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Review 2016: #38 – Águas Rasas

Se ficar o peixe pega, se nadar o peixe come…


Foi no longínquo verão de 75 que a pacata cidade costeira de Amity Island foi aterrorizada por um grande tubarão branco que resolveu fazer dos banhistas incautos seu buffet particular. A história do cinema mudou pra sempre depois que Steven Spielberg meteu medo de entrar na água em muita gente e, cá entre nós, tenho certeza que você já cantarolou a música tema de John Williams na sua cabeça pelo menos uma vez ao colocar as canelinhas para molhar na praia.

Desde então, o voraz peixe se tornou um dos principais animais a ser utilizados no subgênero conhecido como eco-horror, além de dar à luz inúmeros rip-offs, embora tenham sido pouquíssimas vezes em que um filme com o predador marítimo chegasse minimamente próximo do clássico Tubarão — pelo qual, confesso, tenho o maior carinho do mundo porque é o FILME DA MINHA VIDA!

Nessas duas últimas décadas, o bicho virou motivo de escracho, principalmente por conta da famigerada produtora The Asylum, que o misturou com todo tipo de espécime (polvo, piranha, jacaré, dinossauro…) com efeitos de CGI tosquíssimos. Além disso, o predador marinho foi enfiado dentro de tornados, na neve, na areia e até dentro de uma casa (!!!), além de ter versões como fantasma, demônio, monstro de Frankenstein e, pasmem, até mesmo uma que tinha de duas a três cabeças.

Mas entre uma trasheira e outra, aparecem algumas produções dignas de nota, que podem não ser o verdadeiro sucessor de Tubarão mas ao menos conseguem entregar um bom entretenimento ou manter o nível de tensão e adrenalina lá em cima. É o caso de No Fundo do Mar, Mar Aberto e agora entra para esse distinto ROL da ictiofauna cinematográfica Águas Rasas, que estreia nesta quinta-feira (25) nos cinemas do Brasil.

No VACA, yes SHARK

No VACA, yes SHARK

Dirigido pelo espanhol Jaume Collet-Serra, o mesmo de A Casa de Cera e A Órfã, o longa traz uma trama das mais simples e eficientes, colocando Blake Liveky como uma surfista que viaja até uma praia deserta e escondida no México, o mesmo lugar onde sua mãe — que morrera recentemente vítima de um câncer — esteve surfando quando grávida. A morte na família faz a moça largar da medicina e tirar um tempo sabático, em busca de suas raízes e de si mesma.

Tudo às mil maravilhas, pegando altas ondas, até ela ser atacada por um grande tubarão branco FÊMEA desgarrado (este detalhe é bem IMPORTANTE, uma vez que seu tamanho é maior que o de um macho) ao entrar em seu território, no qual devorava de boas uma baleia. Aí, a aspirante a surfista fica ilhada em um recife, cercada pelo leivatã, com a perna parcialmente dilacerada e o tempo correndo no relógio para que a maré suba e ela fique submersa. Ou seja: se ficar o peixe pega, se nadar o peixe come…

Águas Rasas é de uma tensão LANCINANTE, daquele tipo que faz você roer todas as unhas dos dedos, sofrer de taquicardia e segurar a respiração durante a luta pela sobrevivência entre a personagem de Lively e a tubarão numa crescente de suspense muito bem orquestrada por Collet-Serra.

Nisso, o espectador é jogado como testemunha ocular da privação que a surfista passa naquela situação LIMÍTROFE e sente junto dela toda sua agonia, principalmente física, com escoriações, perda de sangue, frio e sede. Caso você vire a cara da tela na cena da costura com o brinco, eu não vou te culpar não, porque é das mais aflitivas, até mesmo para quem tem estômago forte.

Smile, you son of a bitch!

Smile, you son of a bitch!

O diretor também abusa de recursos para trazer para si o público jovem – afinal o filme é estrelado pela eterna Serena de Gossip Girl – como espelhar a imagem do smartphone da garota e seu relógio com cronômetro na tela, abuso de câmera lenta, muitas cenas de surfe, trilha sonora modernosa e filmagens em GoPro, o que também aumenta a dinâmica e a sensação de suspense e urgência em algumas sequências. A belíssima fotografia que Flavio Martínez Labiano faz da praia paradisíaca (as filmagens foram feitas na Austrália) é um desbunde de cair o queixo e, ao mesmo tempo, reflete a contradição daquele ambiente maravilhoso ter se transformado em um verdadeiro inferno sob as águas.

Quanto à antagonista selvagem de muitas fileiras de dentes afiados, Collet-Serra aprendeu muito bem com nosso amigo Spielberg a lição de esconder o monstro o máximo possível, inclusive enquanto ataca sua vítimas (a contagem de cadáveres é baixa, mas com extrema selvageria e boa dose de gore). O monstro é revelado em seu total esplendor apenas no terceiro ato, exibido na mesma proporção que a protagonista vai também conhecendo sua adversária, colocando mais uma vez o público em sua roupa de neoprene: mesma situação de desespero, impotência e apenas avisão parcial de sua algoz.

Aliás, os efeitos especiais são os mais críveis possíveis, conferindo uma aparência assustadora, ágil e avassaladora à criatura, devidamente misturados com o bom e velho animatrônico que sempre funciona.

Claro que há algumas bobagens, clichês e forçadas de barra, principalmente na batalha final entre as duas, típica sequência de ação dos grandes estúdios e seus maniqueísmos, mas até o último segundo a película mantém o nível de tensão lá em cima o máximo possível, fazendo você segurar com força os braços da poltrona. As escorregadas e pequenas saídas fáceis não atrapalham o resultado final.

Além de um ótimo eco-horror e um suspense de tirar o fôlego, Águas Rasas traz duas personagens, cada qual de sua espécie, usando de força e inteligência em um embate estratégico no qual vida e território estão em jogo. Estamos falando de um filme de terror que mostra, tanto para os seres humanos quanto para os peixes, que sexo frágil de cu é rola.

4 carcharodon carcharias para Águas Rasas

ORIGINALMENTE PUBLICADO NO JUDÃO
Pega-peixe

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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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