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TWD: O dia chegará em que você não mais será

Após este retorno sanguinário e sádico de The Walking Dead, nada será como um dia já foi.


Faz dez anos desde o primeiro dia em que li The Walking Dead (ou Os Mortos-Vivos, como foi batizado aqui). Na época, o arco do Governador começava a se formar e os zumbis ainda não eram os ícones do horror pop que se tornaram nos anos 2010. A série, por sua vez, entrou na minha vida há seis anos, antes que eu me interessasse por escrever sobre cinema e televisão.

Nesse momento, escrevo a respeito da mesma com o peso de 86 episódios e 162 edições sobre meus ombros. Essa bagagem representa uma profusão de emoções e vivências, boas e ruins, que tornam a série especial para mim, mas nunca acima de críticas. Ano após ano, me vi no caminho contrário de muitos fãs, em uma relação de amor e ódio, que hoje me faz defender a série com uma energia estranha. Dito isso, posso dizer que essa crítica tem um valor especial. E não se preocupem, ela é livre de spoilers.

Ameaça

A sexta temporada de The Walking Dead construiu um Vilão. Timidamente, como que uma leve brisa sacudindo folhas de árvores, as forças de Negan surgiram de forma gradativa. Por um longo tempo foram rechaçados e destruídos pelas forças de Rick, que, embriagado de poder e raiva, não ponderava o peso de suas ações. No último episódio da sexta-temporada, a força do grupo de Rick se mostrou frágil e quebradiça frente ao poderio numérico e territorial do oponente. A tempestade havia se formado e eles estavam no meio dela.

As falas brilhantemente discursadas por Negan, nos minutos finais do episódio, figuram entre os pontos mais altos da série. A performance de Jeffrey Dean Morgan foi inspiradíssima e arrepiante. No momento em que ele levantou Lucille para desferir o primeiro golpe contra um dos personagens já rendidos, fomos surpreendidos com a dúvida e a expectativa.  Deveríamos esperar por mais alguns longos meses antes de descobrir quem seria a vítima.

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Sádico e Perverso são os sobrenomes de Negan

Provocação

Nós, espectadores e fãs, possuímos expectativas próprias para o andamento de tudo aquilo que assistimos. Todos temos os personagens preferidos ou que odiamos, logo, em momento algum da história existiu ou existirá uma história que atenda todos os espectadores, especialmente quando falamos de dezenas de milhões de pessoas. Com isso em mente, é importante entendermos e aceitarmos o fato de que os acontecimentos de uma série são determinados como parte da construção de uma ou muitas histórias maiores.

E mais importante ainda, a forma como esses acontecimentos são narrados, são responsabilidade de uma equipe criativa que concebeu aquela trama. Quando escolheram por não revelar quem morreu, lançaram um desafio à um público frequentemente bajulado e desejoso de prazeres imediatos. Um gancho daqueles de revirar o estômago, que foi capaz de instigar todos os espectadores em consonância, sem ser uma mera tentativa de prender os fãs. Durante meses, até S07E01 ser finalmente exibido, houve questionamentos, confabulações e , o temor em ver seus personagens prediletos serem despedaçados por um vilão terrível.  

A mesma provocação imposta aos espectadores, fora imposta aos personagens, especialmente a Rick, único com quem Negan dialogou, reconhecendo-o como o líder daquele pequeno e fraco grupo. O início do episódio retomou a provocação do season finale anterior e tornou-a ainda mais agressiva. O brilhante e perverso discurso de Negan que encerrou a temporada passada evoluiu até tornar-se uma “conversa” particular entre Negan e Rick. O novo vilão, que comeria o Governador de café da manhã, continuou provocando Rick até o limite, para então humilhá-lo ainda mais. A relação dos dois remonta à mitologia grega, mais particularmente à história de Prometeu, o titã que causou a ira dos Deuses e foi condenado a um sofrimento eterno por Zeus.

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“Unidunitê” do inferno

Tormenta

O sofrimento tomou contornos que fã nenhum estava preparado para encarar. Alguns assistiram incólumes ao massacre causado pela sede de sangue de Lucille, o “bastão-vampiro” de Negan. Nós, meros espectadores, estávamos ali, lado a lado com aqueles personagens, sofrendo com eles de expectativa, anseio e dor. Alguns à mercê de Negan estavam na série desde os primeiros episódios, o que significa que “convivemos” com eles por sete anos, tempo suficiente para os considerarmos amigos, ou pelo menos, é assim que os mais aficcionados se sentem.

