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Review 2016: #30 – Green Room

Agressivo, visceral, direto e subversivo, está para o cinema assim como o punk está para a música


O jovem ator Anton Yelchin (Star Trek, A Hora do Espanto) faleceu há poucos dias. Um cara promissor de apenas vinte e sete anos atropelado pelo próprio carro em um daqueles acidentes banais e sem sentido que nos trazem a memória a fragilidade da vida. Yelchin deixou para trás alguns filmes inéditos, alguns em todo o mundo, outros apenas no Brasil, incluindo aí o filme da vez, Green Room.

Dirigido pelo excelente e talentoso Jeremy Saulnier (Blue Ruin), Green Room faz parte de algo que ele mesmo chama de trilogia da inaptidão, três filmes que oscilam entre o thriller e o horror protagonizados por personagens ordinários que se encontram em situações de violência excessiva, frente as quais são completamente despreparados.

Considerando que este é o terceiro longa de Saulnier, é de se imaginar que os outros filmes da trilogia sejam Blue Ruin e seu debute, Murder Party. Ou talvez ele esteja preparando um novo filme com alguma cor no título, vai saber. O fato é  que Green Room é um daqueles thrillers tão intensos e sanguinários que têm os dois pés atolados dentro do horror!

Uma banda punk underground em “turnê” vai parar em um bar de neonazistas. No momento em que eles colocam os pés na casa de show, a tensão dá seu primeiro sinal de vida e começa a crescer descontroladamente. Após fazer uma apresentação provocativa, despertando o desgosto de alguns, eles ainda têm a infelicidade de se deparar com um assassinato nos bastidores. De meros sujeitos impopulares, eles passam a ser testemunhas chave de um crime e, a partir daí, sofrem horrores nas mãos dos neonazis – NAZI PUNKS, NAZI PUNKS, NAZI PUNKS, FUCK OFF!

Green Room tem um ritmo excelente e desenvolve a tensão por meio de situações desesperadoras, cruelmente armadas e sempre pontuadas por cenas de violência extrema. Cada pico de tensão é coroado com uma dose chocante de agressividade, sem dar nenhum sossego ou alento para o espectador. É porrada atrás de porrada em uma das experiências mais viscerais que o cinema tem a oferecer em 2016. Não há qualquer tipo de higienização ou tentativa de disfarçar a brutalidade do assassinato e do crime.

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Tá na mira!

 

Na época em que estreou em festivais, o filme arrancou elogios de todos os lados e até comparações a Quentin Tarantino. Apesar de não ser tão estilizado e da visão mais pessoal do diretor, a violência explícita e os diálogos dinâmicos, de gente comum, carregados de referências pop faz a comparação não tão absurda. A maior diferença, no entanto, é com relação aos personagens.

Inaptidão não é o único adjetivo pejorativo que cabe aos personagens, que são todos, sem exceção, “ingostáveis” (perdoem o neologismo). De certa forma intencional, o comportamento dos músicos é de causar incômodo, nem sempre de maneira positiva. Semelhante ao que acontece nos filmes slasher, é grande a chance de surgir aquele pequeno desejo de que todos tenham uma morte horrível. A personagem interpretada por Imogen Potts, em especial, parece constantemente fora de lugar; suas razões de ser são inexplicáveis e inexploradas até mesmo pelos outros personagens. Apesar disso, vale lembrar que mesmo em seu filme anterior, mostrar a motivação e os porquês também não era tão importante quanto os acontecimentos em si e esse foco na ação colabora para que o clima seja ainda mais pesado.

Quem rouba a cena aqui é Patrick Stewart, conhecido por seus papéis de mocinho, mas dessa vez com uma presença mais amedrontadora que qualquer vilão que ele já tenha se deparado como Jean-Luc Picard ou Charles Xavier. Nas sequências em que apenas sua voz é ouvida, o ator é tenebroso e crudelíssimo.

Como o próprio título do filme já antecipa, a fotografia e arte com o tom verde predominante se faz presente do começo ao fim, quebrando um pouco com os tons de azul tão comuns aos thrillers. A ambientação imunda, cheia de pichações e restos espalhados recriam com exatidão impressionante a cena musical underground.

Quem já esteve em concertos pequenos de bandas de metal, punk, grind e etc; encontrará no filme um ambiente extremamente familiar! A qualidade do trabalho de Saulnier também se faz muito presente nas escolhas de enquadramento, frequentemente mais fechados e que destacam a situação claustrofóbica dos personagens. Isso se torna especialmente notável quando comparado com o filme anterior do diretor, em que planos abertos e locações externas predominam.

Agressivo, visceral, direto e subversivo, Green Room está para o cinema assim como o punk está para a música.

 

4 álbums do Dead Kennedys para Green Room

Encoxamos a mãe no tanque!

 


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

2 Comentários

  1. madamecavera disse:

    Poxa, estou iguala uma louca atrás desse filme e não encontro! 🙁

    • Daniel Rodriguez Dead Dans disse:

      Ele está rodando as internets já faz algumas semanas. Existe uma remota possibilidade de chegar aos cinemas por aqui, mas não sei se vale acreditar realmente.

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