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HQRROR #22 – A Casa do Fim do Mundo

Onde Judas perdeu as botas…


A transposição dos limites entre as mídias é sempre algo delicado de se fazer. Cada uma delas é dotada de singularidades impossíveis de serem devidamente representadas de outro modo senão aquele em que se encontram. Isso torna nossas leituras de trabalhos adaptados repleta de ressalvas.

Frases como “no livro é melhor!” e “isso não funciona aqui!” são comumente proferidas enquanto nos envolvemos com a leitura de uma obra desse tipo. Geralmente, isso acontece devido à ausência de respeito pelos limites de cada mídia. Acreditar que a leitura de uma HQ deve ser feita da mesma forma que a de um livro é uma crença precipitada que diminui muito a experiência particular de cada uma dessas mídia. Sendo assim, toda leitura deve ser feita sem que haja uma comparação muito severa e para que se extraia o máximo possível da obra. Com esse pensamento em mente, me propus a ler A Casa do Fim do Mundo.

Essa HQ, lançada no Brasil pela Opera Graphic, traz uma adaptação do livro The House on the Borderland escrito pelo consagrado William Hope Hodgson. Por meio das lembranças de um jovem inglês, que surge desamparado logo em nosso primeiro contato, somos apresentados às tristes ocorrências vivenciadas pelo mesno e por seu companheiro de viagem. Depois de se envolverem em uma briga de bar, os dois fogem desesperadamente por entre uma mata desconhecida e terminam encontrando os escombros de uma construção. Nesse local, o rapaz descobre um baú que contém o diário do misterioso Byron Gault, um homem que supostamente morou na casa que antes ali havia. A partir daí, somos postos diante dos terríveis acontecimentos que terminaram com os dias (e com a sanidade) de Gault.

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Por se tratar de uma história dentro de uma outra história, a constituição ambígua da narrativa se evidencia constantemente no desenrolar da trama. Existem situações nas quais os escritos do diário nos levam às alucinações vividas por Byron, e essas alucinações nos fazem questionar o estado mental daquele que relata. Isso acontece novamente quando voltamos ao rapaz inglês, aquele que narra ao leitor e que também tem visões terríveis enquanto nos relata seus infortúnios. Essa aclimatação se torna mais complexa quando paramos para analisar o modo como a HQ é ilustrada. Sendo inteiramente compostos de preto, branco e cinza, os quadros trazem um traço carregado que geram uma claustrofobia visual em quem lê. Esse efeito nos aproxima das conturbações mentais e emocionais dos personagens, tornando o percurso da narrativa igualmente sufocante para o leitor.

Ainda que eu tenha achado a leitura de A Casa do fim do Mundo fantástica como uma obra individual, acho válido rememorar alguns dizeres que são postos na introdução da HQ por ninguém menos que Alan Moore, sobre a importância do autor do livro que originou o álbum. Moore demonstra muita sensibilidade fazendo uma interessante comparação entre a famigerada casa, que surge nas duas versões da obra (a literária e a imagética), e os processos inconscientes da psique humana. Esse paralelo cria uma complementaridade entre os dois modos de se apresentar essa narrativa. Repetindo as palavras do Mago dos Quadrinhos, recomendo fortemente aos leitores mais curiosos a obra original para que as distinções e as aproximações entre os trabalhos se tornem mais claras.

Com um final aberto e uma climatização de tirar o fôlego, A Casa do fim do Mundo traz um horror amplo e sofisticado, capaz de abranger toda a condição humana. Sendo um álbum complexo, exigirá do leitor calma e dedicação na sua leitura.

Ficha técnica:

A Casa do Fim do Mundo – 2002
Roteiro: Richard Corben e Simon Revelstroke
Arte: Richard Corben
Editora Opera Graphica

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Tauami de Paula
Tauami de Paula
Estudante de Letras e de Filosofia, esse apreciador do absurdo e do inexplicável sempre encontrou mais sentido na arte do que na vida. Sendo raramente visto fora de casa, passa os dias lendo, escrevendo e criando teorias sobre tudo aquilo que não entende.

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