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HQRROR #20 – O Despertar de Cthulhu em Quadrinhos

Olha só quem acordou…


Ano passado tivemos o lançamento da incrível HQ O Rei Amarelo em Quadrinhos. Nela, a Editora Draco se empenhou em trazer inúmeros artistas e roteiristas nacionais para criarem histórias que se relacionassem com o terrível universo criando por Robert W. Chambers. Foi um sucesso. O álbum ficou incrível e merecia uma continuação, mas quem seria capaz de criar uma mitologia tão terrível quanto Chambers e que merecesse ser ilustrada? A resposta: H.P. Lovecraft.

Em O despertar de Cthulhu em Quadrinhos somos colocados frente a frente com oito histórias que trazem as monstruosidades do Rei do Indizível. Na história, O salmo do sangue antigo, temos Randolfo, um rapaz que tem sua vida perturbada após ter um terrível sonho com Henrique, um amigo que supostamente cometeu suicídio. Randolfo decidi devolver para a mãe de Henrique alguns objetos que o rapaz morto havia deixado com ele. Esse ato de bondade acaba custando caro.

O que mais me chamou a atenção na história de abertura do álbum foi a simplicidade das personagens. Um dos aspectos mais significativos das obras de Lovecraft é o modo como o enlouquecer arrebata aqueles que encaram os acontecimentos criados pelo escritor. Entretanto, as testemunhas de tais atrocidades sempre são pessoas extremamente eloquentes.

Isso muito provavelmente decorre do desejo de Lovecraft em construir uma narrativa dotada de mais credibilidade. Termos rebuscados e adjetivos poucos usuais marcam a fala dessas personagens. O salmo do sangue antigo nos traz pessoas que atravessariam o nosso cotidiano de modo completamente lacônico e demonstra como os acontecimentos lovecraftianos as afetariam de modo extremamente verossimilhante.

Esse movimento, de trazer aos comuns o enlouquecimento, dando ao leitor um lapso de como seria enfrentar algo indizível é uma conquista alcançada mais de uma vez no desenrolar da HQ. Contudo, também encontramos histórias mais “clássicas”, no sentido de se utilizarem de personagens com maior renome.

Já na segunda história, Os tambores de Azathoth (que diga-se de passagem, é um nome maravilhoso), o protagonista é ninguém menos que Julius Robert Oppenheimer. Esse grande físico é considerado um dos pais da bomba atômica e devido às consequências de sua criação, passa a ter pesadelos terríveis para qual não é capaz de encontrar nenhuma explicação.

cthulhu-e1470938672785Desesperado, Oppenheimer decidi apelar para áreas em que nunca se aventurou e vai ao encontro do mago Aleister Crowley. Com um gigantesco conhecimento do oculto, Crowley começa a elucidar para Oppenheimer os possíveis significados desses sonhos horríveis e a ligação que eles possuem com os contos de um certo escritor de Providence ainda pouco conhecido.

Aqui, o ponto alto é a excelente releitura histórica desenvolvida. Particularmente, eu acho fantástico o modo como somos capazes de deslocar a insensatez humana para fatores externos. Aqui observamos como determinadas ações são tão abomináveis que não somos capazes de aceitar que elas foram causadas por seres humanos. É preciso encontrar um outro fator que justifique tanta desgraça e em Os tambores de Azathoth essa justificativa é bem mais terrível do que conseguiríamos imaginar.

Em seguida, Macio nos mostra o modo como uma doença desconhecida está acabando com os corpos e as mentes dos habitantes de uma cidade do nordeste brasileiro. A situação vai se agravando e os políticos locais nada fazem além de clamarem que a doença que se espalha é um teste de Deus para o povo.

