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Review 2016: #47 – 12 Horas para Sobreviver: Ano da Eleição

A terceira parte do outrora Uma Noite de Crime, é rica no contexto político, mas mal executada


Acredito ser muito redundante continuar com essa conversa de que vivemos tempos de polarização, onde extremos políticos se expandem cada vez mais e temos um mundo cada vez mais dividido ideologicamente. Ainda mais em tempo da controversa eleição americana entre Hillary Clinton e Donald Trump, ou mesmo aqui em nosso quintal, o embate direita x esquerda na política nacional (ou até na recente eleição municipal de São Paulo).

Entretanto, essa percepção da atualidade tem sido explorada com uma certa frequência dentro do cinema de gênero nesse último ano. Um exemplo recente seria Green Room, onde a luta entre a esquerda punk/anarquista e a direita ideológica são obviamente representadas pelos personagens. Outro filme oriundo de uma série que já vinha lidando com esse mesmo tema é o recém lançado no Brasil 12 Horas para Sobreviver: Ano da Eleição.

Aqui, temos uma continuação direta dos outros dois filmes da série da Blumhouse Pictures, mas com uma picareta mudança no título nacional para confundir e atrair o público que não assistiu a Uma Noite de Crime, com seu lançamento devidamente ignorado nos cinemas. Típica coisa das distribuidoras nacionais para arrebentar o já dificílimo trabalho de catalogação dos títulos em PT-BR.

Para quem não conhece a proposta dessa trilogia, aqui vai um pequeno resumo: Em 2014, o governo norte-americano estava sofrendo um grande colapso econômico e uma superlotação de suas prisões. Uma gigantesca insatisfação toma conta do povo. Devido a isso, é acertado que uma vez por ano, durante 12 horas, todas as atividades ilegais seriam permitidas e todos os serviços de emergência suspensos. O objetivo, segundo o governo, é dar aos cidadãos de bem a oportunidade de expurgar seus males interiores possibilitando um ano de trabalho feliz e próspero. Nesse cenário, o mercado de seguros e de armas desenvolve-se grandemente e a economia começa a se estabilizar.

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Lar dos bravos

Como era de se esperar, aqueles que não tem condições econômicas para se proteger e se armar são os mais afetados pelos “expurgos”. As classes mais abastadas extravasam seus desejos mais sadistas contra os pobres. Esse ponto é o mais trabalhado em toda a série e que alcança o máximo de seu desdobramento nessa terceira parte.

Em 12 Horas para Sobreviver: Ano da Eleição temos uma disputa presidencial que pode mudar o rumo dessa história. De um lado, temos Charles Roan, uma mulher forte e muito idealista que vivenciou na pele as consequências da noite do expurgo. Caso seja eleita, ela promete dar um fim a essa barbárie. No outro polo, o ministro Edwinge Owen enxerga em Roan uma ameaça aos planos de seu partido.

Então, em uma cúpula composta pelos mesmos políticos que criaram a noite do expurgo, decidiu-se que Roan deve ser assassinada. Para que isso seja realizado sem que existam meios de ligar Owen ao assassinato, a morte da candidata deve acontecer na própria noite do expurgo. O filme se passa no entorno da luta de Leo Barnes, um policial aposentado, em cumprir o seu trabalho e manter Owen viva até que as doze horas passem.  

Como subtrama, temos a história de um lojista, Joe Nixon, que junto de seu assistente, decide proteger a seu patrimônio com as próprias mãos, uma vez que a seguradora decidiu aumentar absurdamente o valor do seguro poucas horas antes do expurgo.

Lincoln se revira no túmulo

Lincoln se revira no túmulo

Esse talvez seja o filme mais ambíguo da trilogia. Ele consegue superar seus antecessores em determinados aspectos, mas falha miseravelmente em outros. Durante a noite do expurgo, vemos várias pessoas saindo para cometerem atrocidades pelas ruas da cidade. Essas pessoas estão sempre vestidas com máscaras e se utilizando de armas pouco convencionais para alcançarem os seus propósitos. Essa ambientação tem como propósito evidenciar o modo como a insanidade toma conta das pessoas no momento em que elas são libertadas das regras da lei.

De fato, aqui temos um modo muito interessante de representar essa ideia, porém ele é pessimamente executada no filme. Ao meu ver, a busca pela proximidade com o espectador é algo que grita durante a obra. Valores maniqueístas são postos a todo momento, tentando dar para aquele que assiste um lado para se acomodar. Sendo assim, é necessário buscar dar o máximo de verossimilhança aos acontecimentos da história. Mas isso é deixado TOTALMENTE de lado no momento em que temos pessoas pegando espadas e indo para as ruas sabendo que enfrentarão assassinos armados com o que há de mais sofisticado. Abdicou-se da proximidade com a realidade para dar prioridade a experiência estética. Isso acaba deixando o filme ligeiramente intragável em alguns momentos.

Em contraste, a percepção política do filme não poderia estar mais apurada. O desenvolvimento das questões relacionadas ao sócio-político é extremamente pertinente e próximo a nossa realidade. A capacidade de manipular a política de um país inteiro por detrás dos panos que determinados arquétipos possuem é tão bem estruturada no enredo que fica impossível não aproximar o filme do mundo que vivemos. Isso também acontece em relação aos grupos de resistência que surgem diante desse cenário. Não faria sentido uma situação como essa se arrastar por anos sem que houvesse um levante de qualquer tipo no sentido de combatê-la. Sem falar da pequena espetada que o filme dá de modo brilhante nos extremistas religiosos.

Com uma história extremamente rica no contexto político, mas mal executada em determinados aspectos, 12 Horas para Sobreviver: Ano da Eleição poderia ter alcançado patamares mais elevados se não tentasse apelar tanto no quesito visual. Agradará especialmente os fãs da temática violência urbana.

 

3,5  votos contabilizados para 12 Horas para Sobreviver: Ano da Eleição

A morte pede carona

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Tauami de Paula
Tauami de Paula
Estudante de Letras e de Filosofia, esse apreciador do absurdo e do inexplicável sempre encontrou mais sentido na arte do que na vida. Sendo raramente visto fora de casa, passa os dias lendo, escrevendo e criando teorias sobre tudo aquilo que não entende.

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