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Review 2016: #34 – Darling

O filme contém flashes de luzes, imagens alucinatórias e pode provocar desgraçamento mental


O jovem cineasta Mickey Keating, o mesmo de Ritual, Pod e Carnage Park (todos inéditos no país, devidamente ignorados pelas nossas distribuidoras) já é dono de uma filmografia que podemos considerar no mínimo peculiar e dessa forma taxá-lo sem erro como um dos nomes mais excitantes dessa nova safra de diretores americanos.

Darling sem dúvida nenhuma é seu melhor trabalho até o momento, e dos mais interessantes filmes do gênero neste 2016. Desde que seu trailer começou a rodar a Internet após sua exibição no Fantastic Fest no final do ano passado, o longa vem chamando atenção e caiu nas graças da crítica, como é o caso do editor do site Shock Till’ You Drop, Chris Alexander, que o considerou “o melhor filme de terror do ano e um marco do horror independente”.

Exageros a parte nessas duas questões, fato é que Keating realmente conseguiu um verdadeiro feito em seu psicodrama de horror de micro orçamento cuja melhor definição que eu consegui encontrar, é que ele seja capaz de provocar desgraçamento mental.

Atmosférico, simples, minimalista, vintage, hermético e perturbado em um nível tão gigantesco, não por menos Darling, dono de uma estonteante fotografia preto e branca, não consegue se desvencilhar da ideia que a fita parece uma mistura saída da cabeça de um Roman Polanksy (a inspiração da trilogia dos apartamentos é inegável e a mais óbvia), David Lynch, Lars Von Trier, Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock em seus jovens dias de glórias e transgressão cinematográfica.

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Vítima de desgraçamento mental

Pode parecer uma presunção enorme, mas é exatamente essa a impressão que Darling nos passa. Sem dúvida Repulsa ao Sexo é o que mais grita na tela ao assistirmos a degradante descida à loucura da personagem principal, sem nome, apenas chamada de “Querida” em uma ligação telefônica, interpretada de forma incrível, visceral e intensa por Lauren Ashley Carter (que já havia mostrado um lampejo de seu poder de atuação em Pod), quando aceita o trabalho de zeladora de um antigo prédio em Nova York, com fama de mal assombrado (a última que aceitou o emprego, suicidara-se pulando do telhado). Mas elementos comuns a Psicose, Eraserhead, O Bebê de Rosemary, Acossado e claro, O Iluminado, se fazem bem presentes.

A perturbada moça não vai demorar nada para começar a degringolar por uma espiral de insanidade e paranoia, influenciada cada vez mais por alguma força maligna presente dentro daquele local infame, ou talvez somente por sua mente distorcida, até chegar a explosão violenta que culmina em seu gory e sujo terceiro ato, com um desdobramento deveras climático e impressionante (para não dizer assustador em certos sentidos) divididos em pequenos capítulos.

Tudo pareceria muito clichê, se Keating não tivesse estilizado tanto seu filme e subvertido o padrão do cinema de terror tradicional – diabos, do cinema tradicional em si – para quebrar paradigmas e mandar às favas a convenção careta e enlatada que tanto vemos nos filmes de gênero ultimamente. A pegada artsy completamente retrô, em P&B, com ar decadente, transforma-o em um parente maligno deslocado, estranho e fora de tempo da nouvelle vague.

Logo no começo da fita, há uma advertência que o filme contém flashes de luzes e imagens alucinatórias, apenas por simples e irônico desencargo de consciência dos realizadores. O diretor abusa desse recurso para deixar cada vez mais e mais o espectador completamente desconfortável com o que está assistindo, não tornando nenhum momento a experiência nada menos que desagradável e traumática, auxiliado por cortes rápidos e frenéticos como o piscar de luzes estroboscópicas, o soberbo uso dos efeitos sonoros, que explodem em barulhos ensurdecedores e lunáticos sem a menor parcimônia, ou a pontuação precisa da trilha sonora de Giona Ostilnelli. Mas, ora bolas, não é isso que o filme de terror realmente deveria fazer: causar desconforto?

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Tomando conta

Todas os arroubos de violência e loucura desgovernada de Lauren Ashley Carter são dignos de nota. As próprias expressões da moça em seu descontrole, histeria e perturbação, sempre vinda com uma dose de carga dramática cavalar, já é um caso a parte, o suficiente para nos trazer à tona um estranho medo primal. O senso urrante de tragédia anunciada, a escalada de tensão, a claustrofobia crescente, e a demência perene, diluídos de forma completamente straight forward em um metragem de  tiro curtíssimo (apenas 78 minutos de duração) não abre espaço para enrolação, explicações fáceis e fórmulas simplistas.

Apesar de todas as cartas na mesa desde a primeira olhadela na personagem durante a entrevista de emprego feita com a veterana Sean Young e seu primeiro diálogo, ainda assim aquele que resolveu encarar Darling não estará totalmente preparado para a porrada, ainda mais com a incômoda sensação de estar assistindo a um filme artístico e refinado (a nervosíssima cena do diálogo do bar entre a personagem e o suposto Henry Sullivan é a epítome disso que estou falando), só que completamente confuso, contestatório, desafiador e que não se dobra em nenhum momento ao convencionalismo.

Assistir Darling foi uma das experiências cinematográficas mais intensas e desarranjadas que tive neste ano. E Keating já provou por A+B que não é um cineasta de fácil compreensão, que está propenso a obliterar os padrões do gênero, abraçou a estética do criativo novo cinema indie americano de horror de baixo orçamento, cercou-se de atores e atrizes que são a cara desse movimento (como Lauren Ashley Carter e Larry Fassender, ambos também produtores executivos do filme), e sabe muito bem como, onde e porquê encaixar seu caminhão de referencias vindas da escola de cinema.

É bom ficar de olho no sujeito. E obrigatório assistir Darling.

 

4 “tchau, querida” para Darling

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Chateadíssima (e suja)


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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