O enredo dessa história é um pouco mais incisivo na realidade. Existe uma crítica política explícita que é metaforizada nos acontecimentos que se desenrolam. A icônica figura do bode como um ser que se contrapõe aos que dizem serem enviados de Deus, a transformação dos corpos dos infectados em vermes, a maçã comida por uma das personagens. Tudo nessa história tem peso simbólico e acredito que ela deva ser lida mais de uma vez para que todos os seus arquétipos sejam compreendidos.

Sob a insana luz traz um interessante desdobramento dos contos de Lovecraft. Dois detetives vão a uma pequena cidade investigar o desaparecimento de um grupo de cientistas enviados lá para coletarem dados sobre um meteoro que caiu naquela região. Rapidamente os detetives entendem que as fatalidades que ocorreram com aqueles que eles buscavam são frutos de acontecimentos indizíveis. Essa mesma dinâmica veloz de apresentar os fatos acontece na história seguinte, Clhithmaek’ tyvih. Nela, dois antropologistas vão para a Amazônia se encontrar com uma tribo isolada do mundo civilizado. Eles desejam estudar um ritual que aqueles indígenas irão executar. O final é fulminante para os nossos antropólogos.

Outra cutucada em questões dogmáticas é feita em A linguagem da fé. Nessa história acompanhamos o desespero de um alcoólatra que ao se unir a uma estranha igreja, busca recuperar o pouco que resta de sua vida. O lento enlouquecimento do protagonista e o modo como ele é atraído para o culto que supostamente deveria salvá-lo, traçam um paralelo brutal com o esquema montado dentro de determinadas igrejas para manter a fé de seus fiéis.

A história seguinte traz uma pegada oriental à coletânea. Em O caso da truta salmonada um sushiman ligeiramente cansado de sua rotina encara mais um dia de trabalho até que clientes pouco usuais adentram as portas de seu restaurante. Existe um quê de humor negro nessa história devido aos traços usados pelo artista, que muito lembram os mangás.

Fechando de modo espetacular o álbum, temos a minha favorita O que dorme. Aqui, uma jovem moradora de uma pequena e pacata cidade começa a perceber que os seus conterrâneos estão perdendo noites e mais noites de sono. Em algum tempo, todos os moradores da cidade estão com insônia e a realidade passa a ser um pesadelo compartilhado.

Todos as história são ilustradas de modo fantástico. Não há como colocar defeitos no trabalho gráfico. Uma única questão que me deixou um tanto decepcionado foi a utilização do tom verde. Em sua antecessora, O Rei Amarelo em Quadrinhos, todos os momentos em que existia uma coloração, ela era utilizada como um indicativo da interferência do sobrenatural na realidade. A cor surgia como um sinal, um ponto que gritava um sério desarranjo no mundo da história.  Já aqui, esse movimento é feito de modo arbitrário. Existem algumas histórias no álbum em que o verde, que foi a cor escolhida para caracterizar a HQ, é sim utilizado como recurso narrativo mais simbólico. Mas em outras ele serve simplesmente como sombreamento. Isso acaba diminuindo um pouco a profundidade da obra como um todo, mas nada que seja absurdo.

O Despertar de Cthulhu em Quadrinhos é incrível e DEVE ser lido. Sabendo que ainda virão mais revistas com temáticas similares nos próximos anos, acredito que estamos presenciando o nascimento de umas das séries de quadrinhos nacionais de horror mais significativas dos últimos tempos. A Editora Draco merece ser parabenizada pela qualidade do trabalho que está desenvolvendo e deve ter a atenção de todos os fãs do gênero.

 

Ficha Técnica:

O Despertar de Cthulhu em Quadrinhos – 2016

Roteiro: Vários

Arte: Vários

Editora Draco

cthullhuhuuhu


Tauami de Paula
Tauami de Paula
Estudante de Letras e de Filosofia, esse apreciador do absurdo e do inexplicável sempre encontrou mais sentido na arte do que na vida. Sendo raramente visto fora de casa, passa os dias lendo, escrevendo e criando teorias sobre tudo aquilo que não entende.

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