, Toninho do Diabo e Claudio Ellovich, figuras contemporâneas da cena audiovisual do terror que a salvar por alguns comentários e anedotas não tiveram muito o quê expressar para o público ávido por informação. Talvez pela forma informal que foram conduzidas as mesas, sem muito pensar quanto a criação de pautas para serem discutidas por parte do mediador. Aragão rouba a cena com seu charme e simpatia, mas as falas do diretores perante um mar de (mais uma vez) clichês de mercado perdem o fôlego e morre na praia.

O Terrorfest tem espaço para crescer e deve. A iniciativa é honrada e o criador Daniel Vardi está de parabéns pela tentativa, mas é necessário reformular e ir atrás de investimento caso o evento queira ser levado a sério por aqueles que o frequentam e não só visto como mais uma tentativa de buscar respiro para um grupo de fãs completamente órfãos de eventos de grande porte sobre o assunto.

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Ache o pessoal do 101HM e ganhe um picolé de limão. Crédito: Facebook – Terrorfest

Taumai de Paula:

Achei muito insignificante o espaço dado aos escritores e artistas do gênero. Não houve um estande próprio para autores de modo que fosse possível distinguir onde encontrar os livros e onde deveríamos buscar por HQs específicas na bagunça dos estandes pelos corredores. Ainda falando de quadrinhos, nos estandes das editoras, eles estavam expostos de modo completamente aleatório. O que é até perdoável, mas acho que deveriam ter feito uma prateleira/ mesa/ whatever específica com os quadrinhos de terror nos espaços de cada editora (não é pedir muito, né?).

Com relação a exibição dos filmes, não acho que posso me pronunciar de modo significativo. Minhas observações, provavelmente são iguais as dos companheiros. Achei a qualidade da exibição bem ruim, como se tivesse sido feita de improviso.

Agora, refletindo sobre o evento como um todo, fica difícil buscar algum aspecto positivo para o que foi feito, com a exceção de ter sido o primeiro evento do tipo. Senti-me um pouco engando em relação ao que seria o Terrorfest, naquela velha coisa do expectativa versus realidade.

Obviamente, é um passo significativo para que o gênero ganhe alguma voz dentro do país, que constantemente despreza as produções nacionais criadas sob o estandarte do terror. Entretanto, se não houver mudanças mínimas por parte dos organizadores desse evento, se não exigirem mais espaço, se não captarem mais verba e apoios, não tiver exibições de qualidade dos filmes e curtas, se não tiverem mais consideração por TODAS as manifestações do terror e se não exigirem das editoras alguma consideração na montagem dos estandes, jamais avançaremos para fora do senso comum marginal que sempre somos destinados.

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MEDA! Crédito: Facebook – Terrorfest

Guilherme Lopes:

Falar sobre o TerrorFest é meio complicado, pois na mesma proporção em que acho o evento uma empreitada corajosa e dasafiadora, abrindo oportunidade de conhecer mais obras literárias e de quadrinhos do horror nacional, principal foco do evento, vejo pontos falhos em tentar, sem muito sucesso, fazer um evento sem infraestrutura mínima e pouco a oferecer ao público final, mesclando de forma nada atraente bate papos com mesas de convidados e curtas do horror, fórmula que foi por água abaixo.

Sobre os curtas, no sábado foram exibidos: Nua por Dentro do Couro, Nóia ­ Um Dia No Limite, Memórias de um Cineasta Canibal e Pray. Todos eles prejudicados pela completa falta de infraestrutura de áudio e vídeo em sua exibição.

Os destaques ficaram para o Memórias do Rodrigo Aragão, inspirado no caso do casal de Garanhus que vendia coxinhas de carne humana, feito entre as filmagens de Mar Negro, convidado por um grupo de diretores mexicanos para integrar uma antologia – que acabou não acontecendo – onde as regras eram: ser baseado em um acontecimento real em seu país de origem, estilo POV e uma cena filmada em GoPro; e Pray, completamente meatfórico e metafísico, muito bem produzido, com jogos de cores vivas e que te impressionam pela edição e sobreposição de imagens, e a ausência de diálogo. Prejudicado ao extremo por conta da exibição precária. Vê-lo em uma sala de cinema, TV Full HD e com som digital deve ser uma experiência imagética incrível.

Altos papos! Crédito: Facebook

Altos papos! Crédito: Facebook


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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