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Bibliofobia: #17 – Larva

Livro de estreia da escritora Verena Cavalcante relata o horror real na infância 


Em todo o gênero do horror, seja nos cinemas ou na literatura, encontramos várias menções à crianças e infância, num contexto geral. Na grande maioria das vezes, elas são representadas em uma dualidade: ou são as potenciais vítimas que devem ser protegidas a todo custo ou então, são os algozes, os vilões. Ambos os casos, a ojeriza e o pavor causados são sempre muito mais intensas, porque acreditamos que os infantes são seres humanos puros que devem ter sua ingenuidade preservada a todo custo.

Em Larva, da escritora paulistana Verena Cavalcante, essa máxima é levada ao lado oposto. Em seus contos, Verena nos mostra exatamente o momento da perda da inocência de algumas crianças, e o que pode ser ainda mais indigesto é que todas as histórias são contadas na primeira pessoa. É como se o leitor pudesse ouvir, de maneira direta e sem rodeios, histórias horripilantes contadas diretamente da boca da criança que a vivenciou.

larva

E não só estamos falando do horror sobrenatural a qual estamos acostumados. Nós, adultos, por muitas vezes nos esquecemos aquela sensação de ser diminuto, de ser menor. Esquecemos que, na nossa infância, o mundo dos adultos parecia ser aterrorizador. Crescer é assustador. E não me refiro a memes facebookianos, daqueles que dizem que pagar os boletos é a pior coisa que nos espera na vida adulta. Estou falando de perda de familiares, de doenças, de abusos, de violência, de todo esse sofrimento a qual somos poupados no início de nossas vidas.

Logo no conto que nos recepciona em Larva, “Macaúba”, uma garotinha sitiante de vida dura e simples, apega-se na sua religiosidade para lidar com o assassinato brutal e misterioso de um colega de escola. Em contrapartida, “Rato” nos mostra um menino morador de uma comunidade pobre que perde a fé em Deus e na vida ao ter um contato muito próximo com a violência policial. As histórias passam por temas chocantes, como pedofilia, racismo, homofobia, e ter esses pontos observados tão de perto por crianças que não tem a dimensão da moralidade, do que é certo ou errado, nos deixa com um gosto amargo na boca e uma sensação de impotência enorme. Somos meros espectadores de histórias de terror cruas e densas.

Em seu livro de estreia, Verena Cavalcante consegue nos contar oito histórias com uma fluidez na escrita que nos passa a sensação de estar ouvindo um causo de um parente ou um vizinho, numa conversa informal de fim de tarde, em volta de uma mesa. E a sensação de que aquelas crianças poderiam ser próximas a nós é que faz com que Larva seja um livro de horror tão pesado e indigesto. Aquelas crianças, tendo sua infância podada de maneira tão real e cruel, poderiam ser suas vizinhas, moradoras da sua rua. Poderiam ser algum parente distante, a qual você não tem muito contato.

 

Poderia ser você.


Ficha técnica:

Larva  Verena Cavalcante

Lançamento  2015

Editora  Oito e Meio Ltda


Niia Silveira
Niia Silveira
Mentalidade de Jack Torrance num corpinho de Annie Wilkes. Foi criada em locadoras e bibliotecas e se apegou ao universo do horror ainda pequena. Não cresceu muito em estatura de lá pra cá, mas sua paixão por sangue e desgraça aumenta a cada dia.

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