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Bibliofobia: #13 – O Demonologista

A luta do Bem contra o Mal (ou Deus contra o Diabo) de Andrew Pyper tem seus méritos, mas não passa disso.


Algumas das mais antigas representações do Mal estão na Bíblia. Lá, o símbolo máximo dessa força é Satã. Sendo citado constantemente no Velho e no Novo Testamento, o Inimigo Supremo de Deus tenta moral e espiritualmente os humanos, visando distancia-los de Deus e os tornar seus servos. Em O Demonologista, lançado no Brasil pela DarkSide Books, vemos essas tentações em ação.

Especialista em mitologia e narrativa judaico-cristã, o ateu David Ullman ensina para os seus alunos sobre a rebeldia de Lúcífer do modo que ela é narrada em Paraíso Perdido de John Milton. Ademais aos livros e o ministrar de seu curso, toda a existência o professor universitário é preenchida com a terna relação que tem com a filha e com agradáveis conversas com a amiga O’Brien.  Entretanto, coisas não vão bem em seu casamento. Ele descobriu um caso extraconjugal da esposa. O amante é um professor do departamento de física que trabalha na mesma universidade em que David leciona.

Pouco antes de ser intimidado a se divorciar, David recebe uma proposta de uma mulher misteriosa. Ela diz que ele deverá prestar serviços como demonologista em Veneza, tendo direito a uma viagem com acompanhante e hospedagem com todas as despesas pagas, além de um gordo contracheque. O que em um primeiro momento surge como uma proposta a se recusar devido sua estranheza, torna-se uma chance de recuperar alguns pequenos cacos de seu lar quebrado. Junto de Tess, sua filha, ele embarca nessa viagem que se mostrará como o início de um pesadelo.

A história é narrada em primeira pessoa pelo protagonista David, de modo que nos é possível observar uma dissonância muito interessante entre o mundo interno do herói (confuso e melancólico) e o modo como ele interage com a realidade (sarcástico e bem-humorado), trazendo um aspecto de verossimilhança para o personagem.

Junto dele, vemos Elaine O’Brien. Melhor (e aparentemente única) amiga de David, O’Brien desempenha um papel fundamental na narrativa, dando folego e solução a ela. Também temos Tess, a filha adolescente de David. Ela é o gatilho de toda a trama; o motor que desencadeia todos os conflitos e a motivação para o prosseguimento da trama.

capa_demonologistaO desenvolvimento dessas personagens é muito bem executado. Enquanto somos apresentados ao número exato de características pertinentes de O’Brien e Tess, temos um aprofundamento da personalidade de David, tornando-o um protagonista justificado (até certo ponto) dentro do conflito que lhe foi apresentado. Como antagonista, temos O Inominável; uma transfiguração d’O Mal, que adota variadas formas e acerta feridas ocultas do protagonista escondidas no passado. Essa personagem traz uma fidedigna leitura do Inimigo bíblico: Uma força maléfica atraente, que convence através de uma eximia retórica e mentirosas promessas.  

Outro personagem que se opõe a David é George Baronne – O Perseguidor. Enviado por mandantes ocultos para rastrear um item adquirido pelo protagonista, essa figura trabalha como um ingrediente de tensão extra, dando (ainda) mais velocidade em percursos da narrativa que seriam tediosos caso essa figura não existisse.

O espaço da história é claustrofóbico. Por se tratar de uma narrativa em primeira pessoa, a percepção do mundo que circunda o protagonista é estreita, mesmo quando ele se encontra em ambientes que são aparentemente extensos. Na intensa movimentação da história, somos postos em pequenos ambientes onde diálogos e reflexões mais intimistas de David ganham peso e substância para o desenrolar do texto. O que cria um certo desarranjo com o tempo da trama, uma vez que esse é extremamente veloz e conciso. 

No primeiro terço do livro, somos rapidamente capturados pela história, onde o autor cria um protagonista tão imerso em conflitos que dificilmente o leitor não simpatizará com ele.  Entretanto, do segundo terço em diante, a narrativa torna-se rápida, quase frenética, o que me parece ter sido uma forma do autor não precisar justificar determinados aspectos da história. Digo isso pois, destoando do que li em outras resenhas do livro, afirmo que essa não é uma história sobre um pai que busca encontrar a própria filha. O conflito por detrás de toda a trama é a eterna luta do Bem contra o Mal (ou Deus contra o Diabo). Toda a história do protagonista decorre dele estar sendo usado por ambos os lados como uma ferramenta para alicerçar a sobreposição de uma dessas forças diante da outra.

Entendam, eu não acho que isso seja ruim. Contudo, muitos acontecimentos da história não são devidamente explicados pelo autor devido essas forças maiores estarem agindo nas entrelinhas da trama. Isso se evidência, por exemplo, na distinção que ocorre entre a descrição e comportamento de determinados personagens. A máxima desse contrassenso é o próprio David. Em que circunstâncias um professor universitário ateu, que deveria ser um exemplar máximo do pensamento científico, iria se submeter a uma jornada extraordinária contra forças demoníacas, baseando-se em nada além de suas intuições sabidamente deturpadas por um estado emocional frágil?

Dentro da narrativa desenvolvida por Pyper, situações como essa encontram suporte. Não é possível acusar o autor de não ter estruturado com maestria sua história nesse aspecto. Aliás, esse é ponto forte da narrativa; tudo gira entorno do embate central, fundamentando-o. Contudo, aos meus olhos, há um empobrecimento na história devido a utilização de interferências metafísicas, que justificam situações e comportamentos aberrantes por parte das personagens.

Em sua conclusão, O Demonologista me soou como uma reformulação da fábula bíblica de Jó; onde um homem tem sua fé testada (nesse caso, também adquirida) ao ter tudo o que possuí sendo arrancando de sua vida devido a um conflito maniqueísta divino.  O que faz que, assim como na trama original, tudo encontre explicação nos desígnios de Deus e nas tentações do Demônio.

 Aceitável, tem seus méritos, mas não passa disso. 

 Ficha Técnica:

Andrew Pyper – O Demonologista – 2013

Tradução: Cláudia Guimarães

Lançamento no Brasil – 2015

Editora DarkSide Books

      


Tauami de Paula
Tauami de Paula
Estudante de Letras e de Filosofia, esse apreciador do absurdo e do inexplicável sempre encontrou mais sentido na arte do que na vida. Sendo raramente visto fora de casa, passa os dias lendo, escrevendo e criando teorias sobre tudo aquilo que não entende.

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