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Review 2016: #43 – O Lamento

Produção sul-coreana mostra, mais uma vez, que ainda existem muitas formas de se fazer terror mundo afora


O Lamento é o novíssimo e aclamado filme do diretor sul-coreano Hong-jin Na, que tem no currículo os thrillers sanguinários O Caçador (2009) e Mar Sangrento (2010). O longa disputou a palma de ouro em Cannes, na edição 2016 da premiação, onde provavelmente recebeu taxações diferentes de “horror”, seguindo o tradicional hábito de categorizar os filmes do gênero em outros grupos que o façam parecer mais inteligente ou elaborado que um mero filme de terror. Já falamos disso aqui.  

A verdade é que O Lamento, título cuja tradução significaria algo como lamento, ou lamúria, é um filme único, que explora e incorpora diversos gêneros e influências ao terror, criando um resultado ímpar. Discuti-lo parece uma tarefa árdua, especialmente ao considerarmos que parte de seu charme advém da ignorância, do desconhecimento sobre aquilo que se vê, de forma que quaisquer afirmações em relação a trama podem esfacelar esse mistério. Portanto, serei mais objetivo que o normal e buscarei apenas apontar características sem me ater a detalhes de enredo.

Para quem já é familiar com o cinema sul-coreano, algumas características comuns se fazem presentes. Uma primeira impressão aponta o filme para a obra de Jong-Bong Ho (Memórias de um Assassino, O Hospedeiro), diretor que costuma imbuir em seus filmes um certo tom de humor quase pastelão, que geralmente se dá pela completa alienação e inocência de seus personagens frente a situações de violência extrema.

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É aqui que encontro um dos melhores filmes de terror de 2016?

Logo de início, um policial gordo, já fora dos padrões, acorda com a notícia de uma morte em seu vilarejo, o que suscita curiosidade entre os moradores pouco acostumados ao crime. Contrariando o chamado que recebeu, ele opta por tomar café da manhã com a família, alheio ao que se passava na cena de crime. Ao chegar atrasado, recebe um sermão cômico de seu superior, o que de forma alguma antecipa a brutalidade da cena de crime em que se encontram. Essa ideia de uma força policial paspalhona e despreparada remete diretamente ao filme Memórias de um Assassino, grande obra do cinema coreano contemporâneo.

Outra característica recorrente no cinema coreano, seja thriller ou horror, particularmente é o destino cruel, fatalista, que aguarda seus personagens. Para entender a forma com que os mesmos são tratados por lá, basta imaginar uma cebola que tem suas camadas desfeitas uma a uma, até que sobre apenas o nada, o vazio. Os policiais, apesar do choque, são incapazes de conceber a imensidão da situação em que se encontram e, estando constantemente perplexos, são tão vítimas do destino quanto os moradores da vila. Essa destruição gradual de personagens, que veem suas defesas sendo aniquiladas gradativamente, é acompanhada pela mudança de tom do próprio filme, que vai aos poucos abandonando o lado humorístico em prol de um clima denso e desesperador.

O que parecia um caso isolado e misterioso se torna uma constante na vida dos moradores desse vilarejo, com desdobramentos cada vez mais sinistros tomando forma. Hong-jin manipula o ritmo e o desenvolvimento do enredo de forma a fornecer pequenos indícios que permitem ao espectador criar suas próprias hipóteses e teorias sobre o que está por trás desses crimes.

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O sofrimento e a perplexidade caminham juntos…

Existe aqui uma espécie de subversão do plot twist, pois esses indícios nunca são corroborados dentro da trama, de forma que, caso o espectador acredite que a resposta do mistério é X, isso nunca é confirmado. Em consequência, ao revelar o mistério como causado por Y, não houve necessariamente um plot twist, mas fica a impressão de constantes reviravoltas. A sequência final em que tudo toma forma é uma obra de arte por si só, um dos maiores momentos do cinema de terror no século.

É notável ainda o apuro cinematográfico de Hong-jin, aqui mais aguçado que em seus outros dois filmes. A construção de planos é sempre muito elaborada, especialmente nos planos sequência, além da composição de alguns quadros magníficos que, utilizando o cenário montanhês e interiorano, mais parecem pinturas a óleo. Destaque ainda para a montagem, responsável por criar algumas sequências inesquecíveis e surpreendentes.

Em um ano em que A Bruxa parecia reinar soberana, sobrando na liderança isolada dos filmes de terror, O Lamento chega para mostrar que ainda existem muitas formas de se fazer terror pelo mundo afora e que vivemos em uma época ótima para o gênero!

5 lamentos para The Wailing

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Sensação de quem está perdido e precisa assistir The Wailing novamente

 

 


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

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