Dentre as várias formas com que o horror é representado em The Walking Dead, neste episódio inicial ele se manifesta na completa destruição desse laço entre espectador e personagem. O alvo de Negan é massacrado impiedosamente pelas batidas do taco e o gore explícito e grotesco garante que não haja qualquer sinal de dúvida: Chegará o dia no qual você não será – diz o título do episódio. A provocação que Negan dirigia aos personagens, também o faz aos espectadores. A demonstração de força do antagonista, que pretendia quebrar os personagens, também quebra aquele do outro lado da tela da tevê.

Dentre os vários méritos deste reinício, o brilhantismo com o qual o vilão dialoga com ambos é o mais notável. Notável ainda que após tantos episódios, haja potencial para surpreender não apenas o público original da série, quanto também o leitor dos quadrinhos, que já lidou com doses cavalares de brutalidade tantas vezes.

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Pensando qual a próxima coisa terrível a ser dita

Luto

A estrutura narrativa utilizou de flashbacks em diversos momentos, tanto para fazer uma ligação pessoal entre Rick e companhia, quanto para contar quem foi a vítima. Tal estrutura gerou um potencial dramático imenso, sem pieguice, que acompanhou perfeitamente a provocação de Negan. Isso só foi possível graças a muito criticada decisão de não revelar quem foi a vítima no episódio anterior. Se o tivessem feito, estariam apenas satisfazendo momentaneamente o desejo e a curiosidade do público e abdicando das possibilidades aqui exploradas.

Um sentimento interessante suscitado pelo episódio é a impotência e a realização de que não estamos no controle do conteúdo que assistimos. Algo parecido ocorre em Game of Thrones, mas sem a mesma intensidade já que se trata, na maioria das vezes, de personagens secundários, de passagem breve ou caráter dúbio. A possibilidade REAL de alguém como Michonne morrer provoca arrepios na nuca de qualquer fã. Impossibilitados de agir para impedir que Negan matasse qualquer um que admiramos, só restou abaixar a cabeça e nos rendermos. Mais uma vez, esse paralelismo é fantástico. Genial.

Infelizmente, a morte é impiedosa e chega para todos. Poucas vezes na história da televisão um personagem teve uma morte tão violenta e explícita. O trabalho de maquiagem do time de Greg Nicotero, ainda na vanguarda dos efeitos práticos, se superou de forma assustadora. Não há quem possa assistir ao episódio sem ficar incomodado. Cada golpe físico de Lucille, o bastão-vampiro, rendia também um golpe emocional e psicológico em todos que assistiam a cena, impotentes. A angústia, a crueldade, o sadismo, foram tão intensos que ninguém nunca mais voltará a ser o que fora um dia.

O luto e a dor desesperada desses personagens ditarão o rumo da sétima temporada, que provavelmente tomará contornos ainda mais dramáticos que os vistos até o momento. Na posição de fã das duas versões da história de Robert Kirkman, acredito que quanto mais próxima dos quadrinhos, mais bem amarrada a trama se torna. Nas primeiras temporadas, as constantes mudanças eram acompanhadas de textos e ações mal escritos, que pareciam dar voltas absurdas e desnecessárias para alcançar o mesmo ponto que os quadrinhos. A partir do final do arco de Terminus, com a aparição de Alexandria, houve uma reaproximação entre as duas mídias que tem rendido alguns dos momentos mais marcantes da televisão atual, justificando a popularidade da série e garantindo sua continuação por mais tempo.

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Um motherfucking TIGRE. Sem comentários.

Futuro

A proposta de Kirkman era continuar a HQ pelo tempo que quisesse, acompanhando os personagens dentro daquele universo. Até o momento atual, o enredo já desenvolvido nos quadrinhos é suficiente para render outras três temporadas para as telinhas, o que quer dizer que continuaremos com The Walking Dead por um bom tempo, ainda mais com os números impressionantes de audiência. E o fato de coisas tão interessantes ainda acontecerem em um momento tão tardio quanto uma sétima temporada, é um sinal mais que positivo, quando corriqueiramente, séries começam a perder o fôlego.  Para quem não é familiar ao gibi, algumas coisas muito interessantes já estão confirmadas, como por exemplo a participação de Ezekiel e seu tigre de estimação. Exatamente o que você leu, um tigre.

Ah, aparecem zumbis também. Às vezes até me esqueço quem são os mortos ainda vivos.

Walkers - The Walking Dead _ Season 6, Episode 16 - Photo Credit: Gene Page/AMC

Zumbis, não podemos esquecer deles. Sempre vagando por aí.


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

2 Comentários

  1. Yuri disse:

    Era melhor ter ido ver o filme do Pele ! se for pra passar coisas assim , ficamos em GOT )=

  2. Valerio disse:

    Lembrando que o título do episódio é a frase que Jenner fala para Rick no CDC.

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