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HQRROR #21 – Rio Negro

Quando Lovecraft e o folclore brasileiro se misturam


Quando crianças, ouvimos muitas histórias que nos foram contadas por nossos pais e que se perpetuam há tanto tempo que perdemos de vista. Ao crescermos, enxergamos lendas como a da Cuca, a do Saci Pererê e da Mula-Sem-Cabeça como apenas histórias de ninar vindas do nosso vasto folclore. Entretanto, vamos gastar um segundo para analisar o terror por detrás de cada uma dessas história:

Na primeira, temos uma bruxa maligna devoradora de crianças com aparência de réptil. Na outra, encontramos um garoto sem uma perna, com poderes sobrenaturais e um humor doentio. Por fim, uma mula decapitada corre desenfreadamente cuspindo labaredas de fogo pelo toco remanescente. O folclore e o bestiário brasileiro, quando analisados com mais proximidade, se mostram terríveis e dignos de serem comparados a outras monstruosas mitologias espalhadas mundo afora.

Agora, o que pode acontecer se pegarmos essas histórias e as misturarmos com outras mitologias igualmente macabras? O que aconteceria se uma mente doente achasse um modo de unir esses seres das matas amazônicas com as indizíveis abominações de H.P. Lovecraft? Pois bem! Ikarow criou e ilustrou a fantástica HQ Rio Negro pensando nisso.

A primeira edição traz uma introdução extremamente bem-feita de uma história que conseguiu elevar muito as minhas expectativas sobre o seu desenvolvimento.Em 1997 um grupo de especialistas encontra uma espécie de peixe nunca antes vista no Rio Amazonas.

 14800743_377234515999983_1565264724_nEntretanto, sendo esse o único exemplar encontrado, as pesquisas a respeito dessa nova espécie se aquietam e leva quatro anos até que uma nova pista surja sobre o local exato onde se pode encontrar esse misterioso peixe. Diante dessa nova descoberta, dois membros do antigo grupo de pesquisa que o encontrou se dispõem a ir atrás do animal. Junto de uma fotógrafa que possui um passado conturbado de pesadelos habitados por terríveis criaturas aquáticas humanóides, eles adentram a selva e rumam seus destinos em direção a uma tribo que pode ajuda-los nessa busca.   

Ao abrir as páginas da revista somos postos imediatamente dentro de um universo onírico aterrador que muito nos lembra o interior do estômago de uma criatura monstruosa. Essa organicidade que se apresenta captura perfeitamente a essência das histórias de Lovecraft em que a realidade é abalada por coisas que não podem ser. Situações impossíveis de serem racionalizadas de modo pleno pela mente humana são mostradas de modo grotesco para simbolizar o limite da própria humanidade diante das aterradoras possibilidades que deverão ser mostradas nas próximas edições.

Seguindo a leitura, vemos a rápida e eficiente apresentação das personagens principais: Margot Walker se mostra uma mulher apaixonada, buscando alcançar seu sucesso enquanto fotógrafa e com uma ligação ainda não explicada com o todo da história. Elton Zuanon é um pesquisador que vê na possível descoberta do local exato onde o peixe misterioso se encontra uma oportunidade de alcançar fama e a riqueza. E por fim Abaré, um indígena que será o guia do casal e possui profundos conhecimentos a respeito das lendas que percorrem a Amazônia.

A disposição dos quadros e o modo como a narrativa é dividida é quase cinematográfica. Temos uma quebra entre a primeira e a segunda parte da edição que consegue iniciar e finalizar cada um desses dois momentos com uma exatidão digna de trabalhos literários ou de grandes séries televisivas. Pequenos detalhes, como a forma que o ilustrador nos aproxima do rosto das personagens para demonstrar a emoção por detrás do momento ali vivido, evidenciam o esmero por detrás da produção do álbum. Essa organicidade que habita as primeiras páginas da HQ segue por todo o traçado da mesma, trazendo uma leitura extremamente confortável e bem focada no desenrolar da narrativa.

Com uma produção impecável em todos os níveis de sua expressão, Rio Negro é um excelente exemplo da capacidade que os quadrinhos independentes têm de superar em muito trabalhos que nos são apresentados por grandes editoras. Sem me aprofundar muito nos motivos, vejo a história dessa primeira edição sendo muito superior a toda a narrativa apresentada em Papa-Capim – Noite Branca, por exemplo.

Agora, aguardo ansiosamente para o que virá na próxima edição desse pesadelo à tupiniquim e espero sinceramente que ele não deixe a peteca cair.
Ficha Técnica:
Rio Negro – #1 – 2016
Roteiro: Ikarow
Arte: Ikarow
Site da HQ – www.facebook.com/rionegrohq

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Tauami de Paula
Tauami de Paula
Estudante de Letras e de Filosofia, esse apreciador do absurdo e do inexplicável sempre encontrou mais sentido na arte do que na vida. Sendo raramente visto fora de casa, passa os dias lendo, escrevendo e criando teorias sobre tudo aquilo que não entende.

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