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Review 2016 #40: O Homem nas Trevas

Fede Alvarez e Sam Raimi entregam um suspense decente e que funciona muito bem naquilo que se propõe. Só que não é nada muito além disso…


Dizem por aí que a expectativa é a mãe da decepção. Desde o anúncio do novo filme do uruguaio Fede Alvarez – sim, aquele do amado e/ou odiado remake de A Morte do Demônio – mais uma vez produzido por Sam Raimi e Robert Tapert, o lançamento de seu primeiro trailer, o alvoroço em sua première no SXSW e um punhado de elogios rasgados pipocando por aí, seria inevitável não criar euforia e esperar muito do longa.

O resultado é que O Homem nas Trevas (tradução literal do título original do filme, que depois foi batizado como Don’t Breathe) é um bom suspense, mostra que Alvarez manja pra caralho de direção, seu storyline é bem construído, é deveras claustrofóbico, tenso de te fazer prender a respiração (viu o que eu fiz aqui?), afiada trilha sonora e edição de som que ajudam ainda mais a pontuar a tensão crescente. Legal.

MAAAAS…

Sabe o que significa quando tem um MAS, né? Estamos diante de um thriller decente, sim, mas nada muito além disso. Aposto um punhado de GOLPES (era MUITO mais legal falar DILMAS, mas sacumé…) que será uma produção da qual você não lembrará pelo resto da sua vida e passará longe de uma indicação para as pessoas que te pedirem dica DAQUELE SUSPENSE FODÁSTICO IMPRESCINDÍVEL para assistir.

Estátua!

Estátua!

Veja bem, isso não é um demérito, ainda mais por conta do nivelamento por baixo do cinema de terror mainstream que vivemos atualmente. Realmente vale o ingresso, a pipoca, o refrigerante e as unhas roídas, mas tenho minhas dúvidas se ele faria esse FUZUÊ todo e até chegaria às telonas – ao invés de ir direto para um Netflix da vida – se não tivesse um grande estúdio por trás com toda sua máquina de marketing e o nome de Sam Raimi na produção.

E claro, tem a direção de Alvarez, ótima, de verdade, somada ao roteiro escrito por ele ao lado de seu parceiro de crime de Montevidéu, Rodo Sayagues, que elevam um tanto o nível de O Homem nas Sombras para não cair na vala comum de um thriller qualquer que passaria no Supercine.

O que rola aqui é que um trio de gatunos formado por Rocky (Jane Levy, que trabalhara com Alvarez em A Morte do Demônio), Alex (Dylan Minnette) e Money (Daniel Zovatto) resolvem invadir a casa de um recluso homem cego (Stephen Lang), veterano da Guerra do Iraque que perdera a visão em combate, para roubar sua fortuna escondida e assim melhorar de vida, principalmente no caso de Rocky e sua filha pequena. Só que os larápios não fazem ideia que ele não é nem um pouco indefeso como se pressupõe e esconde um terrível segredinho em sua humilde residência.

Nisso vale jogar luz (fiz de novo) na excelente interpretação de Stephen Lang como o Homem-Cego. O cara tá sisudo, soturno, com uma intimidadora presença física e sua voz gutural, além de um senso distorcido de vingança e justiça, num combo que assusta de verdade. Outro destaque do elenco é Levy, que vem deixando cada vez mais de lado o papel de doce menina ruiva da série Suburgatory e se firmando como uma perfeita final girldessa nova década, interpretando intensamente personagens longe do estereótipo das donzelas (em A Morte do Demônio ela é uma viciada em drogas e aqui, uma ladra que quer roubar um deficiente visual).

Justiça cega

Justiça cega

A referência-homenagem de Um Clarão nas Trevas de 1967, dirigido por Terence Young e estrelado por Katherine Hepburn, principalmente as cenas filmadas no completo escuro no porão, é o que mais salta aos olhos (tá bom, eu paro…). Também vale destaque a direção de atores de Alvarez e alguns truques utilizados, como colocar no vilão lentes que restringiam sua visão na baixa luz (e lhe dão uma aparência sinistra pacas), enquanto os demais atores ganharam lentes que parecem dilatar suas pupilas, mas que igualmente limitam suas visões nas sequências de breu total.

O grande pulo do gato é a amoralidade na construção dos arquétipos dos personagens e a falta de existência de um mocinho, uma figura heroica efetiva, sendo que todos os ali são politicamente incorretos e possuem desvios de caráter e intenções completamente deturpadas. Você se vê obrigado, caso tome algum partido – e confesso que é impossível não fazer isso em certos momentos – a torcer vez para o Homem-Cego, vez para os ladrões, em especial quando o personagem de Lang fala pela primeira vez.

O Homem nas Trevas funciona muito bem naquilo que se propõe: é capaz de prender a atenção do público, chocar com seu plot twist, manter o nível de tensão quase sempre lá em cima e oferecer altas doses de adrenalina na intensa batalha de sobrevivência e perseguição até seu final, mesmo com algumas forçadas de barra de roteiro em certas situações.

O filme acaba não trazendo nenhum arroubo de genialidade, requentando fórmulas aqui e ali e perdendo a chance de ser um PLUS A MAIS no subgênero, o que pode ser pouco para a expectativa gerada. Pouco por se tratar do novo projeto de nomes fortes como Alvarez e Raimi e todas aqueles quotes exagerados dos trailers e da campanha de marketing. Mas ainda assim, tá aí um thriller que vale a pena ser conferido.

3 invasões domiciliares para O Homem nas Sombras

ORIGINALMENTE PUBLICADO NO JUDÃO
Meliantes

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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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