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879 – Eu Vi o Diabo (2010)

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Ang-ma-reul-bo-at-da  / I Saw the Devil


2010 / Coreia do Sul / 141 min / Direção: Kim Jee-woon / Roteiro: Kim Jee-woon, Park Hoon-jung / Produção: Hyun-woo Kim; Seong-weon Jo (Coprodutor); Jae-young Kim, Jung-hwa Kim (Produtores Associados); Kee-young Cheong, Hyung-cho Il, Yeong-shin Kang, Byung-ki Kim, Kil-soo Kim, Jae-sik Moon, Bryan Song, Youngjoo Suh (Coprodutores Executivos); Hun-you Jeong, Greg Moon (Produtores Executivos) / Elenco: Lee Byung-hun, Choi Min-sik, Kim In-seo, Chun Ho-jin, Kim Kap-su, Lee Joon-hyeok


Se o brilhante Seu Madruga certa vez disse que “a vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena”, com certeza ele poderia muito bem se referir a alucinante caçada humana do policial Kym Soo-hyeon, interpretado magistralmente por Lee Byung-hun, no absurdamente fodástico, sanguinolento, intenso e belíssimo thriller coreano Eu Vi o Diabo.

O cinema coreano e os filmes de vingança sempre conjugaram o mesmo verbo e Eu Vi o Diabo é a sua síntese, graças a um trabalho de direção impecável de Kim Jee-Woon (o mesmo de outro incrível exemplar do K-Horror, Medo), que não mede esforço algum em injetar doses cavalares de adrenalina misturado a um verdadeiro banho de sangue, brutal e depressivo captado por suas lentes de uma forma quase poética, recheada de composição artística, auxiliado pela excelente fotografia de Lee Mo-gae, que às vezes até esquecemos estar assistindo um filme deveras violento, transgressor e tão pesado.

Mais que “ver o diabo” a grande metáfora do longa é qual o limite em que você “se torna o diabo”. ao descer por uma espiral sem fim de baixeza humana, levado por ódio transbordado e desejo incondicional de vingança. Qual a justificativa da violência e da tortura, se é que ele existe? Para Soo-hyeon, um agente da polícia secreta, tomado pelo luto inconfortável, a resolução é se tornar um mostro para caçar outro, o serial killer sexual Kyung-chul (ótimo Choi Min-sik, o mesmo de Oldboy), que matara e estuprara sua noiva grávida, Se-jung (Kim In-seo).

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Matutando a vingança…

Um parêntese para a frieza e desequilíbrio do psicopata, com a verdadeira maldade na alma, que sente prazer em cometer suas atrocidades, com uma mente confusa e personalidade limítrofe, sádica que nunca demonstra remorsos e tortura e executa sua vítimas com requintes de crueldade. Toda a polícia de Seul está em seu encalço, quando o trágico incidente acontece, e o policial só consegue pensar em fazer o facínora passar pelo mesmo sofrimento e horror que impõe as suas vítimas.

Decidido a fazer justiça com as próprias mãos, Soo-hyeon dá as costas à lei, decidindo levar em consideração apenas a de Talião, olho por olho, dente por dente, para iniciar uma caçada insana contra o maníaco, não contente somente em prendê-lo e leva-lo a justiça, mas iniciando uma brincadeira sádica de perseguição, tortura e violência física e mental, apenas para libertá-lo e continuar o jogo de gato e rato, repetidamente, nunca dando-se por satisfeito e tomado por uma insanidade descontrolada.

Só que acontece que Kyung-chul também não é nenhum idiota, e ambos, caçador e caçado, acabam se completando de forma muito parecida em seus desejos obscuros e resoluções violentas, ao ponto de você chegar até a sentir raiva do protagonista, até mesmo pela vingança anuviar sua visão e pensamento crítico, mantido apenas pela pura e simples obsessão, levando-o a cometer erros crassos que acabam por continuar prejudicando sua vida e dos próximos. Violência leva a violência, e esse é a verdadeira moral da história de Eu Vi o Diabo.

Esse jogo macabro acaba também por desvirtuar a famosa jornada do herói, sem dar espaço para a tão esperada redenção, que em seu lugar é substituída pela descida ao abismo, uma vez que ele se torna um monstro do mesmo quilate de Kyung, e lembra muito aquela conversa que o Coringa teve com o Batman em O Cavaleiro das Trevas, onde diz que “ou você morre como herói, ou vive o bastante para se tornar o vilão”. Bingo!

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Psycho killer

Porém além de todas essas questões psicológicos e filosóficas, Eu Vi o Diabo é um balé de sangue e selvageria escabroso, e belíssimo cinema artsy ao mesmo tempo. Todas as cenas de ação são lindamente orquestradas, com ângulos inusitados e quase impossíveis (como a acachapante cena de luta dentro do carro), auxiliado pela trilha sonora contundente e a excelente coreografia, sem nunca apelar para o exagero.

Quando Kim Jee-woon resolve atingir nosso âmago de verdade, no melhor sentido exploitation da palavra, cada pancada e tortura física pesa na própria alma do espectador, aumentando exponencialmente o nível de brutalidade gráfica que chega a agredir até os olhos, tudo de forma visceral e amparado pelas excelente interpretações do mocinho e bandido, mesmo que em certa altura, não sabemos mais quem é quem nessa conotação moral.

Eu Vi o Diabo é o auge da exploração de conceitos de violência, vingança, maldade e perversão do cinema coreano, uma pérola de genialidade cinematográfica e dos melhores filmes da década sem a menor sobre de dúvida, que vem com um inconfundível toque de maestria e beleza, embasbacando aquele assiste, mesmo que ao mesmo tempo com um sentimento horrível de nó no estômago, te deixando sem mãe e completamente desolado e deprimido e descrente da fé na humanidade em seu final, nessa explosão magnânima de violência. Agora é esperar o que virá do alardeado remake americano, que vem aí pela dupla Simon Barrett e Adam Wingard, de Você É o Próximo.

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Nunca é plena…



Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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