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Sobrenatural e suas referências

Em meio ao caos apocalíptico divino, a décima primeira temporada de Sobrenatural guardou algumas surpresas para os fãs do horror


Sobrenatural ou Supernatural, seu título original e como muita gente ainda conhece a série, é um dos maiores fenômenos televisivos existentes. No ar desde 2005, o televisivo caminha firme e forte com números consideráveis de audiência após doze temporadas. Sobreviveu ao suposto fim planejado para a quinta temporada, sobreviveu às mudanças de formato na televisão, ao mercado cada vez maior e ao ego dos atores. Assim como seus protagonistas, Sam e Dean, a série provou-se resiliente, movida puramente por carisma e uma base de fãs fiéis.

Em meio aos embates cósmicos que ditaram o rumo da décima primeira temporada, os irmãos Winchester tiveram que lidar com casos relativamente simples, que não envolviam o fim do mundo e sim algumas vidas em particular. Esses casos foram retomadas pontuais ao formato “monstro da semana” – estilo de episódio fechado consagrado por Arquivo X, de onde são oriundos dois produtores executivos da série, John Shiban e o falecido Kim Manners –  que era dominante em seus primeiros anos. Mesmo que considerados filler – ou encheção de linguiça – pela maioria, há sempre um charme nostálgico e divertido por trás desses episódios.

A inspiração para os monstros/ criaturas desses episódios sempre variou entre mitologia e cultura popular até a literatura e, finalmente, o cinema. A décima primeira temporada, em especial, mostrou-se inspirada pelo horror contemporâneo de forma bem interessante, ressaltando mais uma vez que o gênero não só está vivinho da silva, como segue influenciando outras mídias já estabelecidas, como a própria televisão.

Atenção, os comentários abaixo incluem pequenos SPOILERS em relação aos episódios em si, mas não em relação a trama da temporada!

“E07S11 – Plush” & Clown (2014)

O sétimo episódio teve o retorno da Xerife Donna, alívio cômico recorrente na série desde a nona temporada. Donna buscou o auxílio de Sam e Dean para lidar com um criminoso bem peculiar: um assassino vestindo uma fantasia de coelho da qual ninguém parecia capaz de tirá-lo. Ao longo do episódio, algumas outras pessoas também se tornam assassinas após vestirem fantasias, incluindo uma de palhaço.

No filme Clown, de Jon Watts, um pai de família veste uma fantasia antiga de palhaço e se vê preso dentro dessa roupa que, aos poucos, o transforma em um monstro assassino. A semelhança é pequena, mas a influência parece clara, já que fantasias malignas não são um tema tão comum. Outra semelhança está nas últimas vítimas dos fantasiados, que são mãe e filho nos dois casos. A bem da verdade, a trama do filme tem todos os elementos de um episódio de Sobrenatural, só que sem os Winchester.

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A fantasia de coelho do episódio “Plush” transmite uma vibe Silent Hill 3.

“E13S11 – Love Hurts” & Corrente do Mal

Neste episódio, uma babá, que fazia as vezes de amante do pai da criança, é assassinada por ele. O grande problema é que na hora do crime, o pai estava em um restaurante lotado na companhia da mulher. Inicialmente, os irmãos pensaram se tratar de um transmorfo, mas logo descobrem estar na presença de um Qareen, entidade que consegue assumir formas diferentes para cada vítima. O Qareen se liga a uma pessoa como uma maldição, que pode ser transmitida através de um beijo. Após matar a última pessoa beijada, ela salta para a pessoa seguinte.

O grau de semelhança com Corrente do Mal é grande, com a diferença de que a “coisa” assume formas aleatórias, enquanto o Qareen se transforma na pessoa que a vítima mais deseja. E claro, a maldição que, até então era transmitida pelo sexo, na série é transmitida pelo beijo, claramente uma forma amenizada de lidar com o tema na televisão, para um público maior e classificação PG-13.

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O episódio Love Hurts (direita) foi a versão para menores de Corrente do Mal (esquerda).

“E16S11 – Safe House” & Sobrenatural

Uma garotinha entra em um coma misterioso. Os médicos não conseguem encontrar uma explicação, muito menos uma solução para o problema. A única coisa estranha é uma marca de mão na perna da garota.

O episódio intercala uma investigação realizada por Bob e Rufus no passado, onde uma criança também entrou em um coma misterioso, com a investigação de Sam e Dean no presente. As duas crianças moravam na mesma casa e foram vítimas de uma entidade chamada Devorador de Almas, um ser que habita uma dimensão paralela, exatamente igual a casa, porém com uma atmosfera sombria e assustadora, chamada de O Ninho. Lá, essa criatura vive junto com as “pessoas tristes”, espíritos de outras vítimas que vestem roupas de época e ficam estáticos, como se estivessem participando do tal desafio dos manequins.

A referência à Sobrenatural é indiscutível! A retratação do Ninho e dos espíritos que lá habitam é exatamente a mesma do plano espiritual conhecido como The Further, na franquia de James Wan. Considerando que várias pessoas não são lá muito chegadas ao final do primeiro filme, um tom mais dramático e menos alegórico como o apresentado na série poderia ter sido melhor recebido.  

Não é a toa que o título em português de Supernatural e Insidious seja Sobrenatural!

Não é a toa que o título em português de Supernatural e Insidious seja Sobrenatural!

“E22S11 – We Happy Few” & A Bruxa

Se nos episódios anteriores as referências eram abertas e relacionadas ao tema central de cada episódio, essa última foi bem mais sutil, praticamente um easter egg. No penúltimo episódio da temporada, Rowena se reúne com uma outra bruxa chamada Clea para tentar encontrar uma escapatória para o iminente fim do mundo. Clea reage negativamente a presença de Rowena, acusando-a de ter assassinado outras bruxas poderosas, quando estas se recusaram a unirem-se a ela. Dentre as bruxas assassinadas, encontra-se uma certa Thomasin. Coincidência? Acho que não! O episódio prestou uma merecidíssima homenagem ao filme definitivo sobre o tema e uma das maiores obras do cinema de gênero do século XXI, ao batizar a bruxa com o nome da protagonista do filme.

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Aparentemente, Rowena assassinou Thomasin!

A décima primeira temporada ainda foi fortemente influenciada por John Carpenter – pessoas presas em uma delegacia com uma névoa assassina ao redor, além de outras coisas tantas. O 19° episódio, por exemplo, foi dirigido por Eduardo Sanchéz (A Bruxa de Blair, Exists) e traz uma forte influência do trabalho do diretor. O segundo episódio, Form and Void, que mostrou Sam buscando uma cura para a praga zumbificante lançada pela Escuridão, foi influenciado, em menor grau, por Guerra Mundial Z.

Se você leitor percebeu algo mais, nos conte! Agora é só ficar de olho nas surpresas da décima segunda temporada!

Quando até o cabelinho é igual!

Quando até o cabelinho é igual!


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

1 Comentário

  1. junior disse:

    ”ao filme definitivo sobre o tema”
    Suspiria ainda existe

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