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Bibliofobia: #12 – O Bairro da Cripta – Tomo III – As Exéquias

Novo livro de M.R. Terci é um dos mais poderosos exemplos de literatura de terror nacional


Me disseram uma vez que era sempre treva no Bairro da Cripta. De fato, ao se enveredarem em meio as gigantes lápides que se estendem em meio esse mal precito local, a luz trazida nos olhos dos que se atreveram a entrar nesses domínios aos poucos desaparece. Nesse terceiro tomo de maldições, a pouco esperança que se tinha se esvai. A treva viva, que se aloja em cada milímetro de ar pútrido de Tebraria, nunca foi tão espessa. Não há volta.

 Como já foi posto em resenhas dos tomos anteriores, a comparação com Lovecraft é necessária. Entretanto, é em As Exéquias que a relação de Terci com o escritor norte-americano alcança seu ápice. O flerte com a ficção científica deixa de ser apenas um ato de corte e se consolida nas entrelinhas dos contos.

A natureza de Tebraria agora pulsa como nunca em compasso com o ininteligível do universo. A pequena cidade paulista se transforma em um atrator de desgraças. Criaturas (se é que podemos chamá-las assim) tomam a Terra como seu domínio e levantam suas moradas nas proximidades dos Morros da Tristeza de Deus. A chegada do homem à lua e os incidentes de Hiroshima também repercutem nessas tristes cercanias.

 Em meio a leprosos, lobisomens e monstruosas serpentes, os que já haviam caminhado nas perversas ruas de Tebraria serão agraciados com nostálgicas e sangrentas lembranças dos locais por onde andaram. Aqui, também a inteligência surge como uma maldição. Aqueles que não enlouquecem em suas tentativas de se manterem vivos, são para sempre marcados com vislumbres além-mundo de dimensões mortuárias habitadas por deuses abomináveis. Não importa quem seja: médicos, militares…. Ninguém passará impune pela indiferença destrutiva das forças desconhecidas que circundam Tebraria.

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Cada conto é dotado de uma atmosfera única, ainda que habitando um universo compartilhado. A identidade de cada um deles é marcada pela necessidade da narrativa. Em histórias onde se faz necessário um movimento mais intimista, para que entendamos o sofrimento daquele que narra, o uso da primeira pessoa é feito com esmero.

Já em contos mais visuais (e são muitos), onde a ambientação é fator primordial para que sejamos inseridos na atmosfera que o autor cria, imergimos em descrições sinestésicas assombrosas. A rebuscada linguagem que percorre todo o tomo, aspecto já conhecido da escrita de Terci, também é um fator que facilita a inserção do leitor no período histórico por onde a narrativa se consolida.  

 Como tememos muito estragar a experiência do leitor que se debruçar sobre todas as maravilhosas (e assustadoras) surpresas que cada um dos contos traz, iremos apenas agregar ao nosso comentário que este livro trará aos corajosos já habituado com a grotesca e fascinante mitologia de Terci a necessidade de seguir acompanhado o desenrolar da pentalogia.

Fantástico e sombrio, O Bairro da Cripta – Toma III – As Exéquias é um dos mais poderosos exemplos de como o terror brasileiro não deve em nada para o que se produz no exterior dentro do gênero.

Recomendadíssimo.

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Tauami de Paula
Tauami de Paula
Estudante de Letras e de Filosofia, esse apreciador do absurdo e do inexplicável sempre encontrou mais sentido na arte do que na vida. Sendo raramente visto fora de casa, passa os dias lendo, escrevendo e criando teorias sobre tudo aquilo que não entende.

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