Pequena grande mulher

866 – A Órfã (2009)

The Orphan Film Poster-2

Orphan


2009 / EUA, Canadá, Alemanha / 123 min / Direção: Jaume Collet-Serra / Roteiro: David Leslie Johnson, Alex Mace (história) / Produção: Leonardo DiCaprio, Susan Downey, Jennifer Davisson Killoran, Joel Silver; David Barrett, Christopher Fisser, Richard Mirisch, Henning Molfenter, Erik Olsen, Charlie Woebcken (Coprodutores); Aaron Auch, Ethan Erwin, Stacey Fields, Sarah Meyer (Produtor Associado); Don Carmody, Michael Ireland, Steve Richards (Produtores Executivos) / Elenco: Vera Farmiga, Peter Sarsgaard, Isabelle Fuhrman, CCH Pounder, Jimmy Bennet, Aryana Engineer


Eu sei que tem muita gente que gosta de A Órfã, que saiba você, foi produzido pelo Leo DiCaprio, mas que PUTA roteiro paia né? É tão cheio de buracos, inverossimilhanças, forçadas de barra e situações absurdas de nonsense, que acaba tirando todo o mérito final de um decente suspense dirigido por Jaume Collett-Serra e a ótima atuação de Isabelle Fuhrman no papel título.

Okay vai, ele tem um plot twist chocante e até bem construído, afinal, sabemos que tem “algo de errado com Esther”, já que né, até a tagline do pôster já deixa isso bem claro, mas todo o entorno da situação é simplesmente patético. A forma canhestra como John, o personagem de Peter Sarsgaard se volta contra sua própria esposa, Kate (Vera Farmiga, excelente como sempre) tão fácil, mesmo com todo o histórico conturbado da mulher, e não se preocupa com a integridade de seus dois filhos, ficando do lado de Esther com seu comportamento errático, é uma papagaiada.

Kate é todo momento tratada como uma mulher louca, incapaz, pronta para ter uma recaída em seu vício pelo álcool que quase matou sua filha mais nova afogada em um lago congelado e seu marido abusa no gaslighting, compactuado por sua sogra e até sua terapeuta, para descontruir sua sanidade, colocar a culpa nela e não enxergar o que pode estar realmente errado naquele corpo estranho colocado para dentro de casa.

Eu Esther, 13 anos, maníaca e de maquiagem borrada

Eu Esther, 13 anos, maníaca e de maquiagem borrada

Até as crianças, que vai, são coagidas pela psicopatinha, ainda assim ficam lá sendo bunda moles, cúmplice de assassinato e tudo mais. É tudo muito bizarro e surreal. As atitudes de todos os envolvidos, tirando de Kate, é tão fora da realidade, tão forçada, que apaga o que poderia ser um ótimo thriller. Pelo menos a reviravolta no roteiro dá fundamentação nas atitudes e maquinações de Esther, algo impossível para uma simples menina de nove anos insana.

Aliás, já começa que não sou mãe e nunca vou ser (óbvio!) mas não consigo entender a história de você ter que suprir uma dor da perda tão grande, quanto do terceiro filho do casal abortado, e ter taaaaanto amor assim para dar para uma criança, que precisa adotar uma nova filha, enquanto tem dois filhos, incluindo uma surda-muda que precisa de atenção especial, podendo canalizar todo esse amor materno latente neles, mas que acabam sendo jogados a escanteio com a chegada da freakzinha.

Bom, para quem não assistiu A Órfã, ALERTA DE SPOLIER: No desenrolar da trama, depois de Kate ser taxada de louca, ser obrigada pela família a ir para uma clínica de reabilitação para dependentes de álcool, o filho mais velho quase ser morto por Esther, e a moça ficar internada em um hospital, ela finalmente descobre, no plot twist do terceiro ato, que a garota na verdade não é uma menina, tem mais de 30 anos nas costas e sofre de hipopituitarismo, uma doença endócrina que comprometeu seu desenvolvimento e a deixou com o físico de uma criança. Ah, claro, ela é uma psicopata que já havia matado gente antes, livremente inspirada no caso real das irmãs tchecas Kiara e Katerine Kuřim.

Casal Warren... Não, pera...

Casal Warren… Não, pera…

Uma das cenas mais controversas de A Órfã, tirando a psicopatia infantil (que seria muito mais contundente mas não traria aquela sensação da surpresa com a reviravolta do roteiro) é quando Esther tenta seduzir John, por quem nutre uma paixão platônica, após o mesmo ter tomado uma garrafa inteira de vinho. Eu assisti esse filme no cinema junto com uma ex-namorada na época, e eu lembro que durante aquela cena ela se virou para mim e disse: “homem é tudo besta, mesmo!”.

Olha, não sei homem é TUDO besta, mas o personagem de Sarsgaard é o besta-mor, porque cair naquele papinho furado, naquela tentativa sedução tipo Teste de Fidelidade, mesmo chumbado de álcool, ainda mais com a menina supostamente tendo nove anos de idade, é duro de engolir! Detalhe que a cena seria ainda mais longa e sexualmente gráfica, mas vamos lembrar que Isabelle Fuhrman tinha 12 anos na época, e por isso ela foi sumariamente cortada pelo estúdio.

A Órfã foi um sucesso de bilheteria naquele ano, faturando mais de 78 milhões de dólares no mundo todo (contra 20 milhões de orçamento), é um thriller regular, não é essa Brastemp toda muita gente pinta não, que infelizmente acaba sendo prejudicado por alguns caminhos de roteiro e de concepção de personagens e situação, mas nunca pela inabilidade de Collet-Serra na direção, que manda bem na construção do suspense e sua escalada até o derradeiro confronto final, nem na parte técnica (a fotografia também é belíssima) ou no elenco e suas atuações. Valeu a pipoca e o dinheiro gasto na sala de cinema na época.

Pequena grande mulher

Pequena grande mulher


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. studiomarvin disse:

    Bem, vamos lá: o estúdio que fez A Órfã foi o DarkCastle, estúdio que homenageia o rei do marketing, William Castle, tendo inclusive feito alguns remakes malsucedidos dos filmes dele. A órfã, porém, é a melhor das homenagens ao Castle. Apesar dos muitos defeitos da história que você mesmo apontou, ele busca muito dos elementos que ele usava. Aquelas histórias com plot twist bizarro, que muitas vezes brincavam com a metalinguagem do cinema. Pode-se dizer que a reviravolta faz jus aos filmes de William Castle, o que faz dele uma belíssima homenagem.

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