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HQRROR #24 – Harvest

O preço de uma vida será proporcional ao valor comercial de seus orgãos 


Tudo aquilo que corta a carne deixa marcas. Doenças, balas, lâminas… existe uma infinidade de fatores que acarretariam em dores físicas agonizantes (e, às vezes, fatais). Essa é a máxima da nossa delicada condição nesse mundo. Não importa o quanto acreditemos em planos astrais ou em vida após a morte, ainda seremos um amontoado de tripas e vísceras que estão fadadas a sucumbir diante das intemperes da realidade. Harvest, minissérie de cinco edições, tratará sobre o desespero que vivemos ao nos conscientizar disso, e como alguns lutam contra tais ditames.

Bejamin Dane não tem mais nada. Seus vícios em bebidas e outras drogas destruíram sua carreira médica. Depois de ser responsável pela morte de uma paciente na mesa de cirurgia e ter todos os seus direitos como médico revogados, suas opções para sustentar seus hábitos destrutivos começam a limitar-se. Depois de alguns meses vivendo em condições lastimáveis, uma nova oportunidade de emprego surge para o nosso anti-herói: cirurgião no mercado negro de órgãos.

Entretanto, sua consciência começa a perturbá-lo assumindo a forma do filho da paciente que ele havia matado. Essa alucinação passa a cobrar uma atitude do médico a respeito do que ele anda fazendo, e, abalado pela culpa e pelos vícios, passa a lutar contra uma grande e rica organização responsável por esse horrível comércio.

Embora vejamos uma premissa extremamente interessante e digna de um filme de Eli Roth, a narrativa peca em seu foco. Muitas vezes, durante a leitura, me senti um tanto perdido entre tentar compreender os personagens, a relação que eles possuem uns com os outros, e a dinâmica da própria história. Talvez isso se deva a velocidade da trama. A toada acelerada, que dita o enredo, cria um ligeiro empobrecimento de questões que merecem mais cuidado ao serem postas.

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Pouca atenção é dada às pessoas que têm seus órgãos extirpados para que os ricos possam continuar vivos. Quase não se fala sobre como a organização atuante nesse mercado se relaciona politicamente com os seus clientes. Até mesmo o modo como Dane lida com suas alucinações (ou mesmo se elas são, de fato, alucinações) fica negligenciado em prol da necessidade de se chegar à ambígua conclusão da série.

Se, por um lado, o roteiro desse trabalho nos decepciona, por outro, a arte o enaltece. Mesmo com uma estranha articulação dos quadros, que às vezes confunde o leitor e gera um spoiler acidental, a coloração é extremamente bem-feita, e é isso que caracteriza Harvest como uma obra de horror.

Os tons sombrios e opacos, que perpassam a maior parte da série, contrastam fortemente com o vívido vermelho e branco usados para colorir os ambientes assépticos, e o sangue espalhado pelos mesmos, gerando um realismo visceral muito similar àquele utilizado no subgênero body horror. Esse realismo é especialmente retratado na caracterização do sangue. Ele se espalha sem o limite de um traçado, como se tivesse sido arremessado para dentro da imagem, imprimindo a literal importância desse fluído orgânico e simbolizando a constituição evanescente da vida.

Devo dizer que, ao final, me senti decepcionado em ver tanto potencial ser desperdiçado. Especialmente por ter ficado tão encantado com o visual da obra. Ainda assim, não me arrependo da leitura, mas não recomendo que ninguém siga por esse percurso mais de uma vez.

Ficha Técnica:

Harvest – 2013 – Minissérie em 5 edições não lançada no Brasil

Roteiro: AJ Liebermen

Arte: Colin Lorimer

Editora Image Comics     

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Tauami de Paula
Tauami de Paula
Estudante de Letras e de Filosofia, esse apreciador do absurdo e do inexplicável sempre encontrou mais sentido na arte do que na vida. Sendo raramente visto fora de casa, passa os dias lendo, escrevendo e criando teorias sobre tudo aquilo que não entende.

1 Comentário

  1. Luciana Rocha disse:

    Onde consigo encontrar essa hq???

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