Não nos deixei cair em tentação...

869 – Sede de Sangue (2009)

Bakjwi / Thirst


2009 / Coreia do Sul / 133 min  / Direção: Park Chan-wook / Roteiro: Park Chan-wook, Jeong Seo-Gyeong (baseado no livro de Émile Zola) / Produção: Ahn Soo-hyun e Parl Chan-wook, Kim Hak-beom, Seh Bob, Nam Ki-moon (Co-produtores associados), Choi Joon H. (Produtor Associado), Katharine Kim (Co-produtora executiva), Miky Lee (Produtor executivo) / Elenco: Song Kang-ho, Kim Ok-bin, Kim Hae-suk, Shin Há-kyun


Sede de Sangue é um delírio vampiresco surreal, fetichista, misógino e sádico do tresloucado diretor sul coreano Park Chan-wook. Uma daquelas maravilhas que vem da Coreia do Sul, com uma estética impecável, roteiro impiedoso e uma constante troca de gêneros dentro de um mesmo filme, ora terror, ora drama, ora romance, ora humor negro escrachado.

O diretor conhecido por sua trilogia Vingança, que consiste em Mr. Vingança, Oldboy e Lady Vingança, levou dez anos para conseguir realizar a sua história do padre católico que se torna um vampiro sanguessuga. Quando trabalhou junto com o astro do filme, Song Kang-ho, em 2000, ao dirigi-lo em Zona de Risco, já havia trocado figurinhas sobre esse filme e o convidado para estreá-lo. Além disso, Sede de Sangue é o primeiro filme coreano a ser coproduzido por Hollywood, já que recebeu financiamento da Universal Pictures.

Utilizando algumas marcas registradas de trabalhos anteriores, como sangue, violência estilizada e humor, Chan-wook conta a história do devoto padre Sang-hyeon, que decide tornar-se cobaia de um experimento para desenvolvimento de uma vacina para um terrível vírus que provoca uma doença degenerativa de pele. Infelizmente, o intrépido padre acaba morrendo nesse experimento quando é infectado. Porém ao receber uma transfusão de sangue de um desconhecido na tentativa de salvá-lo, eis que ele é presenteado com o sangue de um vampiro e volta à vida.

Mas é vampiro ou múmia?

Devotado pelos fieis como um padre milagreiro, aos poucos Sang-hyeon vai descobrindo que se tornou uma criatura das trevas e precisa combater seus instintos básicos, entrando em um conflito entre seu desejo carnal de sangue, que é o que o manterá vivo e livre da doença que volta sistematicamente ao não se alimentar, e sua fé, já que matar é o pior dos pecados.

Como se não bastasse esse baita dilema moral do sacerdote, surge em sua vida Tae-Ju, uma reprimida e frustrada esposa de um amigo de infância, humilhada a vida inteira por sua sogra com quem moram juntos, que na verdade é uma verdadeira bomba de sexo e desejo prestes à explodir.

O padre talarico não demora para mandar às favas sua doutrina religiosa e ceder a luxúria e os prazeres da carne. Só que a mulher será sua ruína, quando eles armam um esquema para se livrar do marido e da sogra, e depois o já ex-padre acaba a transformando em uma vampira para salvar sua vida. Ao contrário de Sang-hyeon, que se alimenta de sangue de pacientes em coma e de “voluntários”, Tae Ju quer mais tocar o terror e ir à caça.

Dona Coreia e seus dois maridos

O que se vê são cenas filmadas com uma beleza ímpar e excelente fotografia, e uma verdadeira viagem surreal e inconsequente do diretor, com cenas que beiram o mais completo absurdo, pontuadas pelas precisas atuações de Song Kang-ho e da espetacular Kim Ok-bin, que rouba o filme da sua metade para frente. Outro destaque é para atuação de Kim Hae-sook como a sogra, que consegue nos fazer dar risadas com simples piscadelas e movimentos com o rosto.

Dois detalhes dos mais interessantes de Sede de Sangue é que em certos aspectos, ele remete aos bons elementos clássicos do vampiro no cinema, retratando-os como extremamente carnais e sexuais, dominados por um desejo incontrolável por sangue e tesão. Tae-ju em si, louca para dar, é uma verdadeira antítese à toda aquela metáfora de castidade e limpeza propagada pela Saga Crepúsculo. Ela quer aproveitar anos de frustração sexual e se deliciar do gozo de todas as formas possíveis, tanto sexual quanto pelo sangue. Mas ao mesmo tempo, outras características também eternizadas nas lendas dos sugadores de sangue são deixadas de lado, como a falta dos famosos caninos ou seus reflexos que são mostrados em espelhos.

Sede de Sangue é mais uma comprovação da beleza e originalidade do cinema sul-coreano e todo o brilhantismo de seus diretores. Não é a toa que levou o prêmio do público no Festival de Cannes de 2009. E também comprova mais uma vez que o gênero vampiro não está perdido só porque uma esmagadora maioria burra lê e assiste aqueles enlatados. Uma curiosidade pessoal é que o título em português do filme foi dado por esse que vos escreve, quando trabalhava na Paris Filmes, que distribuiu o filme aqui no Brasil. Sim, a mesma Paris Filmes que distribui a Saga Crepúsculo. Que ironia.

Não nos deixei cair em tentação…

 



Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Guilherme disse:

    Marcos, quando puder, faça o upload de novo fazendo favor.

    Muito obrigado!

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