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Bibliofobia: #11 – Mr. Mercedes

Mais um carro (quase) assassino de Stephen King


Se você pretender ler Mr. Mercedes já de olho nos conhecidos elementos sobrenaturais que Stephen King insere em seus livros, já aviso de antemão que você será surpreendido, mas não de uma forma negativa. É que o primeiro livro da “Trilogia Bill Hodges” não flerta nem um pouco com o clima soturno e assustador que rendeu a King tantos troféus Golden no Hall da Fama do horror, pelo contrário: o principal vilão que dá nome ao livro é extremamente humano, o que pode ser ainda mais assustador do que qualquer outra coisa.

Explico: é que depois de criar hotéis assombrados, crianças assassinas, forças do mal e um número infindável de pessoas com poderes paranormais, King aqui dá vida a um personagem que será um dos mais prováveis de sua carreira. O assassino, Mr Mercedes, nada mais é do que um mass murder, um assassino que, diferente dos serial killers, ocasiona a matança de várias pessoas aleatórias, no mesmo espaço, e sem um motivo aparente. Num mundo onde um homem entra armado em uma boate e dispara contra a multidão, levando 50 pessoas a óbito e ferindo um outro número considerável, palhaços num bueiro ou carros assombrados podem soar ingenuamente inofensivos, e esse flerte com a violenta realidade é o que causa o maior desconforto.

É algo pungente, real, que pode acometer qualquer um de nós em qualquer situação, e que se tornou ainda mais apavorante nos EUA após os atentados de 11 de setembro, e King se aproveita, de certa forma, desse clima paranoico em que os grandes centros vivem para contar a história.

Numa cidadezinha quebrada do Meio-Oeste americano, uma feira de empregos atrai a atenção da população que se encontra numa situação de crise alarmante. Centenas de desempregados esperam numa fila que se forma logo no início da madrugada anterior á abertura da feira, e King nos mostra Mr-Mercedes-Capaum pouco dessas pessoas desesperadas por uma recolocação no mercado de trabalho, fazendo com que você crie um vínculo de empatia com elas. Mas King andou tomando algumas lições com George R. R. Martin e logo mesmo no primeiro capítulo o vilão acelera uma Mercedes roubada em cima da fila, matando oito pessoas (incluindo um bebê, cruel, né?) e deixando várias gravemente feridas. Assim, na lata, o livro já começa com a tensão do acontecido, dando um soco no estômago do leitor.

Pouco tempo depois, o detetive aposentado Bill Hodges amarga a sensação de fracassar na captura do assassino que dirigia a Mercedes. Passa seus dias de aposentadoria engordando e vendo programas duvidosos na TV, e ocasionalmente cogita a ideia do suicídio, consumido pelo tédio, até que uma carta assinada pelo seu antagonista desperta dentro dele a necessidade de investigar novamente o caso, dessa vez por conta própria, sem envolver a polícia.

Para isso, ele conta com a ajuda de um jovem vizinho, Jerome, que o ajuda a buscar pistas na Internet, uma vez que Mr. Mercedes propõe um bate-papo com Hodges num site anônimo (que realmente existe, criando um easter egg bem legal se você entrar com a senha usada por Hodges no livro, e pode ser acessado aqui). Mais pra frente Holly, a sobrinha da verdadeira dona do Mercedes,  uma mulher com sérios problemas psicológicos mas com profundo conhecimento de informática, também integra esse improvável time de detetives.

Paralelo a isso, vamos conhecendo um pouco mais sobre o vilão da história. Pra quem esperava uma resolução do crime a lá Agatha Christie, com a identidade do assassino sendo revelada só no final da história, sinto desapontar: King não só revela o nome verdadeiro do Mr. Mercedes pros leitores logo no início da história, como vai construindo o personagem aos poucos, o que pra mim pode ser uma das melhores sacadas do autor.

Acho que essa construção é fundamental para que entendamos um pouco mais sobre o assassino, sua vida (tanto a social quando a pessoal, que se revelam completamente distintas), suas obsessões e consequentemente, suas tendências criminosas, que obviamente não iram cessar apenas com o primeiro atentado.

Stephen King acertou em cheio ao investir no segmento policial que o Mr. Mercedes se enquadra. O detetive Hodges era um personagem que faltava no universo do autor, com sua personalidade tão cheia de fraquezas e virtudes, e a investigação muitas vezes nos remete a um clima noir.

Além disso, o desfecho e sua conclusão são altamente satisfatórios e condizentes com o ritmo do livro num geral, e nos deixa com boas expectativas para os próximos livros da trilogia: Achados e Perdidos, que será lançado no Brasil agora no começo de julho, e O Último Turno, que deve chegar por aqui lá por outubro. Eu, como Leitora Fiel® que sou, aguardo ansiosamente as próximas aventuras sangrentas dessa saga.

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Troféu Golden no Hall da Fama e em Westeros


Ficha técnica:

Stephen King – Mr Mercedes – 2014
Tradução: Regiane Winarski
Lançamento no Brasil – 2016
Editora Objetiva – Suma de Letras


Niia Silveira
Niia Silveira
Mentalidade de Jack Torrance num corpinho de Annie Wilkes. Foi criada em locadoras e bibliotecas e se apegou ao universo do horror ainda pequena. Não cresceu muito em estatura de lá pra cá, mas sua paixão por sangue e desgraça aumenta a cada dia.

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